A dependência do mercado norte-americano e os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos colocam a indústria de Piracicaba diante do desafio de conquistar novos compradores internacionais sem perder espaço no principal destino de suas exportações. Durante evento da ApexBrasil realizado nesta sexta-feira (23), na sede do Simespi (sindicato das indústrias), representantes do governo federal apresentaram alternativas para ampliar as vendas externas e reduzir a exposição das empresas às barreiras comerciais.

O presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, afirmou que Piracicaba exportou US$ 2,8 bilhões e que aproximadamente US$ 2 bilhões desse total correspondem a máquinas e equipamentos. Mais da metade desse segmento tem como destino os Estados Unidos, o que aumenta a preocupação com as tarifas que encarecem os produtos brasileiros no mercado norte-americano.

Segundo Müller, alguns produtos fabricados na cidade chegaram a enfrentar tarifas de 37,5%. O receio é que o aumento dos custos reduza a procura pelos equipamentos brasileiros, com reflexos sobre a produção industrial e os empregos.

“Quando uma empresa aqui de Piracicaba vai exportar para os Estados Unidos, quando o produto entra lá, antes tinha uma tarifa, agora tem que pagar um imposto de 37,5%. Então o produto aqui de Piracicaba fica mais caro lá fora”, explicou.

Os números do comércio exterior reforçam a preocupação com o desempenho das empresas locais. Conforme levantamento publicado pelo Giro 19 em 9 de outubro, as exportações de Piracicaba somaram US$ 221,4 milhões em setembro, queda de 13,2% na comparação com o mesmo mês de 2025.

No mesmo período, as importações alcançaram US$ 329 milhões, levando a balança comercial do município a um déficit de US$ 107,6 milhões. Os Estados Unidos responderam por 49,1% das exportações piracicabanas naquele mês.

Entre os segmentos com retração, as exportações de partes de máquinas caíram 54%, enquanto as vendas externas de máquinas e aparelhos para colheita e debulha de produtos agrícolas recuaram 33% na comparação anual. As máquinas pesadas da chamada linha amarela, destinadas principalmente à construção civil e ao agronegócio, também perderam participação no total exportado.

Apesar dos números de setembro, Müller afirmou que a redução das exportações de Piracicaba no período acumulado considerado por ele foi inferior a 1%. O presidente da ApexBrasil não detalhou, na entrevista, o intervalo exato utilizado nessa comparação.

Ele ponderou que o desempenho geral das exportações brasileiras não elimina as dificuldades enfrentadas por setores específicos. A estratégia do governo, segundo ele, é manter as negociações com os Estados Unidos e, paralelamente, ajudar as empresas a encontrar compradores em outros países.

ApexBrasil prevê subsídios para empresas

Müller afirmou que a ApexBrasil pretende oferecer apoio direto às indústrias interessadas em diversificar seus mercados. Entre as medidas citadas está o ressarcimento de até R$ 40 mil em despesas com adaptação e certificação de produtos para atender às exigências de novos destinos comerciais.

A agência também pretende levar empresas brasileiras a feiras internacionais do setor de máquinas e equipamentos, com subsídio integral para aquelas afetadas pelo tarifaço, conforme anunciado pelo presidente. Outra frente é a aproximação com compradores estrangeiros, que poderão ser convidados ao Brasil para conhecer os produtos e negociar diretamente com os fabricantes.

O apoio também deve contemplar empresas que ainda não exportam e precisam de orientação para iniciar operações internacionais, incluindo preparação de planos de negócios, adequação de produtos e elaboração de contratos.

“É um apoio individualizado, também 100% subsidiado, sem custo nenhum para as empresas”, afirmou Müller.

A ApexBrasil também pretende aproveitar as oportunidades comerciais relacionadas ao acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo o presidente, a agência busca aproximar as indústrias da região de compradores europeus interessados em novos fornecedores.

Simespi defende diversificação sem abandonar os EUA

O presidente do Simespi, Paulo Estevam Camargo, destacou que Piracicaba reúne fabricantes de máquinas, equipamentos agrícolas, produtos de fundição, implementos rodoviários e autopeças. Para ele, a qualidade e a competitividade da indústria local são fatores favoráveis à conquista de novos mercados.

Camargo ressaltou, porém, que substituir o mercado norte-americano não é uma tarefa simples, principalmente para produtos industriais específicos, que exigem adaptações e certificações para atender às exigências de cada país.

“Não desistimos do mercado norte-americano. O governo federal continua as negociações, mas temos que aumentar a possibilidade de exportar para outros mercados. Vamos aumentar as exportações, não substituir”, afirmou.

O dirigente defendeu a continuidade das negociações para reduzir ou eliminar as tarifas e a atuação conjunta entre o setor privado e o governo federal para abrir novas oportunidades comerciais.

A realização do encontro em Piracicaba é resultado da articulação do Simespi para buscar alternativas aos impactos das medidas norte-americanas. Em agosto, uma comitiva liderada por Camargo se reuniu com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para apresentar propostas de apoio às empresas, preservação de empregos e proteção da cadeia produtiva regional.

Governo aposta no mercado europeu

A secretária de Comércio Exterior do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Tatiana Prazeres, afirmou que Piracicaba ocupa a quinta posição entre os municípios exportadores do estado de São Paulo e possui uma indústria que comercializa produtos de alto valor agregado.

Para ela, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia representa uma oportunidade para ampliar a presença brasileira em um mercado de grande relevância industrial. A secretária destacou que a eliminação de tarifas de importação para mais de 5 mil produtos brasileiros, conforme mencionado em sua apresentação, pode melhorar a competitividade das empresas nacionais no bloco europeu.

“É um momento histórico em que a gente precisa transformar essas oportunidades em mais exportações, em mais vendas”, afirmou.

Tatiana ressaltou que o desafio não se limita a conquistar novos compradores. Também será necessário ajudar as empresas a aproveitar as condições comerciais oferecidas pelos acordos, tanto para produtos que ainda não chegam ao mercado europeu quanto para aqueles que já são exportados.

O evento Conexões Produtivas Mercosul–União Europeia reuniu representantes do governo federal, especialistas e empresários para discutir alternativas de internacionalização. Segundo informações divulgadas anteriormente pelo Giro 19, 188 empresas estavam inscritas no encontro, realizado pela ApexBrasil em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e o MDIC, com apoio de entidades do setor produtivo.

A deputada estadual Professora Bebel (PT) esteve no evento. “Muito feliz com o sucesso deste encontro e agradeço ao governo do presidente Lula por estar agindo para ajudar a fortalecer e buscar novos mercados para os produtos brasileiros”, declarou.

Giro 19 - Evento Conexões Produtivas Mercosul–União Europeia foi realizado na manhã desta sexta (23) no Simespi

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