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A imprensa continua a desempenhar um papel fundamental nessa campanha eleitoral, por maior que seja a mudança na comunicação, hoje nas mãos das big techs. Não apenas por sua credibilidade em relação à fidelidade dos fatos, mas por trazer à tona as revelações que serão depois reinterpretadas, reembaladas, disseminadas, viralizadas e até ignoradas – um processo, como sabemos, bastante sujeito à distorção para efeito de propaganda eleitoral.

No noticiário, as informações aparecem fragmentadas, às vezes trazendo pequenos detalhes de um caso complexo demais para acompanhar e o que se grava é o que se destaca no título. Por isso tantas vezes se cunhou apelidos para os casos mais notórios: privataria, mensalão, Lava-Jato, rachadinhas e, nesta campanha, Caso Master, Dark Horse, escândalo do INSS, caso Lulinha.

Mas é importante deixar claro para o leitor a diferença entre atores, escândalos, e gravidade das acusações em relação ao interesse público. Um exemplo é a confusão entre o escândalo do INSS que não só ganhou um título, mas um personagem com apelido carismático, o careca do INSS e a investigação por lobby por fornecimento de canabidiol que atinge o filho do presidente.

Ao investigar o caso do furto do dinheiro dos aposentados por descontos ilegais nas aposentadorias, a PF envolveu Lulinha em acusações que não se comprovaram, a de que teria influenciado ou obtido alguma vantagem no escândalo do INSS. Os policiais partiram então para a investigação do que se havia obtido em relação ao filho do presidente: sua ligação com a lobista Roberta Luchsinger e desta com o careca do INSS.

Pela maneira e o timing em que acusações e investigações foram divulgadas, muita gente ficou com a impressão de que se tratava do mesmo escândalo. Mas, na verdade, o caso Lulinha é referente a outro inquérito, o que investiga o lobby para obter contratos não efetivados com o Ministério da Saúde. Julgue o eleitor se fazer lobby é uma acusação tão grave quanto roubar aposentados, mas a diferenciação é importante como sabem os que exploram politicamente o escândalo.

Até porque, com esse gancho, buscou-se equiparar o suposto crime de Lulinha com outro escândalo o de investimentos de entidades de previdência de servidores estaduais em papéis fraudados do banco Master. Neste caso, os acusados são governantes e políticos ligados ao campo oposto, como o ex-governador do Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado na chapa de Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro (PL), que investiu quase 1 bilhão de reais da Previdência Rio no banco de Daniel Vorcaro.

O que nos leva a outro escândalo com impacto na campanha, esse bem documentado e com envolvimento direto do candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo dinheiro a Vorcaro em áudios gravados para o filme Dark Horse, uma biografia fantasiada do ex-presidente Jair Bolsonaro com fins políticos. Segundo o The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares foram efetivamente pagos por Vorcaro e parte deste valor foi destinada ao fundo Havengate, sediado no Texas, que tem entre seus controladores o advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto.

Mas, apesar das provas de que Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro e de que milhões de dólares foram enviados a um fundo no Texas controlado pelo advogado de Eduardo, não se teve mais notícias sobre o caso, que tem por trás o lobby de Eduardo, Paulo Figueiredo e do próprio Flávio por interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras – já em curso, como a Pública não nos deixa esquecer.

Enquanto isso, multiplicaram-se os vazamentos seletivos sobre o caso de Lulinha, e de Marcola, chefe do gabinete de Lula na presidência, que aceitou dinheiro e presentes da lobista Roberta, ao que se sabe, pelos mesmo lobby por contratos de fornecimento de canabidiol que não foram efetivados pelo Ministério da Saúde. Do lado de lá, a imprensa não tem revelado muita coisa, talvez pela maior dificuldade de investigar.

Nesta terça-feira, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, conhecido por participar do grupo Prerrogativas e agora defensor de Lulinha, pediu mais uma vez à PF que investigue o vazamento de informações sigilosas feito de forma fracionada, recorrente e cronologicamente ajustada ao calendário eleitoral sobre o filho do presidente, um procedimento que se assemelha ao caso Lava-Jato, em que informações vazadas seletivamente alimentaram o noticiário contra Lula, até que a interferência política no processo fosse desnudada pela Vaza-Jato, e a condenação anulada pelo STF.

Se a imprensa tem que noticiar o que recebe de informação, é preciso ter cautela com falsas equiparações, sobretudo ao lidar com informações provenientes de um lado só. Para complicar, o diretor da PF e o ministro do STF, André Mendonça, protagonistas na investigação de ambos os casos, estão em guerra, e isso em plena campanha eleitoral. Além disso, dados do caso Lulinha foram compartilhados com a CPI do INSS, portanto com parlamentares da oposição, o que aumenta a desconfiança sobre os vazamentos.

Andrei Rodrigues, da PF, acusa Mendonça, indicado para o cargo por Jair Bolsonaro, de dirigir politicamente as investigações e expõe o descompasso entre as revelações sobre o caso Lulinha/Marcola e Dark Horse/Flávio Bolsonaro. Por sua vez, Mendonça acusa Andrei de atrapalhar as investigações sobre o filho do presidente, embora o fato mais comprometedor para o diretor da PF se localize do lado de lá o do Master, já que Andrei participou de pelo menos uma comemoração luxuosa de Vorcaro, em Londres.

O efeito eleitoral dos escândalos é evidente, com a queda de Flávio entre abril e junho, quando o Dark Horse apareceu na imprensa, seguida de recuperação progressiva a partir de julho, quando a investigação sobre os Bolsonaro, a direita e Vorcaro aparentemente perdeu fôlego. Já Lula perdeu pontos, especialmente nas últimas pesquisas, enquanto o noticiário sobre seu filho ganhava temperatura.

Para impedir que a campanha descambe para acusações oportunistas, desviando dos assuntos importantes para o país, a imprensa tem que cobrar transparência por parte da PF e do STF, denunciar manipulações e transmitir as informações com a cautela e o equilíbrio que os eleitores merecem, principalmente em eleições com ameaças inéditas por parte de um país estrangeiro e com o domínio das redes pela extrema direita.

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