A toque de caixa, a Câmara de Vereadores de Olinda aprovou, nesta terça-feira, 3 de novembro, uma lei que altera a dinâmica de um cobiçado trecho do Sítio Histórico da cidade priorizando atividades turísticas e de lazer, em vez das regras anteriores de preservação do patrimônio.

Sem consulta ao Conselho de Preservação nem participação de moradores e comerciantes, a lei foi aprovada com apenas dois votos contrários. Agora, segue para sanção da prefeita Mirella Almeida (PSD). Enquanto isso, cresce, nas redes sociais, o apelo com a hashtag #vetamirella.

O Projeto de Lei Ordinária (PLO) em questão é o 44/2026, uma proposta assinada por toda a mesa diretora da Casa, e não apenas por um parlamentar. Ele modifica trechos da Lei municipal 4.849/92, de uso e ocupação do solo, responsável por definir, por exemplo, como devem ser feitas construções, reformas e outras intervenções na Cidade Alta, além de estabelecer a preservação de áreas verdes e o respeito à paisagem urbana.

Caso Mirella sancione a nova legislação, uma área do centro histórico terá seus limites e suas condições para atividades modificadas, permitindo, na prática, por exemplo, mais bares, festas, shows e eventos, além de maior circulação de veículos e caminhões de carga.

O polígono em questão começa na Praça do Carmo, sobe pela Rua do Bonfim, até o limite do cruzamento com a Rua João Alfredo, e segue até a Praça Dantas Barreto, incluindo toda a Rua do Sol e entorno do Fortim de São Francisco.

Crédito: Reprodução/Google Earth

Moradores apontam que a medida irá favorecer diretamente a Mansão da Matuta, a maior casa de eventos do Sítio Histórico, que, além de ter sido recentemente reformada e ampliada, vem recebendo eventos com shows aos fins de semana, além de funcionar como camarote privado durante o Carnaval.

Urbanistas, moradores e comerciantes contra a nova lei temem que ela possa abrir precedentes e termine descaracterizando ainda mais a cidade que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, título concedido pela Unesco em 1982.

Em nota, a Sociedade de Defesa da Cidade Alta (Sodeca) diz que a lei pode abrir precedentes perigosos, compromete a proteção do patrimônio, impacta o caráter residencial do Sítio Histórico e ameaça o sossego, a mobilidade e qualidade de vida na área. E complementa: não somos contra o desenvolvimento econômico, mas defendemos que ele respeite as características e os limites de proteção do Sítio Histórico.

Além de comprometer a preservação do patrimônio, o PLO aprovado nesta terça (3) flexibiliza o licenciamento, ao possibilitar a concessão provisória de alvará de funcionamento. Hoje um dos principais entraves para quem empreende no Sítio Histórico é conseguir o alvará, porque a legislação limita as atividades. A nova lei pode até acabar criando uma concorrência desleal entre os estabelecimentos, dizem moradores e comerciantes que são contra a medida.

A proposta também amplia o raio de estacionamento, ao dizer que, quando não houver área disponível, o espaço destinado a estacionamento de veículos poderá localizar-se em outro imóvel, à distância máxima de 400 metros, mediante vinculação desse espaço com a edificação existente. Hoje essa distância é de apenas 200 metros.

Rua do Bonfim, no Sítio Histórico, é uma das áreas mais cobiçadas por empresários

Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero

Vereadores priorizam lazer e turismo, em vez de patrimônio

A mesa diretora da Câmara de Olinda, responsável pela novidade, argumenta que a legislação olindense precisa acompanhar a modificação do centro histórico ao longo do tempo, de setor residencial para turístico, o que, na visão dos proponentes, reforçaria a destinação vocacional da área para atividades de lazer e cultura, essenciais para a sustentabilidade econômica do município.

A mesa é composta pelos vereadores Saulo Holanda (presidente), Professor Marcelo (1º vice-presidente), Márcio Barbosa (2º vice-presidente), Jesuíno Araújo (1º secretário) e Simplício (2º secretário). Os únicos a rejeitar o projeto foram Eugênia Lima (PT) e Labanca (PV). Confira, ao final da matéria, a votação nominal do PLO e os partidos de cada parlamentar.

No texto do PLO, lê-se que o objetivo é promover adequações pontuais e indispensáveis na Lei Municipal nº 4.849, de 23 de junho de 1992, que regulamenta o Zoneamento do Uso e Ocupação do Solo no Sítio Histórico de Olinda, visando harmonizar a legislação urbanística com as transformações socioeconômicas desenvolvidas na cidade ao longo das últimas décadas, bem como conferir maior segurança jurídica, razoabilidade e efetividade à aplicação de suas disposições.

A justificativa do projeto diz ainda que a dinâmica urbana de Olinda, em especial nas áreas centrais e de relevância histórica e turística, experimentou uma transição natural com a ampliação de estabelecimentos comerciais, de serviços e gastronômicos, acompanhada da redução do uso estritamente residencial. A norma vigente, desenhada em contexto decorrido diverso, necessita de atualização para contemplar essa realidade sem impor restrições desproporcionais ou desnecessárias ao desenvolvimento local, sempre preservando as características históricas, culturais, urbanísticas e paisagísticas que justificam a proteção especial da área.

Uma nova lei da noite para o dia

Quem é contra avalia que não se pode aprovar uma nova lei da noite para o dia, sem um amplo debate, apenas porque a legislação atual está defasada. Eu, como especialista na área e como urbanista, fiquei extremamente surpreendida pelo modo como o urbanismo e o meio ambiente são tratados aqui na Câmara, disparou a arquiteta e urbanista Vera Milet, na audiência pública desta terça (3). Para ela, a nova lei não tem sustentabilidade jurídica nem técnica e urbanística e sequer consegue sobreviver ao Estatuto da Cidade, que é uma norma federal.

Moradora de Olinda, professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ex-secretária de Patrimônio de Olinda e ex-presidente do Conselho de Preservação, Vera lembra que a Lei 4849/92 foi trabalhada de 1988 até 1992, quando foi aprovada, num processo que envolveu Sodeca, comerciantes, Justiça Federal, Condepe/Fidem, prefeitura, Conselho de Preservação, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

Vera Milet está surpresa como o tema foi tratado na Câmara Municipal

Crédito: captura de tela

Durante a audiência, a especialista ainda questionou a falta de menção e de reflexão urbanística, por parte dos vereadores proponentes, das questões sobre capacidade de carga e sobre remoção de vegetação na Cidade Alta.

O que a gente vem observando, aqui no Sítio Histórico é que, sequencialmente, a moradia está sendo substituída por outros usos ou está sendo abandonada. Se vocês observarem, o Sítio Histórico de Olinda está praticamente à venda. E os imóveis estão sendo deteriorados, porque não existe possibilidade de um imóvel passar um, dois, três anos sem uso sem que se transforme em ruína, alerta.

Como exemplo, Vera cita a Rua do Amparo: está sendo predominantemente utilizada por atividades de bares e turísticas, inclusive irregulares. E um dos elementos que potencializa a perda do título de patrimônio da humanidade é esse tipo de intervenção que vem sendo feita na Rua do Amparo por imóveis que não passaram por aprovação nem do Iphan nem do Conselho de Preservação.

A vereadora Eugênia tentou vetar o PLO argumentando sua inconstitucionalidade, mas foi derrotada. A gente não pode, por um piscar de olhos, alterar essa lei, alertou. Esse projeto passa por cima do Executivo para flexibilizar a concessão de alvarás, além de alterar o zoneamento de uma área protegida como patrimônio histórico da humanidade, sem garantir a participação popular, resumiu.

Alguns vereadores falaram que houve uma audiência aqui, mas essa audiência, há uns dois meses, foi para discutir a recomendação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), não foi a mudança e alteração dessa legislação, recorda. Eugênia também reforçou a necessidade de diálogo com os diversos atores envolvidos, além de órgãos de patrimônio, planejamento, controle e fiscalização.

Na sessão passada, a gente fez esse apelo para que fosse instaurado um plano de trabalho, para que a gente tivesse esse tempo, já que a gestão, há muito tempo, nessa casa pediu a revisão desse plano e não foi feita. Então eu acho que a gente precisa ouvir quem conhece de perto, quem tem a responsabilidade pública de apresentar as soluções, debater o funcionamento dos estabelecimentos, a questão do barulho, a circulação das ruas, a fiscalização e proteção ao nosso patrimônio. E esse debate precisa de acesso prévio, proposta, tempo, contribuição, tudo que a gente está sentindo falta aqui, reclamou.

Em nota, a Prefeitura de Olinda informou que realizará a análise jurídica do projeto, assim que receber o texto integral da proposição aprovada pela Câmara. A gestão municipal discutirá os encaminhamentos cabíveis, incluindo a possibilidade de sanção ou veto, conforme os aspectos legais e o interesse público envolvidos.

MPPE

Na segunda (2), o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) havia recomendado que a Câmara Municipal de Olinda condicionasse a deliberação final e aprovação do Projeto de Lei no 44/2026 ao cumprimento das diretrizes do Estatuto da Cidade e do Plano Diretor Municipal, com a realização de audiências públicas e a elaboração de estudos técnicos de impacto urbanístico.

Aconselhou ainda que o processo legislativo incorporasse as contribuições populares e os

pareceres técnicos dos órgãos de preservação antes da votação do mérito, sob pena de a

ausência desses elementos sujeitarem uma futura declaração de inconstitucionalidade do projeto.

O documento é assinado pela promotora de Justiça Coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente do MPPE, Belize Câmara, e pelo promotor de Justiça da 3a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania de Olinda (Meio Ambiente, Patrimônio Cultural, Habitação e Urbanismo) Édipo Soares Cavalcante Filho.

Confira a votação nominal do PLO 44/2026

Contra

Eugênia Lima (PT)
Labanca (PV)

A favor

Denise Almeida (PSD)
Mizael Prestanista (PSD)
Jesuíno Araújo (PSD)
Iran Barbosa (Democracia Cristã)
Simplício (PV)
Professor Marcelo (PSD)
Márcio Barbosa (Avante)
Ricardo Sousa (Avante)
Saulo Holanda (MDB)
Biai (Avante)

Não compareceram

Felipe Nascimento (PSD)
Sarmento (PL)
Milcon Rangel (MDB)
Jadilson Bombeiro (PL)
Sardinha (Agir)

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