Quando Maria Aparecida Nunes Fernandes, 56, chegou a São Paulo, em abril de 1989, pretendia ficar apenas alguns meses na cidade. Então com 19 anos, deixou o Sítio Samambaia, no sertão da Paraíba, para visitar uma prima na capital paulista.
O plano mudou depois que conseguiu um trabalho como cuidadora de crianças na Vila Medeiros, zona norte da cidade. Os dois meses se transformaram em anos. Em 1994, Cida, como é conhecida, mudou-se para Guarulhos, na Grande São Paulo, e abriu caminho para os outros seis irmãos.
Meu sonho era vir para São Paulo. Naquela época, todo mundo que chegava aos 18 anos sonhava em vir para cá, lembra.
Cida no balcão do depósito de materiais de construção Fernandes Meira, em Guarulhos @Gabrielly Souza/Agência Mural
Os pais trabalhavam na roça do sertão paraibano, próximo à divisa com Pernambuco e, para os sete filhos, a capital paulista representava a possibilidade de estudar e ter melhores oportunidades de trabalho.
Aos poucos, todos os filhos vieram para São Paulo. Em 1995, chegaram a morar juntos em uma casa de apenas dois cômodos. Depois de três anos, alguns irmãos começaram a sair da casa para se casar ou morar com seus companheiros. Hoje, todos conseguiram comprar terrenos em Guarulhos e construir as próprias casas.
Na família, a mais nova a chegar em São Paulo foi Joelma Cipriano de Oliveira, 42, que veio em 1997, quando tinha apenas 11 anos. Eu vim para cá para estudar e trabalhar. Porque lá o estudo era mais fraco, conta.
Em Guarulhos, Joelma passou por diferentes empregos. Aos 17 anos, começou a trabalhar em uma lanchonete. Depois trabalhou em um pequeno mercado por 12 anos. Também vendeu roupas, fez sobrancelhas e trabalhou por conta própria.
Foi sempre um trazendo o outro, resume Joelma.
Do trabalho ao empreendedorismo
Depois de se estabelecer em Guarulhos, Cida também se tornou empreendedora. Ao lado do marido, que é mineiro, mantém há 20 anos um depósito de materiais de construção.
O comércio funciona na mesma calçada onde hoje está instalado um restaurante da família, na Estrada Velha de São Miguel, em um imóvel alugado.
A relação da família com a comida nordestina começou pelas mãos da irmã, em especial a Do Carmo Maria Nunes de Sousa, conhecida como Carmen, 49. Ela vendia tapioca, bolo e café em uma pequena barraca em Guarulhos, antes de abrir o restaurante, em 2018.
Cida e o marido atendem clientes no depósito de materiais de construção @Gabrielly Souza/Agência Mural
O trabalho começava por volta das 5h e conquistou trabalhadores de empresas próximas, com aquele cafézinho bom antes de iniciar a jornada. As vendas foram interrompidas em 2020, durante a pandemia de Covid-19. Com a retomada do movimento, teve a ideia de ampliar o negócio.
Joelma entrou na sociedade com a irmã, mesmo sem experiência no setor de alimentação e não gostando de cozinhar”, como brinca. Por isso, passou a cuidar das funções administrativas e do atendimento aos clientes.
O restaurante Sabor do Nordeste foi inaugurado em 29 de setembro de 2021. A ideia inicial era oferecer apenas café, tapioca, bolo e alguns pratos no almoço. A procura, porém, superou as expectativas já no primeiro dia.
A família precisou utilizar mesas usadas na loja de material de construção e até panelas de casa para dar conta da demanda. Três meses depois, foi necessário comprar um buffet.
Joelma, à esquerda, e Carmen, à direita, preparam baião de dois no restaurante Sabor do Nordeste @Gabrielly Souza/Agência Mural
O carro-chefe é o baião de dois, preparado com feijão-de-corda, carne-seca, queijo, nata e mandioca. Alguns ingredientes são trazidos do Ceará, estado de origem do marido de Joelma e de outros familiares.
O restaurante é administrado pela família. Maridos, cunhadas, sobrinhos e outros parentes ajudam principalmente nos dias de maior movimento.
Além de cozinhar e atender, as irmãs dividem tarefas como limpeza, compras, administração e preparação dos alimentos. Quando algum funcionário falta, elas assumem a função que precisar.
‘A gente vai limpar o banheiro, vai fazer comida porque tem que entregar as coisas’
Joelma, proprietária do restaurante
Você vê os clientes felizes, chega aqui, enche o restaurante, e falam: poxa, senhora, que comida boa. Aí te dá outro ânimo”, diz.
A família planeja investir em energia solar, reformar o piso e melhorar a estrutura do restaurante, sem nunca esquecer o que ficou para trás.