O caminho entre Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, e Belém, no Pará, atravessa mais do que a distância entre as duas cidades. É o que diz o fotógrafo e documentarista Fabrício Augusto, 26, ao falar sobre as conexões que encontrou entre os dois territórios: as manifestações culturais que nascem da vida cotidiana, os saberes transmitidos entre gerações e as pessoas que mantêm vivas as tradições, nem sempre reconhecidas pelas instituições.

Foi com esse olhar que ele fotografou o Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do país. Realizada anualmente em outubro, em Belém, no Pará, a celebração homenageia Nossa Senhora de Nazaré e reúne milhões de fiéis em procissões pelas ruas da cidade. Com mais de 200 anos de história, a festividade também conta com outras romarias e manifestações populares que movimentam a capital paraense.

Fabrício durante montagem da exposição no MIS (Museu da Imagem e do Som) @Divulgação/Giovana Primo

O trabalho resultou em uma série de 20 fotografias em preto e branco, reunidas na exposição “Círio de Nazaré. Do sagrado ao profano: uma extensão do Brasil“, em cartaz no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, até 15 de novembro.

Morador da Vila Romanópolis, em Ferraz de Vasconcelos, Fabrício viajou para Belém por meio de uma bolsa de intercâmbio cultural. Selecionado em primeiro lugar no edital, ele chegou à capital paraense em 6 de outubro de 2025 para fotografar o Círio. Um ano depois, no mesmo dia, a exposição foi inaugurada em São Paulo por meio do programa Nova fotografia 2026.

Fiéis se reúnem em ruas de Belém (PA) para a procissão oficial do Círio de Nazaré, em outubro de 2025 @Fabrício Augusto

Durante a pesquisa e a viagem, Fabrício decidiu olhar para além das imagens mais conhecidas da celebração. Em vez de concentrar o trabalho dos representantes oficiais da Igreja Católica, buscou os fiéis, os pagadores de promessas e as pessoas que se organizam para fazer a festa acontecer.

Quando eu chego em Belém do Pará, percebo que o Círio de Nazaré acontece muito antes do domingo. É uma cidade toda em festa, fiéis já pagando promessas antes de a Igreja Católica reconhecer eles como pagadores de promessas, conta.

A escolha também aparece no nome da exposição. Para o fotógrafo, a relação entre o sagrado e o profano revela diferentes maneiras de viver a fé e de participar da celebração. A corda do Círio, por exemplo, tornou-se um símbolo religioso a partir da relação construída entre a população e a procissão.

Tem um pouco dessa narrativa do Círio em que o sagrado é o que a Igreja Católica estabelece e o profano é o que o povo, a periferia, à margem produz. Mas acho muito louco porque, a partir do momento em que um festejo religioso tem a corda como a principal relação com o povo, eu acho que não existe nada mais profano do que isso. Uma corda ser esse símbolo de fé que a própria Igreja Católica, a partir da população, estabeleceu como um grande símbolo religioso, explica.

A corda, considerada sagrada por fiéis, concentra a disputa entre o sagrado instituído e o profano popular @Fabrício Augusto

As histórias por trás das imagens

Ao acompanhar a preparação para o Círio, Fabrício conheceu manifestações que acontecem fora da programação oficial, incluindo uma celebração realizada dias antes da procissão, com artistas, pessoas da comunidade LGBTQIA+ e integrantes de religiões de matriz africana.

Essas experiências ampliaram o olhar do fotógrafo sobre a festa e ajudaram a definir as imagens que compõem a exposição. Seu interesse estava nas diferentes formas de participação popular e nas pessoas que contribuem para manter a celebração viva, mesmo quando não ocupam os espaços de maior visibilidade.

Integrantes de religiões de matriz africana participam de celebração paralela ao Círio de Nazaré @Fabrício Augusto

Me interessou muito mais fotografar e registrar os fiéis, os pagadores de promessas, as festas e os festejos que não são reconhecidos pela Igreja Católica como os grandes protagonistas e engrenagens que fazem essa festa acontecer, afirma.

A proposta também está expressa no subtítulo da mostra: uma extensão do Brasil. Ao reunir diferentes manifestações em torno do Círio, Fabrício amplia a reflexão para além da festa paraense e propõe um olhar sobre a diversidade do país.

O Círio de Nazaré é uma celebração em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré que reúne milhões de fiéis em Belém (PA) @Fabrício Augusto

Um Brasil que respeita a diversidade, um Brasil que dá as mãos para um morador em situação de rua, que dá a mão para a pessoa LGBT sem nenhuma distinção, explica.

De Ferraz para Belém

O olhar documental que Fabrício levou para o Círio começou a ganhar forma durante a pandemia de Covid-19, quando passou a registrar as mudanças na rotina de Ferraz de Vasconcelos. Na época, trabalhava em uma agência de venda de veículos e observava as ruas esvaziadas e, meses depois, a retomada do movimento.

Fabrício buscou retratar mais os pagadores de promessas que caminham antes mesmo do reconhecimento oficial da Igreja @Fabrício Augusto

Até então, a experiência com fotografia estava mais ligada ao teatro, à produção artística e a shows. Ao registrar as transformações da cidade onde vive, começou a enxergar a câmera também como uma ferramenta para documentar o cotidiano.

Ferraz foi essa porta de entrada para mim, afirma.

A relação com a cidade também influenciou a maneira como ele passou a enxergar a cultura popular. Para ele, as manifestações culturais não estão restritas às grandes festas ou aos eventos reconhecidos pelas instituições, mas fazem parte da vida cotidiana das comunidades.

‘Quando a gente fala de cultura popular, parece que a gente tá falando de um lugar distante, mas normalmente é um lugar onde é o sambinha que acontece no bar da esquina ali do bairro, é um saber ancestral, talvez de uma benzedeira que trata as crianças’

Fabrício Augusto, fotógrafo

Foi a partir dessa experiência que ele passou a reconhecer semelhanças entre o lugar onde vive e outros territórios. Ao chegar a Belém para fotografar o Círio, encontrou na festa elementos que também fazem parte de sua relação com Ferraz.

E com isso, percebi muito essa relação entre Belém e o território ao qual eu vivo, que é Ferraz de Vasconcelos, conta.

Fabrício começou na fotografia aos 15 anos, registrando uma peça de teatro da qual seu irmão participava. A experiência abriu caminho para uma trajetória que passou pelas artes cênicas, pela fotografia de shows e, mais tarde, pelo documentário. Ao longo desse percurso, a câmera se tornou uma ferramenta para contar histórias e registrar as experiências de diferentes pessoas e territórios.

Nunca me enxerguei nesse lugar, mas, quando isso acontece, parece que eu já me sinto pertencente. Chegar ao MIS com esse trabalho é também levar comigo o lugar de onde eu vim e tudo o que ele representa na minha formação, afirma.

EXPOSIÇÃO CÍRIO DE NAZARÉ. DO SAGRADO AO PROFANO: UMA EXTENSÃO DO BRASIL
Onde:

Museu da Imagem e do Som

Endereço:

Avenida Europa, 158, no Jardim Europa, em São Paulo

Quando visitar:

Até 15 de novembro. De terça a sexta-feira, das 10h às 19h; aos sábados, das 10h às 20h; e aos domingos e feriados, das 10h às 18h

Agência Mural - De Ferraz de Vasconcelos ao MIS, fotógrafo leva olhar da periferia para o Círio de Nazaré