Acostumada com a incessante publicidade de bets em outdoors, no celular, comerciais de TV, merchandising em canais de YouTube, camisas de jogadores de futebol, eventos públicos e até em blocos de carnaval, me chamou a atenção, quando caminhava pelas ruas de Caruaru, a discreta placa informando dia e hora das reuniões dos Jogadores Anônimos (JA) na frente da Associação Municipal Espírita. Entrei, bati na porta, me apresentei como jornalista e perguntei se poderia acompanhar uma das reuniões. Recebi “sim” como resposta e o resultado vocês vão ler a partir de agora.
Desde que foi inaugurado, em 24 de março de 2025, o grupo de apoio JA de Caruaru, todos os sábados, a partir das 18h, recebe e acolhe pessoas do município e de outras cidades do Agreste que sofrem com a compulsão por jogos de azar e apostas online. Localizado na Avenida Professor José Leão, nº 567, no bairro Maurício de Nassau, o grupo funciona sob uma dinâmica conhecida como “terapia de espelho”, onde cada dependente tem um tempo determinado para relatar seu histórico e dificuldades enfrentadas com o vício, enquanto os demais escutam em silêncio e refletem sobre a própria compulsão. Ali, estão pessoas que apostam compulsivamente em jogos de cartas, dominó, jogo do bicho, cassinos online e inúmeros outros jogos de azar virtuais propagados pelas bets por toda parte.
Recentemente, participei de uma das reuniões do JA em Caruaru e conheci Alberto José, 42, e Lucilia Marcelino, 34, frequentadores do grupo que compartilham relatos de compulsão por jogos online que mostram como a ilusão de ganho rápido e constante vendida pelas plataformas de jogos online são uma armadilha para destruição financeira, emocional e social.
Pela manhã, Alberto trabalha como recepcionista numa clínica de psicologia e, a partir das 17h, como motorista de aplicativo. Boa parte do dinheiro que recebe se dedicando a estas duas funções vai direto para plataformas de apostas. O que sobra, fica para despesas pessoais essenciais e para ajudar a manter a casa onde vive com um sobrinho universitário. Alberto revela que tem vivido no limite, lutando para equilibrar as contas e buscando saídas para controlar a compulsão. Eu tenho essas fontes de renda e, mesmo assim, não tenho nada. Todo o meu dinheiro some instantaneamente. Graças a Deus, eu tenho conseguido manter as contas de casa e a alimentação. Mesmo assim, aos trancos e barrancos.
Alberto é um integrante recente do JA, faz poucas semanas que começou a participar das reuniões. Buscou a ajuda do grupo por perceber que a sua compulsão estava evoluindo para uma crise financeira e pessoal que poderia se tornar irreversível. Ele chegou a apostar, de uma vez, todo o dinheiro que recebeu depois de um mês de trabalho. Deixou de pagar o aluguel, comprar comida e honrar outras dívidas que tinha. Precisei apostar todo o meu salário de uma vez, deixar de pagar as minhas contas, pra parar e me perguntar aonde eu estava chegando. Aí, eu procurei ajuda, um freio pra mim. Foi aí que encontrei o JA aqui em Caruaru. Vindo pra cá, participando das reuniões, eu me sinto mais leve, sabe? Você consegue desabafar, colocar pra fora tudo aquilo que está te sufocando.
Alberto e Lucília contaram suas histórias, mas pediram para não serem fotografados
Crédito: Géssica Amorim/Marco Zero ConteúdoNa busca por frear a sua compulsão pelas apostas, Alberto também chegou a bloquear o próprio CPF em todas as plataformas de jogos online ativas no país. Foi utilizando a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada pelo Governo Federal em dezembro de 2025. Um sistema que permite que você impeça, de uma só vez, que o seu próprio CPF tenha acesso a todos os sites de apostas autorizados a operar no Brasil. Mesmo assim, bloqueado em todas casas de apostas nacionais, Alberto não conseguiu parar de apostar. Ele buscou plataformas estrangeiras, que operam ilegalmente por aqui. Hoje, eu ainda aposto. Estou buscando formas de me livrar disso, mas ainda não consegui parar de apostar. Bloqueei o meu CPF em casas de apostas brasileiras, mas procurei e passei a jogar nas plataformas chinesas. E elas não têm essa opção de bloqueio, não dá pra tentar parar assim. Elas estão ativas e a todo vapor.
Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, órgão responsável por autorizar, regulamentar e fiscalizar empresas do setor, no ano passado, mais de 25 mil sites ilegais de apostas online foram bloqueados no Brasil e 25,2 milhões de brasileiros fizeram apostas online. Lançada no início de dezembro do ano passado, apenas nos primeiros 40 dias após o lançamento, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu mais de 217 mil pedidos de bloqueio.
Alberto começou a apostar através de um link de indicação que recebeu de um amigo. Ele conta que o início foi despretensioso, que começou fazendo pequenas apostas, de valores baixos, e usava o jogo ao final do dia, depois do trabalho, como uma forma de “relaxar e se distrair”.
Sem controle, sem salário
Já Lucília Marcelino, que frequenta o JA de Caruaru desde a sua fundação, começou a jogar em sites de apostas em abril de 2022, depois de perder o emprego. Ela foi atraída por propagandas que vendiam as plataformas não como jogos de azar ou apenas diversão passageira, mas como oportunidade de ter uma fonte de renda extra. Até aquele momento, ela nunca havia se aproximado de nenhum tipo de jogo de azar. Eu nunca joguei, sempre detestei jogo. Mas, em abril de 2022, eu estava desempregada. E vendo aquelas propagandas na televisão, no Instagram, que aquilo ali também poderia ser uma fonte de renda, vi ali uma oportunidade.
Como muitos apostadores que, inicialmente, enxergam as bets como um caminho para conseguir renda extra, Lucília também pensou que havia encontrado uma forma rápida, fácil e sustentável de ganhar dinheiro, acreditando que poderia controlar as suas perdas e ganhos. Aí, eu me cadastrei e coloquei R$10. Desse valor, a plataforma me deu R$100. No outro dia, coloquei mais R$10 e ganhei R$200, depois R$500. E aquilo ali foi me deslumbrando de uma forma que eu dizia: ‘rapaz, eu passei a minha vida inteira estudando, trabalhando, para ganhar um salário mínimo, e aqui em poucos minutos eu ganho isso?’ .
Segundo levantamento daTunad, plataforma que monitora o mercado publicitário com forte presença e cobertura nos principais mercados da América Latina, em 2025, as bets investiram mais de R$ 1,44 bi em propaganda. É o que podemos descrever como um fenômeno de onipresença publicitária: as casas de apostas estão estampadas nas camisas do times de futebol, nos intervalos da tv aberta, no rádio, nas ruas e no bombardeio de anúncios nas redes sociais, por onde capturam mais usuários.
Mesmo depois de voltar a trabalhar, Lucília continuou apostando. Ela conta que conseguiu um emprego de operadora de telemarketing e que, algumas vezes, chegou a apostar todo o seu salário de uma vez. O salário caía à meia noite. Quando dava uma hora, uma e meia da manhã, eu já tinha zerado a conta. Não conseguia dormir enquanto eu não jogasse até o último centavo. Eu passava o resto do mês chorando, desesperada, sem saber como ia pagar o aluguel. Pedia dinheiro emprestado, fazia cartão de crédito no nome dos outros pra tentar recuperar o que tinha perdido em uma hora.
Lucília começou a perder o controle da sua rotina, deixou de render no trabalho, passou a não dormir e até chegou a abandonar hábitos de higiene pessoal. Eu passava a noite inteira jogando. No outro dia, eu estava no trabalho cochilando. Era acordada pelo supervisor. Perdi o amor próprio, eu deixei de escovar os dentes, de tomar banho. Eu vinha para o JA com uma calça rasgada porque não tinha dinheiro pra comprar roupa. Tudo o que eu conseguia, era pro jogo.
Ela passou dois anos afastada do trabalho. Ao procurar ajuda psiquiátrica, depois de tentar suicídio por duas vezes, recebeu um laudo de ludopatia (doença caracterizada pelo vício incontrolável em jogos de azar). “Chegou num ponto que eu não via mais saída. A dívida dobrando, o nome sujo, o desespero de ter envolvido a minha família, meus irmãos, em tudo isso… Eu não aguentava mais esse peso. Foi aí que tentei o suicídio duas vezes, uma em julho de 2023 e outra agora, no começo do ano. Eu queria sumir, eu queria que aquela dor parasse.”
Grupo se reúne em sala cedida pela Associação Espírita de Caruaru
Crédito: Géssica Amorim/Marco Zero ConteúdoA intervenção médica, o diagnóstico e o encontro com o JA foram determinantes para que Lucília conseguisse o apoio e compreensão da sua família para tentar se restabelecer psicológica e financeiramente. Foi quando todo mundo entendeu que eu estava doente, que não era frescura, safadeza minha. Eu precisava de tratamento médico e de um grupo como o JA para conseguir sobreviver”.
Mesmo em tratamento e comparecimento regular às reuniões do grupo de Jogadores Anônimos de Caruaru, Lucília ainda está suscetível a recaídas. Para driblá-las, ela conta com o apoio do JA e, com adaptações, conseguiu uma maneira de administrar o próprio dinheiro. Hoje, ela procura não ter acesso remoto a contas bancárias e não utilizar o Pix para realizar transações ou receber qualquer quantia. Eu não tenho Pix. Meu irmão é quem toma conta do meu dinheiro. Quando dá cinco horas da manhã, que entra algum dinheiro na minha conta, me dá uma agonia tão grande, que eu transfiro logo pra conta dele. Eu sei que, se o dinheiro ficar ali, a doença vai me dominar. E eu, hoje, só ando com dinheiro em papel.
O programa de recuperação de JA, inspirado no modelo dos Alcoólicos Anônimos (AA), tem ajudado Alberto e Lucília a encontrarem diariamente o resgate da dignidade na vida cotidiana. Com base na partilha e vigilância constante, seguindo o lema só por hoje, a regra número um da irmandade para fragmentar o tempo e evitar a ansiedade, focando apenas no dia de hoje, no presente.
A vitória maior, pra mim, é eu saber que hoje eu passei no mercado e fiz a feira da minha casa. Coisa que não fazia, não podia fazer. Passei três anos sem saber o que era fazer uma feira, comprar um desodorante, comprar um sabonete, um xampu. Agora, deito na minha cama e durmo em paz. Não tem dinheiro no mundo que pague a minha paz hoje”, celebra Lucília.
O primeiro grupo de Jogadores Anônimos foi fundado em 24 de janeiro de 1957, em de Los Angeles, na Califórnia (EUA). A sua metodologia foi totalmente inspirada nos Alcoólicos Anônimos (AA), que já operava desde 1935, também nos Estados Unidos. No Brasil, as atividades oficiais dos Jogadores Anônimos tiveram início em maio de 1993, com a fundação da primeira célula no Rio de Janeiro. Hoje, são dezenas de grupos espalhados pelo país.
Do AA, o JA adotou o conceito clínico e humanitário de que a compulsão não é uma falha de caráter, mas uma doença progressiva, que é incurável, mas controlável. O seu programa de reabilitação está estruturado de uma maneira a oferecer uma resposta terapêutica aos seus integrantes em duas frentes simultâneas. Uma imediata, focada na interrupção do ciclo de apostas e perdas, e outra de longo prazo, voltada para a reestruturação psicossocial e o tratamento das causas da dependência.
O método não se baseia em conceitos abstratos de força de vontade, mas sim em diretrizes práticas e comportamentais projetadas para devolver a autonomia e a dignidade aos integrantes do grupo.
É possível saber mais sobre os 12 passos para recuperação, as regras e garantias de anonimato e locais para encontros presenciais e virtuais acessando o www.jogadoresanonimos.com.br
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