por Jorge Cavalcanti*
Não tenhas inveja do homem violento, nem sigas nenhum de seus caminhos. O ensinamento bíblico do Rei Salomão está registrado no Antigo Testamento, mais precisamente no livro dos Provérbios, capítulo 3, versículo 31. E tem sido colocado à prova pelo bolsonarismo que parece conter a violência em seu DNA. Foi para analisar essa premissa que o designer Lucas Mendes de Oliveira, 37 anos, que atua na área de tecnologia, decidiu fazer um levantamento de episódios violentos com evidência ou indício de que tenham sido praticados por apoiadores de Flávio Bolsonaro.
O resultado foi surpreendente até mesmo para quem acompanha de perto o noticiário político: em 24 dias, 37 casos confirmados. Dentre eles, três ocorrências de agressão física, uma delas praticada contra um homem por outros dois, sendo um deles assessor do vereador Jair Renan Bolsonaro, irmão do então candidato a presidente do PL e vereador em Balneário Camboriú (SC).
A pesquisa compilou também outros 57 casos que estão catalogados como em apuração. Estes envolvem, por exemplo, a morte de cinco pessoas, uma tentativa de homicídio de uma mulher em Minas Gerais e um atropelamento de um homem por uma viatura da Polícia Rodoviária Federal em Santa Catarina.
Vi vários casos fragmentados de pessoas compartilhando episódios de violência, inclusive aqui no Recife, na Praça de Casa Forte. Eu já tinha feito algo similar, mas para outras questões. Daí quis entender se a percepção que eu tinha, da minha bolha, era um problema maior. E, de fato, ficou demonstrado que é, contextualiza Lucas Mendes.
Algum caso concreto pode ter ficado de fora da contagem, mas o resultado final é suficiente para nos dar a dimensão da violência muitas vezes praticada por apoiadores desse projeto político e ideológico, ressalta o designer.
O levantamento foi feito com o uso do assistente de inteligência artificial chamado Claude, montado a partir de buscas por cada estado da federação e compreendeu o período de 4 a 28 de outubro; ou seja, o dia da votação do primeiro turno das eleições, todo o segundo turno e os três dias subsequentes.
Cada caso foi checado com, pelo menos, duas fontes, uma delas sendo veículo da mídia corporativa tradicional ou órgão oficial.
Na listagem, o episódio consta como confirmado quando corroborado por fonte de nível A ou site ou perfil de órgão oficial, e o autor pode ser identificado como alguém com identificação ideológica com o bolsonarismo por meio de aspectos como o uso de camisa ou adesivo 22, presença em ato pró-Flávio, declaração ou perfil de rede social.
Para o levantamento, Lucas Mendes, que trabalha com artefatos digitais, considerou como fonte nível A veículos como G1, Folha, Estadão, UOL, CNN, Metrópoles, Agência Brasil e Reuters. Completaram a categoria jornais regionais de referência e agências de checagem. Nos casos em que um episódio foi registrado em mais de um local, as duplicidades foram desconsideradas.
Vereadora do PT é apedrejada e ferida no rosto
Iara Pimentel, de Montes Claros, Minas Gerais, precisou ser internada em hospital em decorrência de ter sido atingida na região da cabeça por pedras e objetos atirados a curta distância por apoiadores de Bolsonaro. O episódio ocorreu no dia 24, um sábado. O ataque a impôs convulsões, fraturas no nariz, suturas na face e o uso de medicamentos. No levantamento, está catalogado como tentativa de homicídio.
No dia seguinte ao ataque, com rosto bastante inchado, Iara Pimentel olhou para a câmera e asseverou: a gente segue na luta. Nós, que viemos de baixo, sabemos que luta é para toda vida e não vamos desistir de lutar por democracia, de lutar por um país mais justo, uma cidade mais justa. O vídeo publicado no seu perfil do Instagram ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações, embalado por uma corrente de indignação e solidariedade.
Coordenadora do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Natália Cordeiro tem acompanhado de perto o recrudescimento da violência política de gênero no Brasil, com a organização da extrema-direita facista em torno do bolsonarismo. Nos últimos tempos, temos visto a retomada do papel da mulher fincada unicamente no ambiente doméstico e, portanto, que precisa ser mantida distante da coisa pública e da política institucional. Em paralelo, ocorre a demonização e perseguição da figura do outro, que pode ser a mulher, o negro, o petista. Tanto no campo do simbólico quanto do prático, essa tipo de ideologia precisa da violência para se manter, analisa ela, que também é educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia.
Homem desfere socos em mulher e é liberado por PMs
O caso da vereadora do PT Iara Pimentel foi o de maior repercussão na mídia e nas redes digitais, por conta do flagrante em vídeo e da brutalidade das cenas, mas esteve longe de ser o único considerado grave. Também no dia 24, véspera da eleição, em São Paulo, um homem branco desferiu três socos contra uma mulher que vestia camiseta vermelha. Dois policiais militares intervieram e, em seguida, liberaram o suspeito sem ao menos perguntar-lhe o nome.
Os agentes envolvidos na ocorrência são dos quadros da ativa da Polícia Militar de São Paulo, do governador por Tarcísio de Freitas (Rep), a mesma instituição a que pertencem, pelo menos, outros três PMs que foram apontados como responsáveis por obrigar suspeitos de tráfico de drogas a vestirem camisetas com referência à campanha de Lula. O caso ocorreu na comunidade Vitória do Pantanal, em Piracicaba, cidade do interior, há quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais.
Episódios com morte, obviamente, ocupam a faixa de número 1, a de maior gravidade da pesquisa, seguidos por tentativa de homicídio e lesão grave. Agressão física (3); intimidação ou coação (4); ameaça, perseguição e ofensa (5); dano a patrimônio (6); absurdo institucional (7); e fake news e ataque simbólico (8) completam a catalogação.
Perseguição econômica é a novidade
Parlamentares do PL e influenciadores digitais, desta vez, pediram publicamente a demissão de petistas, com referência a todo e qualquer eleitor(a) das 64.256.232 pessoas que votaram pela reeleição do presidente Lula.
Em quatro cidades do Rio Grande do Sul e em outras seis do Espírito Santo, circularam listas de boicote a comerciantes. Vamos matar esses desgraçados de fome e só na bala foram alguns dos dizeres por escrito. O Ministério do Trabalho e Emprego, do governo federal, recebeu 4,3 mil denúncias de assédio eleitoral no trabalho em apenas três dias.
Violência escalonou e foi maior onde Bolsonaro tem mais apoio
A onda de violência seguiu um escalonamento à medida que se aproximava o dia da votação do segundo turno das eleições. De 4 a 17 de outubro, foram 3 casos confirmados e 5 em apuração. De 18 a 24, saltou para 4 confirmados e 10 em apuração. O momento mais agudo foi o dia do comparecimento à urna (25), quando foram catalogados 6 casos confirmados e 18 em apuração.
Os Estados do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) – onde o agronegócio é forte, assim como o apoio a Bolsonaro – concentraram os casos que envolvem armas de fogo e ameaças a indígenas.
A coordenadora-executiva do Gajop, Edna Jatobá, destaca a importância dos símbolos na política. O gesto da arminha, marca do bolsonarismo, fortalece uma narrativa política que apresenta a violência como resposta legítima aos conflitos sociais. E quando a violência é incorporada à linguagem e simbologia de um movimento político, há o risco de que ela passe a ser socialmente tolerada ou até estimulada. Vale lembrar que, na campanha de 2018, Bolsonaro, de cima de um trio e segurando o tripé do microfone como se fosse uma arma, soltou um bora fuzilar a petralhada aqui do Acre.
Mestre de capoeira foi a 1ª vítima da letalidade bolsonarista
Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido como Mestre Moa do Katendê, pode ser considerado a vítima de número 01 da violência letal do bolsonarismo. No dia 8 de outubro de 2018, após o resultado do primeiro turno das eleições no Brasil, ele chegou ao Bar do João, na região central de Salvador, acompanhado de um irmão. Juntamente com um amigo em comum, começaram a falar sobre a eleição, até serem interrompidos pelo barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos.
O dono do bar olhou para Paulo Sérgio e o censurou pela intromissão na conversa alheia e a má educação para com um senhor sexagenário. O barbeiro, então, pagou a conta e se retirou. Pouco tempo depois, ele retornou e surpreendeu Moa com 12 facadas.
Para a contra-mestra de capoeira Gaby Conde, o bolsonarismo pode ser considerado uma atualização das correntes do colonialismo, um projeto que reafirma estruturas históricas de dominação e impõe uma forma violenta e perversa de se relacionar com a diferença.
Mestre Moa carregava, simbolicamente, muitos dos marcadores que esse projeto odeia: era negro, periférico, artista, mestre de uma cultura de matriz africana, capoeirista e de esquerda. Seu assassinato não pode ser dissociado desse contexto de violência política. A capoeira, no entanto, conhece essa história há séculos. Foi perseguida, criminalizada e tratada como caso de polícia porque representava muito mais do que uma prática corporal. Era espaço de organização, identidade, solidariedade e afirmação da liberdade negra.
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