por Thiago Diniz*

Antes de tudo, queria começar dizendo que esse texto não é sobre política, é sobre imagem, comunicação e posicionamento. Sempre fui um aficionado por cinema. Até hoje, sou. Lembro bem de assistir, quando criança, a filmes da ana TV repetidas vezes, já que as emissoras compravam sempre os mesmos títulos e o Netflix era algo absolutamente distante dos anos 1980, década em que cresci.

Uma das memórias mais claras era o destino de alguns personagens no final dos filmes. Nos roteiros policiais mais previsíveis, o plano era quase sempre o mesmo: assaltar um banco e, com o dinheiro, viver

tranquilamente nos trópicos. O que sempre me deixou curioso é que um dos grandes destinos da roubalheira era ninguém menos que nós: o Brasil. Mais especificamente, viver no Rio de Janeiro parecia ser o desejo de muitos gatunos estadunidenses de olhos azuis e bolsos cheios.

Eram os anos da ditadura, e os esforços para construir uma imagem internacional do nosso país eram outros. A visão internacional frequentemente se resumia a alguma fotografia do Pão de Açúcar. Claro que turismo é apenas uma das ferramentas de construção da imagem de um país. O que eu não esperava, diante da minha antiga TV Telefunken de origem alemã, era que, anos depois, Justiça e Eleições também ajudariam a reposicionar o Brasil no imaginário internacional.

As eleições brasileiras passaram a dialogar com disputas políticas em países como Estados Unidos, França, Israel e Sérvia. É interessante observar como símbolos, estratégias de mobilização e narrativas políticas atravessam fronteiras e são apropriados por atores locais. O gesto do L, associado à campanha de Lula, também apareceu em manifestações internacionais de resistência à extrema direita. A ex-prefeita de Barcelona fez o “L” em referência à resistência contra a extrema direita espanhola. O mesmo gesto

tem sido feito em alusão ao receio do avanço da eterna candidata da extrema direita na França, Marine Le Pen. Esses movimentos não significam que o Brasil determine os rumos de outras eleições, mas revelam como repertórios políticos brasileiros passaram a circular além de nossas fronteiras.

No sentido inverso, os Estados Unidos e a Itália aparecem como destinos de políticos brasileiros envolvidos em controvérsias judiciais. E aqui não se trata de discutir culpa, mas de observar o que acontece quando um país passa a ser percebido como possível destino de atores que alegam perseguição política ou buscam distância de conflitos institucionais em seus países de origem. A percepção pública sobre esses movimentos importa tanto quanto os próprios movimentos.

É nesse ponto que a imagem internacional dos Estados Unidos merece atenção.

Durante a Guerra Fria, o país investiu na projeção de valores como liberdade, democracia e superioridade de seu modelo político. O cinema foi uma das ferramentas dessa construção simbólica. Basta lembrar o confronto entre Rocky Balboa e Ivan Drago, em Rocky IV, ou a representação do autoritarismo em Star Wars, de George Lucas. Entre entretenimento e política, narrativas culturais também ajudaram a organizar a maneira como o mundo imaginava os Estados Unidos e seus adversários. Mas o que acontece quando as ações de um país parecem entrar em tensão com os valores que ele projeta internacionalmente?Quando decisões de seu governo são interpretadas como favorecimento a aliados políticos estrangeiros, que impacto isso pode ter sobre sua credibilidade? E como públicos de outros países distinguem a defesa de princípios democráticos do uso estratégico da influência internacional?

A diplomacia pública não se resume ao que um governo diz sobre si mesmo. Ela também depende de como suas ações são percebidas por outros públicos. A imagem de um país não é construída apenas por campanhas oficiais, atrações turísticas ou produções de Hollywood. É construída, sobretudo, na relação entre discurso e prática. A pergunta que fica, portanto, é: os Estados Unidos estão diante de uma crise de imagem ou apenas revelando uma faceta de sua atuação internacional que, durante muito tempo, ficou em segundo plano?

Thiago Diniz é mestre em Marketing pela University of Huddersfield e doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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