No dia 18 de abril de 1996, o fotógrafo carioca João Roberto Ripper, hoje com 73 anos, desembarcou no sudeste do Pará com uma passagem comprada pela sogra, 100 reais no bolso e uma missão de registrar uma das maiores matanças no campo na história do país: o massacre de Eldorado dos Carajás. Quando eu soube que era um massacre com aquelas proporções, pelo que eu já documentava, eu sabia a importância que tinha, conta.
Neste 17 de abril, o massacre completa três décadas sob uma sombra que o tempo não conseguiu dissipar. Em 1996, o que deveria ser uma marcha por terra e dignidade transformou-se numa das principais injustiças contra camponeses que reivindicam o direito à terra, com a morte de 21 agricultores. Um episódio que redesenhou a luta agrária no Brasil e expôs a faceta da violência contra camponeses no sudeste paraense.
Naquele outono de 1996, cerca de 1.500 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acampavam na região do “S” uma curva acentuada na estrada que liga Curionópolis e Eldorado dos Carajás. O objetivo era marchar até Belém para pressionar pela desapropriação da Fazenda Macaxeira, considerada improdutiva.
A resposta do Estado, sob o governo de Almir Gabriel (PTB), foi o envio de 155 policiais militares. O que se seguiu foi uma operação marcada por irregularidades: policiais sem identificação nas fardas e armados com fuzis e submetralhadoras contra trabalhadores que portavam, no máximo, ferramentas de trabalho.
A ação resultou na morte de 19 pessoas no local e duas que faleceram dias depois devido aos ferimentos. A perícia revelou uma brutalidade que chocou observadores internacionais: muitos dos trabalhadores foram executados à queima-roupa ou por instrumentos cortantes. As fotos de Ripper foram fundamentais para a perícia.
Apesar da repercussão global, dos 155 policiais envolvidos, apenas os comandantes da operação o Coronel Mário Colares Pantoja e o Major José Maria Pereira Oliveira foram condenados a penas de reclusão, que começaram a ser cumpridas em 2012, 16 anos após o episódio. A data do massacre transformou-se no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Mais do que um marco sobre o luto, tornou-se um símbolo de resistência. O local do crime hoje abriga o “Assentamento 17 de Abril”, onde os sobreviventes e seus descendentes cultivam a terra que custou tanto sangue.
A data do massacre transformou-se no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Mais do que um marco sobre o luto, tornou-se um símbolo de resistência. O local do crime hoje abriga o “Assentamento 17 de Abril”, onde os sobreviventes e seus descendentes cultivam a terra que custou tanto sangue.
Por que isso importa?
- No Brasil, de 1985 até os dias atuais, já ocorreram 59 massacres no campo, com 302 mortes. Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
- Segundo o MST, o Pará, em 2026, segue como o estado brasileiro líder em conflitos no Campo
As fotografias de Ripper mostram uma imersão no massacre de Eldorado dos Carajás guiado pelo que ele chama de “fotografia compartilhada”, ou fotografia do bem-querer uma prática onde a câmera é um elo de dignidade. Durante dez dias, entre alojamentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), acampamento do MST e o silêncio dos velórios, ele documentou corpos marcados por tiros à queima-roupa e golpes de foice. Suas lentes registraram a brutalidade das mãos cortadas que tentavam proteger rostos, imagens que serviram como peças fundamentais para confrontar a versão oficial do Estado.
Já tinha sido feita uma autópsia, mas foi uma autópsia totalmente fajuta, de quem não queria descobrir nada. Então, o pessoal do governo, da parte dos direitos humanos, pediu (…) uma nova autópsia. Estávamos lá alguns fotógrafos e ele perguntou () faria as fotos que serviriam como prova. E aí eu fiz, conta Ripper.
Três décadas depois, Ripper um mestre em capturar a beleza das comunidades tradicionais revisita a memória daquele “asfalto de desamor”. Nesta entrevista, ele reflete sobre a dor de fotografar chorando, a “hipocrisia da imparcialidade da imprensa” e como, mesmo diante da morte, a teimosia em ser feliz e a luta pela terra permanecem como as maiores bandeiras de camponeses.
Abaixo os trechos mais importantes da entrevista de João Roberto Ripper concedida à Agência Pública.
Na semana que antecedeu o dia 17 de abril, em qual pauta você estava trabalhando? Você já estava na região?
Quando eu soube que era um massacre com aquelas proporções, pelo que eu já documentava, eu sabia a importância que tinha. Eu não sabia o quanto iria repercutir, mas que era uma coisa de fundamental importância e um absurdo de proporção descomunal, eu sabia.
Eu ia sempre para aquela região, documentei várias vezes, mas eu não estava na região quando aconteceu [o massacre]. Quando fiquei sabendo, comecei uma maratona de buscar condições para ir. Na época, a mãe da minha companheira comprou a passagem para mim emprestado, e eu fui para lá com 100 reais.
Cheguei lá no dia seguinte. Já tinha sido feita uma autópsia, mas foi uma autópsia totalmente fajuta, de quem não queria descobrir nada. Então, o pessoal do governo, da parte dos direitos humanos, pediu para o Nelson Mancini, o legista, fazer uma nova autópsia. Estávamos lá alguns fotógrafos e ele perguntou para o [Sebastião] Salgado, que infelizmente não está mais conosco, quem faria as fotos que serviriam como prova. E aí eu fiz.
É claro que consegui documentar ainda algumas outras coisas, mas fiquei muito preso a documentar todas as pessoas que tinham sido assassinadas e todos os detalhes do assassinato.; A maioria das pessoas foi morta depois de levar tiro, tanto que muitos tiveram as mãos cortadas, porque botavam a mão para se proteger. Eu documentei todos os detalhes, de todas as pessoas.
E essas fotos não eram um trabalho que eu podia fazer profissionalmente, porque você não pode entregar para imprensa uma coisa que você já sabe que tinha pedido, então eu fiz a documentação e encaminhei toda ela para apuração de um processo que foi contra o governo do Estado do Pará e contra a Polícia Militar. As fotos serviram para isso.
Depois foi feita toda uma nova autópsia, os corpos dos trabalhadores assassinados foram colocados de novo no caixão e em cima de caminhões. Os fotógrafos se dividiram e a gente foi parar na sede do Incra em Marabá. Lá os caixões foram retirados, colocados no chão, e aconteceu uma manifestação em frente ao órgão.
Depois a gente seguiu para o velório, que só acabou na noite do outro dia, e os corpos foram levados para o enterro, no muque [no braço]. Os trabalhadores levaram todos os caixões e, então, foi feito o enterro.
Quando você chegou na região, qual foi a primeira imagem que te fez entender a dimensão daquele massacre?
Toda a situação porque foi uma violência muito grande. Eu já tinha fotografado assassinatos, violências, mas eu nunca tinha fotografado um massacre. E depois a gente, infelizmente, vê que tem mais que denunciar mesmo.
O número de pessoas, nos anos seguintes, que defendiam o massacre me assustou.
Eu acho que quando a gente faz um processo de documentação, a gente não pode se furtar de mostrar as mazelas, mostrar os absurdos que acontecem, como também não deixar de mostrar as belezas que acontecem com essas mesmas populações que sofrem os massacres.
Então você vê pessoas perseguidas, pessoas que são mortas, pessoas que resistem, por exemplo, entre as populações tradicionais, entre os trabalhadores rurais, o MST, em inúmeras vezes a gente já viu trabalhadores que foram assassinados.
Você ficou quanto tempo circulando na região?
Eu fiquei mais ou menos 10 dias, eu tinha que encaminhar as fotos, tinha que fazer as reportagens, sair, e também fui muito quebrado de dinheiro.
Eu sempre tive a parceria com as organizações de direitos humanos, então se precisasse, dormia na Comissão Pastoral da Terra, num alojamento do MST, isso sempre fez parte e foi assim que eu fui esticando.
Você é um defensor da ‘fotografia compartilhada’. Como foi o processo de ganhar a confiança das famílias e dos sobreviventes em um momento de dor extrema e medo?
A primeira coisa que eu sempre uso é dizer a verdade e explicar como o trabalho é feito. E a fotografia compartilhada, que eu chamo de fotografia do bem-querer, é quando a gente consegue fotografar qualquer pessoa, qualquer grupo, independente se ele está no seu trabalho, se ele está em um momento positivo porque eles estão sempre trabalhando, festejando seus trabalhos ou se estão sofrendo uma violência, uma prisão, uma tortura ou um massacre. Você tem sempre que mostrar a realidade.
A foto, quando ela chega a qualquer pessoa, tem que ser um elo de querer bem ou de bem-querer entre o fotografado e quem recebe a foto. Acho que essa é a fotografia compartilhada, onde você compartilha com o fotografado e você deixa de compartilhar, por exemplo, com o seu chefe de reportagem com o diretor do jornal, eu prefiro muito mais esse compartilhamento.
Eu não acredito na fotografia imparcial, acho que a imparcialidade é uma grande hipocrisia. A gente tem que se posicionar. Eu faço uma fotografia que é parcial, ser parcial não quer dizer em momento algum que ela seja inventada, que ela seja feita.
Mas como você equilibra isso nesses momentos de tanta dor, de trauma? É no momento da edição ou captação?
Sempre que você está fotografando, você está vendo e repetindo para você o que é visto. Eu acho que uma foto pode mostrar a dor, a agonia ou a beleza e a alegria, mas eu acho que o fio condutor tem que ser a dignidade. Então fotografe com dignidade, seja na dor ou seja na alegria. Eu faço isso tanto na hora que fotografo, como na hora que edito.
Na edição, você pode privilegiar os absurdos e as belezas dos fazeres, ou seja, privilegia o ser humano. E tem que tentar olhar para as pessoas de forma que, ao se receber a reportagem, você faça com quem vê as fotos, queira bem a essas pessoas. Porque uma das formas violentas que existem é você não editar a beleza dos pobres.
Quando você faz esse tipo de trabalho, você tem uma opção por documentar aquela pessoa que sofre diversos tipos de violência, mas que estão constantemente resistindo teimando em ser feliz. A gente tem que mostrar isso com dignidade. Quando você edita, você está escolhendo como mostrar. Você pode mostrar uma violência e se você não tiver o cuidado e o respeito pelas pessoas, você quase que transforma a vítima em algoz. Quer dizer, a tua forma de olhar, a tua forma de fotografar e de ver com dignidade aquelas pessoas, ela é fundamental.
Passados 30 anos, você enxerga paralelos entre a violência no campo que fotografou e os conflitos agrários e ambientais que o Brasil enfrenta hoje?
A relação continua porque os massacres continuam. E aí eu acho que nós, jornalistas, somos muito responsáveis, porque a gente tem que ter força, coragem para denunciar e também para mostrar as coisas boas, porque quando você não mostra as coisas boas, elas não viram pautas, elas não viram matérias, você só separa para ser mostrado os problemas onde estão envolvidos os trabalhadores.
Então eu acho que a gente tem uma responsabilidade muito grande enquanto jornalista para continuar documentando e denunciando. Independente, se ainda não resolveu, é mais uma razão para se estar firme, até se resolver.
Pega Carajás, o que aconteceu com o governador? Se não me engano, dois comandantes foram presos. E depois fica por isso mesmo. Quer dizer, como aquilo aconteceu, como tanta gente foi morta, com tanta prova? Mortos a tiro, a facada, a golpes de foice.
Você tem todo um porquê de fazer as coisas. Quando é o Poder, o Estado, se amenizam as consequências. De repente, o Poder tem a cara de pau de dizer que foram 120 mortos, não no caso de Carajás, mas [na operação] no Rio de Janeiro, porém se 21 ou 120 tanto faz para Estado.
Eu acho que, como não se tem uma edição politizada no grosso do trabalho das informações, se atenua muito a violência do Estado. O Estado é muito responsável por esses processos e mesmo assim nenhum governador é condenado por autorizar um massacre.
Existe algum momento ou cena daqueles dias que você escolheu não fotografar por respeito ou ética, mas que nunca saiu da sua mente?
Como eu tinha que ter provas, eu acabei tendo que fotografar praticamente tudo. Eu fotografava e chorava. Agora, uma coisa que, com todo esse absurdo, que foi muito difícil, eu achei lindo, foi quando eu voltava e, à distância, eu vi um casal de velhos. E esse casal de velhos se acariciou e se beijou.
E eu vi aquilo e pensei: meu Deus, o que quer dizer isso? Tô vindo de um massacre, tô tão sofrido, tão dolorido de ver tudo aquilo que eu vi e agora estou vendo isso aqui.
E a gente tem o tempo todo que testar entre os espaços do amor e do desamor. É fácil para a gente poder ter postura de desamor, postura de competição, ou trabalhar querendo a justiça, a igualdade e o bem-querer.
Você é um fotógrafo que sempre faz questão de ressaltar e ver o ser humano pelo lado positivo. Como foi para você ter que lidar com esses momentos de tragédias?
São momentos que a gente fotografa com tristeza. Ter sentimentos, sentir tristeza, se indignar com as injustiças faz parte do legado jornalístico. Assim como se maravilhar com as coisas boas. Então, se a gente quer viver uma vida melhor, acabar com as injustiças, acabar os massacres, acabar o extremo do processo violento de Estados, que não querem que a gente veja e ouça é importante registrar, denunciar.
A gente vai completar mais um ano do massacre e os camponeses vão continuar lutando, como teve [gente] lutando logo depois do massacre, com as suas bandeiras e como luta [até hoje], seja nos exemplos do MST, seja nos exemplos das diversas populações tradicionais que existem espalhadas por esse país.
Quer dizer, as pessoas teimam em ser felizes, ainda bem. Mas a gente tem que ter clareza que é uma opção e se a gente quer estar invertendo contextos, a gente tem que ser incansável na teimosia de querer que isso acabe, para que as pessoas tenham mais condições de serem felizes.
Mesmo levando em consideração que fotográfo deseja tratar esses episódios com dignidade, parece que a violência exacerbada tem mais prestígio no cotidiano do fotojornalismo. Como você vê isso?
Sempre se educou o fotógrafo que a tragédia vale mais a pena, porque ela chama mais atenção, ela é mais fácil de argumentar, porque ela é uma tragédia.
Mesmo sendo para o fotógrafo uma situação angustiante?
É, mas ele aprendeu a trabalhar para ter a primeira página, não para mudar a realidade. A gente aprendeu o discurso de que jornalistas têm que ser imparciais. Isso não existe, é hipócrita.
Que conselho você dá para os jovens fotógrafos que querem documentar as questões sociais de hoje?
Eu acho que é manter sempre no seu trabalho a dignidade, entender que a gente não é imparcial, que a gente tem que se posicionar.
E se posicione com dignidade, tenha dignidade como o diapasão da música, da sua fotografia.
Procure temas que você possa ter afinidade e você vai ver acontecer. Se você quer documentar temáticas sociais, populações tradicionais, o Brasil talvez seja um dos países que mais têm essas populações, que todos têm uma história fantástica, mas todos têm uma história de opressão.
Então, insista, não desista nunca. Apurar cada vez mais e procurar ter sempre dignidade nas suas fotos.
Fotografar é um prazer muito grande. Às vezes a gente fotografa coisas em que a gente fica triste. Mas a gente tem que mostrar as injustiças no mundo, mas com o mesmo peso também mostrar as belezas das populações que existem e que estão lutando e que merecem ser tratadas com dignidade.
Teve o massacre, teve as dores, mas em momento algum a terra deixou de ser a bandeira do camponês. Então, a gente tem que aprender isso com eles, com as populações tradicionais, de dizer que a gente tem que denunciar as mazelas e trabalhar até que elas não aconteçam mais.
Tags:
Direitos Humanos | MST | Português | Reforma Agrária | Violência