Toda tarde, José Borges atravessa a rua para aproveitar a sombra que se forma do lado oposto à sua casa, próxima a uma movimentada esquina de Dona Inês, no Brejo paraibano. É um ritual que se repete há quase 18 anos, desde que se aposentou. Zé Menino, como é conhecido, passa horas conversando com os vizinhos e com quem mais aparecer por ali. Da calçada onde se senta, tem uma vista privilegiada da pedreira em que trabalhou por 44 anos. É muito tempo, né?, diz, sorrindo.
Desde que se aposentou, porém, nunca mais pisou no antigo local de trabalho. Fiquei preguiçoso, brinca. O sorriso, agora, parece mais de alívio. É que o trabalho na pedreira é pesado. Ao longo de mais de quatro décadas, Zé Menino quebrou pedra à força de marreta, ferramentas manuais e dos próprios músculos. Tirou do Lajedo da Serra paralelepípedos, meios-fios e pedras para construção. Em uma semana eu tirava 1.200, 1.500 pedras. Dependia das obras na cidade.
Foi deste trabalho duro que veio boa parte do sustento da família. Eu tenho sete filhos. Criei tudo com pedra. A vida era muito difícil, mas consegui.
Tudo começou em 1966, quando Zé Menino tomou uma decisão que mudaria sua vida. Próximo de completar 18 anos, ainda morando no município vizinho de Solânea, aceitou o convite de Luiz José Hermínio, conhecido como Luiz da Pedra, para trabalhar em Dona Inês. Guarde esse nome. Ele é importante para entender como a exploração do lajedo da Serra começou.
A mudança deu certo. Sete anos depois, Zé Menino já estava estabelecido na cidade e se casou com uma cunhada de Luiz da Pedra. O casal teve 14 filhos, dos quais sete estão vivos. Dois deles também seguiram o caminho do pai e foram trabalhar na pedreira.
Quando Zé Menino chegou a Dona Inês, a enorme cratera que hoje domina parte da paisagem da cidade ainda não existia. Era o lajedo todo inteiro, recorda. Onde hoje trabalhadores e caminhões circulam em áreas escavadas ao longo de décadas, havia uma extensa formação rochosa. Zé Menino aponta para uma das partes ainda preservadas do lajedo para explicar como era antes. A pedra, segundo ele, se estendia inteira por onde hoje existe um grande vazio.
Zé Menino trabalhou durante 44 anos na pedreira de Dona Inês
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroQuando a pedra virou trabalho
A história da exploração mineral em Dona Inês começou no fim da década de 1950, quase por acaso. Em 1958, uma tentativa frustrada de construir uma barragem deixou expostas grandes rochas de granito no Lajedo da Serra. Moradores logo perceberam o valor daquele material resistente. A atividade ganhou impulso em 1962, quando o então prefeito Mozart Bezerra Cavalcanti convidou Luiz da Pedra, aquele mesmo que levou Zé Menino para trabalhar na pedreira, para ensinar o ofício e fornecer material para pavimentar as ruas da cidade.
No começo, o principal comprador era o próprio poder público. A pedra servia para calçar as ruas da jovem cidade, emancipada politicamente em 1959. Não havia ainda uma cadeia comercial consolidada nem caminhões saindo diariamente para abastecer outros municípios. Quando terminava uma obra de pavimentação, o trabalho diminuía. Era preciso procurar outra coisa para fazer.
Zé Menino voltava então para o campo. Durante anos, alternou a pedra com o corte do agave, atividade que teve peso importante na economia da região. A fibra natural abasteceu diferentes atividades industriais, mas perdeu espaço com o avanço das fibras sintéticas. Com a decadência do agave, sobretudo a partir da década de 1980, a pedreira passou a absorver parte dos trabalhadores que perderam uma de suas fontes de renda.
Como muitos em Dona Inês, Zé Menino viveu essa transição indo do agave para a pedra e, sempre que necessário, de um trabalho para outro. Estudou apenas até o primeiro ano do ensino fundamental. Quando perguntado sobre o que teria feito se pudesse escolher outra profissão, responde que qualquer outro ofício também poderia ter sido bom. Pedreiro, comerciante, qualquer coisa. Mas nunca teve oportunidade de aprender.
Com o passar das décadas, a atividade cresceu. A produção deixou de servir apenas às obras de Dona Inês e passou a abastecer outras cidades da Paraíba e até municípios de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Apesar de sua importância para a cidade, quase tudo ali funciona na informalidade e há poucos dados oficiais sobre a atividade.
Isso aqui não é força. É jeito
Dentro de um dos barracos improvisados da pedreira, Luiz Carlos Rodrigues da Silva prepara as próprias ferramentas. O ferro vai ao fogo e, quando atinge a temperatura certa, é retirado ainda avermelhado e martelado até ganhar uma ponta fina, como uma agulha. Depois, é mergulhado no óleo para ganhar resistência antes de enfrentar a pedra.
Aos 42 anos, Luiz Carlos passou mais da metade da vida trabalhando no Lajedo da Serra. Começou por volta dos 17, fazendo serviços por diária. Juntava lajes, limpava a área e realizava trabalhos que não exigiam o domínio das técnicas de corte. Mas aproveitava o tempo para observar os homens mais experientes.
Luiz Carlos aprendeu o ofício de quebrar pedras olhando os mais velhos
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroDepois do expediente, pegava as ferramentas e tentava aprender. Quando via todo mundo trabalhando, pensava que era melhor cortar a pedra do que carregar caminhão. Aí, quando terminava meu dia de serviço, ia cortar pedra para aprender.
Hoje, diante de uma rocha, Luiz explica que não adianta simplesmente bater. É preciso encontrar a veia, identificar as fissuras, escolher o lado certo e atingir o ponto exato. Uma pessoa sem experiência pode passar horas golpeando a pedra sem conseguir parti-la como deseja. Tudo isso utilizando uma marreta que pesa cerca de oito quilos. Isso aqui não é força. Isso é jeito.
O conhecimento foi adquirido na prática, observando outros trabalhadores, errando e repetindo. Não há curso, manual ou escola técnica. Na pedreira, o ofício passa de trabalhador para trabalhador e, muitas vezes, de pai para filho.
Depois de cerca de 25 anos, Luiz percorreu quase toda a hierarquia informal da pedreira. Começou como diarista, passou anos carregando material e aprendeu a cortar a rocha. Hoje, como toqueiro, controla um dos setores de exploração e trabalha com uma equipe de seis pessoas. Apesar da dureza do trabalho, Luiz não demonstra arrependimento. Não existe nada fácil aí. Tem que dar duro mesmo.
A informalidade também significa, para ele, autonomia. Não há patrão controlando o horário de entrada e saída. Quanto mais produz, mais recebe. Hoje, se o prefeito me der um emprego, eu não quero. Assim está melhor.
Essa percepção não é exclusiva de Luiz. Uma pesquisa Aspectos socioeconômicos da extração mineral no município de Dona Inês-PB, da geógrafa Natália Freire da Silva, apresentado em 2022 na Universidade Estadual da Paraíba, identificou que parte dos trabalhadores reconhecia os benefícios que uma eventual formalização poderia trazer, como renda fixa, férias, 13º salário e proteção previdenciária, mas temia perder a autonomia para definir os próprios horários e dias de trabalho.
A informalidade e as condições de trabalho no Lajedo da Serra estão na mira dos órgãos de fiscalização. Em 2026, o Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB) participou de uma fiscalização na pedreira de Dona Inês em conjunto com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e outros órgãos públicos.
Segundo o MPT-PB, foram constatadas várias irregularidades relacionadas à saúde e à segurança dos trabalhadores e ao trabalho informal. O órgão mantém, em sua sede em João Pessoa, um procedimento para investigar a atividade na pedreira.
O Ministério Público do Trabalho informou que a apuração ainda está em andamento e que, a partir dela, serão definidas as providências a serem adotadas. Procurado pela Marco Zero, o órgão não forneceu detalhes sobre as irregularidades encontradas durante a fiscalização nem sobre eventuais responsáveis.
Um plano de carreira sem carteira assinada
Embora funcione à margem das relações formais de emprego, a pedreira possui uma organização própria. Há funções, diferenças de remuneração, aprendizado técnico e até uma espécie de plano de carreira tácito.
Na base estão os diaristas, responsáveis por serviços como limpeza e preparação das áreas. Há também os carregadores, pagos para colocar nos caminhões as pedras já cortadas. Acima deles, em termos de conhecimento técnico e remuneração, estão os cavouqueiros. São os trabalhadores que sabem quebrar a rocha, transformando grandes blocos de granito em paralelepípedos, meios-fios, pedras para muros, britas e outros produtos.
No topo da hierarquia informal estão os chamados toqueiros. São eles que controlam diferentes setores da pedreira, organizam equipes, fornecem parte dos insumos e equipamentos necessários ao trabalho e fazem a intermediação com os compradores. A propriedade dessas áreas, porém, é nebulosa. Não é nosso porque não está registrado no nome da gente, reconhece Luiz Carlos.
Segundo relatos colhidos pela reportagem e estudos realizados sobre o Lajedo, os setores foram sendo historicamente ocupados e administrados por diferentes pessoas, numa relação que envolve a prefeitura e a divisão informal da área. No estudo Extrativismo mineral e seus impactos ambientais no Lajedo da Serra em Dona Inês/PB, o geógrafo Edson Felipe Pereira da Silva afirma que o lajedo foi dividido em lotes e que pessoas encarregadas desses espaços passaram a ser conhecidas como toqueiros.
Zé Menino lembra de uma versão embrionária desse sistema. Quando chegou a Dona Inês, trabalhava com Luiz da Pedra, que controlava uma área onde atuavam entre oito a dez pessoas. Os trabalhadores produziam e repassavam uma comissão a ele. A área, segundo Zé Menino, era da prefeitura. Aí ele tomou conta dessa área e botou o povo para trabalhar.
De pai para filho
Bajau já trabalha há três décadas quebrando pedra
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroSe você chegar à pedreira perguntando por Josenildo Martins, talvez pouca gente saiba de quem se trata. Mas basta perguntar por Bajau que todos já indicam o caminho de onde encontrá-lo. Aos 41 anos, ele já passou quase três décadas quebrando pedra. Começou aos doze, fazendo brita, quebrando em pedaços menores as sobras deixadas pela produção dos trabalhadores mais experientes. Com o tempo, aprendeu o ofício. Hoje, calcula no olho as dimensões das pedras e consegue produzir cerca de 1.500 paralelepípedos em uma semana.
Bajau é uma figura popular no Lajedo e também fora dele. Aparece em dezenas de vídeos publicados na internet. Um deles, postado em 2016, acumulou mais de 2,1 milhão de visualizações, mas sua história na pedreira começou bem antes.
O pai, Cícero Martins, hoje com 61 anos, também trabalhou quebrando pedra. Começou a atividade por volta dos 30, depois de passar pela agricultura e por uma temporada em São Paulo, percorrendo o caminho de muitos da sua geração. Além de Bajau, outros filhos de seu Cícero foram trabalhar na pedreira.
Quando a reportagem esteve em Dona Inês, Cícero ensinava a um deles, Josélio Martins, então com 34 anos, como encontrar o ponto certo para quebrar o granito. É mais jeito do que força. Tem que saber o lugar certo de bater.
Cícero, Josélio e Bajau: um trabalho que passa de pai para filho
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroJosélio frequenta a pedreira desde os 16 anos, quando começou carregando caminhões. Entre idas e vindas, alternou o trabalho no lajedo com empregos no comércio da cidade. Agora aprendia uma nova função. Quando pegasse o jeito, deixaria de ser carregador para se tornar cavouqueiro. Na pedreira, essa mudança significa também a possibilidade de ganhar mais.
A família Martins está longe de ser uma exceção. Zé Menino, por exemplo, trabalhou ao lado dos próprios filhos enquanto estava na ativa. Esse também é o caso de Pedro Araújo, hoje com 52 anos, e que chegou a Dona Inês em 1986 acompanhado do pai, Luiz Araújo, o Luizão. Os dois já trabalhavam com pedra no Rio Grande do Norte. Tava ruim lá e resolvi vir para cá com meu pai.
Luizão morreu aos 97 anos. Segundo o filho, trabalhou até os 90. A geração seguinte da família Araújo também passou pela pedreira. Um dos netos, João Paulo, hoje com 26 anos, trabalhava como motorista de caçamba, transportando o material retirado do lajedo.
Onde a pedra se torna pão
Edson Felipe cresceu perto do Lajedo da Serra. Durante a infância, a pedreira não era apenas parte da paisagem. Meu pai era cavouqueiro, quebrava pedras. Foi o meio que ele encontrou para a minha subsistência. Acompanhei de perto toda a dureza e o drama dessa vida.
O pai, Feliciano Ribeiro da Silva, hoje com 66 anos, sustentou a família cortando pedra. O irmão mais velho também trabalhou no lajedo antes de se mudar para São Paulo em busca de outras oportunidades. Mas Edson seguiu um caminho diferente. Eu escapei porque consegui estudar.
Edson: “Acompanhei de perto toda a dureza e o drama dessa vida.
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroFormou-se em Geografia, especializou-se em Ciências Ambientais e passou a olhar para a pedreira que marcou sua infância também como objeto de pesquisa. Depois de adulto, a gente começa a refletir sobre tudo isso.
Em 2019, transformou parte dessas reflexões em um trabalho acadêmico sobre os impactos ambientais da extração mineral no Lajedo da Serra. A pesquisa ouviu 15 cavouqueiros e 20 moradores das áreas próximas. Entre os trabalhadores, o medo de acidentes apareceu como uma das principais preocupações. Os entrevistados relataram casos de perda de membros, queimaduras graves, cegueira e até morte.
Anos depois, a experiência familiar ganhou outra forma. Em 2023, Edson participou da criação do espetáculo Onde a pedra se torna pão, apresentado na abertura da Rota Cultural Raízes do Brejo. O título resume uma das contradições mais difíceis de Dona Inês. A mesma pedra que adoece, machuca e modifica a paisagem é a pedra que põe comida na mesa.
É por meio do trabalho braçal que a pedra vem em pão se transformar, pra centenas de famílias grande fome não passar. Pois apesar de cansado, devido todo aquele solzão, a pedra que se fazia dura, na mesa se torna pão.
Trecho do musical Onde a pedra se torna pão(2023)
Uma cidade voltada para a pedreira
A pedreira já faz parte da identidade de Dona Inês
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroPor conta da topografia do local, de quase todo o núcleo urbano de Dona Inês é possível avistar o Lajedo da Serra. A pedreira está tão presente no horizonte da cidade que acabou incorporada à própria identidade do município. Mas sua importância vai muito além da geografia. É econômica.
Com pouco mais de 10 mil habitantes, Dona Inês tem uma economia fortemente dependente dos rendimentos do funcionalismo público, das aposentadorias, dos benefícios sociais, do comércio e do trabalho informal. Nesse cenário, a extração mineral ocupa um espaço importante. A pesquisa Aspectos socioeconômicos da extração mineral no município de Dona Inês-PB, já citada anteriormente, estimou que cerca de 250 pessoas trabalhavam na pedreira e concluiu que a renda gerada pela atividade circulava no comércio e nos serviços do próprio município. Uma pesquisa anterior, de 2019, falava em cerca de 300 trabalhadores.
Essa variação dos números diz muito sobre a pedreira. Não existe um cadastro público confiável de todos os trabalhadores. Não há folha de pagamento. Não há uma empresa reunindo os cavouqueiros. Não existe sequer uma única pedreira do ponto de vista de quem trabalha ali. Lá eles não consideram uma única pedreira. São várias pedreiras. A de fulano, a de ciclano, explica Edson.
Cada setor tem sua própria dinâmica, seus trabalhadores e seu toqueiro. A informalidade permite que um cavouqueiro experiente, em períodos de boa produção e muitas encomendas, possa obter uma renda superior à de muitos empregos formais disponíveis numa cidade pequena.
Foi assim que Zé Menino construiu sua vida. Ele lembra de períodos em que o dinheiro da pedra tinha um poder de compra que sua aposentadoria não tem hoje. Conta, orgulhoso, das motos e carros que conseguiu comprar ao longo dos anos. Hoje eu não posso comprar nem um pneu. Só dá para comer.
Do pó ao sol
Na pedreira, o corpo é a principal ferramenta de trabalho e também é onde o custo da atividade se acumula. Os homens passam horas expostos ao sol, à poeira e ao esforço físico repetitivo. Trabalham com marretas pesadas, ferramentas cortantes e fragmentos de pedra que podem ser projetados durante o corte. Em determinadas etapas da extração, explosivos também foram historicamente utilizados para romper grandes blocos de rocha.
Zé Menino carrega marcas desse tempo no corpo. Ruim era quando levava um machucado. Em um dos acidentes, conta, precisou levar 17 pontos na perna. O medo de perder a visão aparece repetidamente entre os trabalhadores. Pequenos fragmentos de granito podem ser lançados durante os golpes. Meu pai tem um medo danado de ficar cego, conta Bajau sobre Cícero. Ele próprio já se cortou algumas vezes e carrega na perna uma cicatriz de um acidente que terminou com três pontos.
Os riscos não estão apenas nos acidentes repentinos. O estudo Prevalência de queilite actínica em trabalhadores extrativistas minerais na cidade de Dona Inês-PB, da pesquisadora Rafaelle Ferreira dos Santos, realizado com 202 trabalhadores extrativistas, encontrou 79 casos de queilite actínica, o equivalente a 39,1% dos examinados. A lesão está associada à exposição crônica à radiação solar nos lábios e pode evoluir para câncer. Os trabalhadores pesquisados tinham uma jornada média de 7 a 8 horas por dia. O estudo também encontrou associação entre a presença da lesão, maior idade e mais tempo acumulado de trabalho.
O Lajedo que desaparece
Mariano Ferreira da Costa, morador de Dona Inês e ex-secretário municipal, conheceu outro Lajedo da Serra quando era criança. Na minha infância eram pequenos afloramentos rochosos, com o que nós chamávamos de capão de mato. E ali havia pequenas casas, casas de taipa. Em alguns pontos, a rocha ainda estava coberta por uma camada de terra e era possível se plantar.
Havia cacimbas e tanques naturais que acumulavam água nas depressões da rocha. Muitos carregavam os nomes das pessoas que viviam por perto: Cacimba de Maria Cícera, de Maria Rita, de Rita Cajueiro, tanque de João Pereira. Lá, mulheres lavavam roupas, moradores buscavam água e jovens faziam piqueniques.
Mariano é uma espécie de guardião da memória de Dona Inês
Crédito: Inês Campelo/Marco ZeroCom o avanço da exploração, as famílias foram vendendo seus pequenos terrenos. A terra foi retirada para expor o granito. A pedra passou a ocupar o lugar dos roçados, das casas e de parte dos reservatórios. Segundo Mariano, há áreas escavadas a mais de 40 metros de profundidade.
Pesquisas realizadas sobre o lajedo registraram mudanças contínuas na paisagem, degradação e perda de reservatórios hídricos e redução da flora e da fauna. Moradores das proximidades também relataram impactos provocados por poeira, explosões e abalos.
A transformação é irreversível. Mariano tentou, por diferentes caminhos, preservar ao menos parte da memória daquele território. Em 2009, quando ocupava a secretaria municipal de Cultura, reuniu toqueiros para discutir a criação do Memorial Lajedo da Serra. A ideia era preservar alguns dos grandes paredões que permaneciam em pé e transformá-los numa espécie de linha do tempo.
Anos depois, em 2023, o artista Tarcísio Play começou a pintar nesses paredões cenas da história da pedreira. A proposta era que oito grandes formações fossem preservadas. Segundo Mariano, restou apenas uma. Em 2024, trabalhadores começaram a explorar também a pedra onde estavam os painéis.
Mariano diz ter tentado argumentar. Segundo ele, em uma das discussões, lembrou a um trabalhador que aquela pedra contava a história de seu próprio avô. A resposta foi simples. O avô já tinha morrido e ele precisava colocar feijão na mesa.
A frase revela o impasse que Dona Inês adiou por mais de seis décadas. Preservar o lajedo significa limitar uma atividade da qual centenas de pessoas dependem. Regularizar a pedreira significa mexer numa forma de trabalho que muitos valorizam justamente pela autonomia. Melhorar as condições de segurança exige enfrentar uma cadeia econômica construída sobre a informalidade.