por Jane Santos*

O medo não cria princípios. Ele os destrói. (Edward R. Murrow, em Boa Noite e Boa Sorte)

Lançado em 2005 e dirigido por George Clooney, Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck) é ambientado nos anos do macartismo e acompanha a história real do confronto entre o jornalista Edward R. Murrow e um tempo histórico em que a suspeita passou a valer mais do que os fatos, o devido processo legal foi relegado a um lugar secundário e não havia espaço para o contraditório. Em jogo não estava apenas a carreira de um profissional e de sua equipe, mas o próprio papel da imprensa quando o medo se organiza como método.

Murrow não foi um jornalista qualquer. Foi um dos nomes fundadores da prática jornalística moderna e uma referência de integridade profissional em um dos períodos mais sombrios da história política dos Estados Unidos. O escritor David Halberstam o definiu como um dos raros casos de homem do tamanho do mito – alguém cuja estatura ética resistiu ao tempo e às pressões do poder. Em uma era em que o jornalismo eletrônico ainda engatinhava, Murrow ajudou a consolidar a ideia de que informar não é amplificar o medo, mas enfrentá-lo com fatos, contexto e responsabilidade pública.

Quando a imprensa abdica desse papel, não é apenas a informação que se fragiliza é a própria democracia que perde seus mecanismos de defesa. Boa Noite e Boa Sorte mostra que regimes autoritários não se impõem apenas pela força, mas pela erosão gradual dos espaços de contraditório, pelo medo disseminado e pela naturalização do silêncio.

A narrativa do filme é contida, quase austera. Não há heróis de linguagem rebuscada nem vilões caricatos. Há redações, microfones, decisões difíceis e silêncios. O roteiro expõe como a intimidação pode se infiltrar nas rotinas, como o autocontrole pode deslizar para a autocensura e como o silêncio, muitas vezes apresentado como prudência, já configura renúncia.

“Informar não é amplificar o medo, mas enfrentá-lo com fatos, contexto e responsabilidade pública”.

Esse rigor ético encontra eco na linguagem cinematográfica. O super elenco com David Strathairn, Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Robert Downey Jr. e o próprio George Clooney sustenta interpretações precisas, sem excessos. O uso do preto e branco reforça a dimensão temporal e moral do relato, aproximando o espectador do clima documental da época e dialogando com a tradição do cinema noir.

A fotografia e a montagem são primorosas, criando uma sensação quase claustrofóbica de repetição, vigilância e tensão permanente. Um gesto especialmente potente é o uso de imagens reais do senador Joseph McCarthy, que atua como ele mesmo: o arquivo histórico dispensa caricaturas.

E a vinculação do filme com os tempos atuais? Vivemos hoje um momento marcante para a humanidade, atravessado por desafios impressionantes que frequentemente são encobertos por uma sensação enganosa de normalidade – como se tudo estivesse sob controle, em um clima artificial de estabilidade.

Nesse contexto, a comunicação ocupa um lugar decisivo. A parcialidade travestida de equilíbrio, a omissão apresentada como cautela e a desinformação amplificada por interesses editoriais e mecanismos de visibilidade não são desvios técnicos: são escolhas que moldam o espaço público e redefinem o que pode – ou não – ser dito.

Não se trata apenas de mentiras explícitas. Muitas vezes, a manipulação opera pelo enquadramento: títulos que destacam meias verdades, a escolha deliberada do pior ângulo de uma situação, a hierarquização seletiva de informações para produzir desgaste, medo ou descrédito. Textos que parecem neutros, mas carregam vieses sutis; coberturas que silenciam contextos essenciais enquanto amplificam suspeitas. Em paralelo, redes sociais fervilham e apostam também fortemente na desinformação. O resultado não é informação. É ruído orientado.

Quem já trabalhou e atuou em instituições sob pressão reconhece esse movimento. O silêncio raramente é neutro. Ele preserva posições, evita conflitos, garante sobrevivências – mas também autoriza excessos. Boa Noite e Boa Sorte lembra que a comunicação pública não é apenas um direito; é uma responsabilidade histórica. Quando dela se abdica, não se perde apenas relevância perdem-se sentidos e memórias, como bem destaca Murrow em discurso, quando homenageado.

Falo disso não como abstração. Ao longo da minha trajetória profissional e como cidadã aprendi que o medo raramente se apresenta de forma explícita. Ele se instala em camadas: na sugestão de cautela excessiva, no convite à espera, no argumento de que não é o momento. Reconhecer esse método e decidir não se omitir nunca foi simples. Os bons e as boas jornalistas sabem disso. Mas é exatamente aí que ética e responsabilidade precisam deixar de ser conceitos e se tornar prática.

Há um fio claro que liga este filme com o que apresentei anteriormente. Se em O Vento Será Tua Herança discutíamos o direito de pensar, aqui o deslocamento é decisivo: trata-se do dever de dizer.

Pensar em silêncio não basta quando o medo se organiza, quando o ruído substitui o debate e quando novas formas de controle já não precisam de censura explícita contam com a naturalização do silêncio e com a dispersão programada da atenção, como refletem pensadores contemporâneos que estudam a comunicação, a política e a sociedade da informação, a exemplo de Noam Chomsky e Christian Dunker.

Nessa perspectiva, o filme termina lembrando que a coragem, muitas vezes, não está no gesto heroico, mas na decisão cotidiana de não se furtar ao papel que se ocupa. Em tempos difíceis, esse papel não diminui. Ele se torna ainda mais inadiável.

Não falo como especialista em comunicação, mas como alguém que consome informação cotidianamente e busca, sempre, identificar a desinformação e suas nuances.

Se for assistir o filme, considere partir de dois questionamentos: O que acontece com a democracia quando a imprensa confunde prudência com omissão e silêncio com responsabilidade? e Que silêncios este filme nos ajuda a reconhecer e quais conversas ele ainda nos convoca a ter?

  • Onde assistir?

Boa Noite, e Boa Sorte não está atualmente disponível de forma regular nas plataformas de streaming por assinatura no Brasil. O filme pode ser encontrado em edições físicas (DVD e Blu-ray), à venda em livrarias especializadas e lojas on-line. Em alguns países, o título aparece de forma intermitente em catálogos internacionais de plataformas digitais, para aluguel ou compra, com disponibilidade variável conforme a região. Trata-se, hoje, de um filme que circula sobretudo por aquisição direta – o que também diz algo sobre a necessidade de preservar obras fundamentais para a memória crítica do nosso tempo.

*Médica sanitarista e psiquiatra, atuou como gestora pública e integrou o staff do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), onde se aposentou como especialista em políticas públicas do escritório regional para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.

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