por Adilson Paes de Souza*
A eleição presidencial não é apenas um rito democrático. É a escolha de quem terá em mãos o destino de milhões de brasileiros. Nesse contexto, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa não apenas uma opção política, mas um perigo real para a democracia, para a justiça e para a vida do povo.
Uma trajetória marcada por escândalos: Flávio Bolsonaro nunca construiu carreira fora da política. Desde cedo aos 20 anos, seu primeiro emprego foi como assessor parlamentar – esteve envolvido em gabinetes e denúncias de irregularidades, como o esquema da rachadinha, que desviava salários de assessores. Como deputado estadual, condecorou criminosos ligados a milícias e ao assassinato de Marielle Franco. Esses atos não foram coincidências: foram escolhas políticas que revelam afinidade com o crime organizado.
As ligações com milícias: o senador, quando era deputado estadual na Alerj, empregou familiares de milicianos em seu gabinete e manteve proximidade com figuras diretamente ligadas a assassinatos. Mais recentemente, como senador, sua assessoria negociou emendas parlamentares com um miliciano condenado pelo assassinato de Marielle Franco. Esses episódios reforçam a suspeita de cumplicidade com redes criminosas.
Vamos aos fatos:
Adriano da Nóbrega: ex-policial militar acusado de integrar a milícia de Rio das Pedras e o Escritório do Crime: Flávio concedeu a ele duas homenagens: a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e a Moção de Louvor. Além disso, Flávio e Jair Bolsonaro visitaram Nóbrega na prisão para entregar a medalha. Nóbrega foi morto em 2020 em uma operação policial na Bahia.
Homenageou também os PMs Élcio de Queiroz (condenado pelo assassinato de Marielle), Edson Alexandre e Ronald ambos envolvidos com assassinatos e ocultação de cadáver.
Emprego de familiares de milicianos: Flávio manteve em seu gabinete na Alerj Raimunda Veras Magalhães (mãe de Adriano da Nóbrega) e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (esposa de Adriano). Essas contratações reforçam a proximidade do senador com o núcleo familiar de um dos mais conhecidos líderes milicianos.
Negociações de emendas parlamentares: em 2023, sua assessora parlamentar negociou a liberação de R$ 200 mil em emendas com Robson Calixto (Peixe), condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.
Peixe foi apontado como quem forneceu a submetralhadora usada no crime. A Polícia Federal investiga indícios de desvio de recursos dessas emendas.
Segurança pública: a contradição. Enquanto promete combater o crime, sua trajetória mostra o contrário: homenagens a milicianos, empregos para familiares de criminosos e declarações favoráveis à legalização das milícias. No governo de seu pai, a Amazônia foi literalmente entregue às organizações criminais, com o desmonte de toda estrutura de fiscalização na região. Não há como acreditar que alguém com esse histórico vá proteger a população. A política de liberação de armas de seu pai, na realidade armou o crime organizado. Uma deputada estadual eleita pelo estado de São Paulo, pelo mesmo partido de Flávio (PL), declarou publicamente que o feminicídio não existe, que é da natureza do homem ser mais violento e que as mulheres devem ser submissas. Vamos permitir que a violência contra as mulheres seja ignorada, desprezada e normalizada? Nunca.
Não dá para acreditar que um candidato com esse tipo de relações está preocupado com o combate ao crime organizado e com a segurança da população.
Escândalos financeiros e enriquecimento suspeito: a franquia da Kopenhagen de Flávio movimentou milhões em dinheiro vivo (sua franquia recebeu mais de 1.500 depósitos em dinheiro vivo entre 2015 e 2018), levantando suspeitas de lavagem de dinheiro. A compra de uma mansão em Brasília, sem explicação convincente sobre a origem dos recursos, soma-se a investigações sobre negócios incompatíveis com sua renda. Flávio também aparece em investigações ligadas a Daniel Vorcaro, empresário citado em esquemas de corrupção, fraude bancária e financiamento suspeitos. O padrão é claro: enriquecimento sem transparência.
“Flávio defende aplicar no Brasil o modelo de Javier Milei na Argentina, marcado por cortes brutais em saúde, educação e programas sociais”.
Propostas econômicas desastrosas: Flávio defende aplicar no Brasil o modelo de Javier Milei na Argentina, marcado por cortes brutais em saúde, educação e programas sociais. O resultado já é conhecido: fome, extrema pobreza, desemprego e miséria. Importar esse projeto seria condenar milhões de brasileiros à exclusão e ao sofrimento. Um senador da base política de Flávio defende, além da flexibilização dos direitos trabalhistas, uma jornada de trabalho de 16 horas diárias. O que vai acarretar, ainda mais, um agravamento da saúde dos trabalhadores.
Catástrofes climáticas, destruição, morte e prejuízo para milhões de pessoas: Flávio nega o aquecimento global e os consequentes danos à vida e à saúde das pessoas, indo na contramão do que pesquisadores em todo mundo estudaram, estudam e tem alertado. Em razão disto a destruição da floresta amazônica, tal qual havida no governo do seu pai, ocorrerá e chegará a um patamar irreversível. Quando perguntado sobre qual política adotará para fazer frente às mudanças climáticas (notem as catástrofes que assolam os brasileiros furacões, secas, incêndios, inundações), ele respondeu dizendo que a solução era mais saneamento básico. Um absurdo. Uma total falta de respeito com a vida e o patrimônio das pessoas. Negacionismo total.
Flávio Bolsonaro não representa renovação, moralização ou segurança. Representa ligações com pessoas suspeitas da prática de corrupção, com o crime organizado e com o retrocesso social. Sua eleição será um risco direto à democracia e à dignidade do povo brasileiro.
Por isso, é preciso afirmar com clareza: Flávio Bolsonaro não pode ser presidente da República.
*Adilson Paes de Souza é coronel aposentado da Polícia Militar do Estado de São Paulo, doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da USP
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