É como se os eleitores norte-americanos, depois de uma longa noite de farra, tivessem acordado de ressaca, arrependidos das decisões da noite anterior.

Com os democratas conquistando com facilidade ampla maioria na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e assumindo o controle do Senado, o eleitorado enviou uma mensagem clara: está cansado de Donald Trump. Em vários estados, os republicanos sofreram uma derrota histórica. Foi um tsunami azul, a cor do Partido Democrata.

Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews obteve uma vitória surpreendente sobre Darline Graham na disputa pela cadeira no Senado, anteriormente ocupada pelo irmão de Graham. No Texas, o deputado estadual democrata James Talarico derrotou o procurador-geral republicano Ken Paxton na disputa por uma vaga no Senado, enquanto a deputada estadual Gina Hinajosa venceu o governador republicano Greg Abbott. Ela será a primeira governadora latina do estado, onde um democrata não vence o Senado desde 1988.

Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff foi reeleito com facilidade, e a ex-prefeita de Atlanta Keisha Lance Bottoms foi eleita governadora por ampla margem de votos. Ela será a primeira mulher negra a comandar um estado na história dos Estados Unidos.

Os candidatos democratas ao Senado também venceram nos estados republicanos do Meio-Oeste do país, Iowa e Kansas. Já em Ohio, a democrata Amy Acton derrotou Vivek Ramaswamy na disputa pelo governo estadual. Na Flórida, deputados democratas que eram alvos do redesenho eleitoral feito pelos republicanos nos distritos do estado sobreviveram à disputa. 

Em todo o país, os democratas derrotaram com ampla margem os candidatos republicanos à Câmara em distritos nos quais Trump havia vencido por dois dígitos nas eleições de 2024.

À medida que as notícias desastrosas para Trump e o Partido Republicano se acumulavam, o presidente fez uma série de posts nas redes sociais reclamando da rede de televisão Fox News. Enquanto isso, assessores da Casa Branca tentavam freneticamente lembrar aos jornalistas que Trump não era candidato naquela eleição. Mas há alguns dias, Trump disse: Peço a todos que finjam que meu nome está na cédula.

Esses resultados sinalizam que a política repugnante de Trump baseada em mentiras, enganos, divisão, preconceito, tribalismo, ódio e demagogia, plenamente abraçada pelo Partido Republicano já não encontra eco na maioria dos americanos. Seus discursos estridentes, nos quais acusa os democratas de serem comunistas que odeiam os EUA, de quererem impor cirurgias de transição de gênero a crianças e de destruir o país, não conseguiram desviar a atenção da maioria dos eleitores. 

As realidades escancaradas do segundo governo Trump são preços elevados, a guerra no Irã mal conduzida e com objetivos equivocados , uma cruzada cruel de deportações em massa, uma política econômica errática e improdutiva, corrupção descarada e em larga escala, autoritarismo crescente e doses generosas de caos.  

As eleições de 2026 estabelecem um claro padrão. Os eleitores podem cair na conversa de Trump quando ele é candidato, ataca as elites que estão no poder e faz grandes promessas (como a de uma era de ouro para os EUA). Mas, na hora de avaliar seu desempenho na Casa Branca, a aprovação desaparece. 

Em 2016 e 2024, ele teve uma boa performance como aspirante à Presidência, desempenhando o papel de herói nacionalista e grande outsider que poderia enfrentar o sistema, confrontar as elites, provocar os liberais e garantir prosperidade. Essa encenação vendida com a convicção de um vigarista e a empolgação de um anunciador de circo funcionou.

No entanto, Trump na Presidência não impressiona, e suas ações na Casa Branca provocam reações contrárias. Em 2018, os eleitores se voltaram contra ele, e os democratas conquistaram a Câmara dos Representantes. Em 2020, enquanto Trump administrava mal a pandemia de Covid-19, os eleitores o tiraram do poder e entregaram o comando a Joe Biden. Os democratas mantiveram o controle da Câmara e conquistaram a maioria no Senado.

As eleições de meio de mandato de 2026 seguem a mesma tendência. Depois de quase dois anos de crises, autocracia, brutalidade, corrupção, políticas plutocráticas e todo tipo de excentricidade, os eleitores rejeitaram pela terceira vez uma presidência de Trump. Isso significa que o republicano nunca recebeu uma avaliação positiva de seu desempenho por parte do eleitorado.

Estas eleições de meio de mandato foram as eleições do dia seguinte. Como mostram os índices de aprovação de Trump, em queda vertiginosa, os eleitores vinham alimentando um profundo arrependimento pela escolha que fizeram. Trump percorreu o país pedindo aos cidadãos que votassem como se seu nome estivesse na cédula. E foi exatamente o que eles fizeram. 

Ele conduziu seu Partido Republicano ao fracasso. Nem mesmo sua tentativa de manipular as regras eleitorais por meio de um redesenho racista dos distritos de votação dos estados conseguiu salvá-lo e seus seguidores fanáticos do Partido Republicano.

Os presidentes dos EUA costumam sofrer derrotas expressivas nas eleições de meio de mandato (levam uma surra, como definiu Barack Obama em 2010). Mas, desta vez, foram as próprias decisões e ações de Trump a guerra no Irã, as tarifas, a criação de uma força policial secreta para prender moradores que respeitam a lei, a destruição de setores fundamentais do governo federal, a devastação dos sistemas públicos de saúde e de pesquisa médica do país, a campanha megalomaníaca para colocar seu nome no Kennedy Center e em outras instituições, entre outras medidas que fizeram sua impopularidade ultrapassar em muito a tendência histórica.

Trump fez isso consigo mesmo e com seu partido. Esta eleição foi um sonoro não ao ICE, à guerra comercial com o Canadá, à aproximação com Vladimir Putin, ao retrocesso democrático e à tentativa de tomar a Groenlândia.

Os últimos dias da campanha foram marcados por inúmeros sinais das feridas que Trump provocou em si mesmo. Ele fez um discurso absolutamente bizarro (até para seus padrões) diante do espelho dágua em frente ao Lincoln Memorial, no coração de Washington D.C., no qual se gabou de sua suposta vitória sobre as algas que povoaram a piscina durante uma reforma controversa promovida por seu governo. (Quantos americanos se importavam com isso?) 

Em seus últimos comícios de campanha realizados em estados republicanos onde, surpreendentemente, os candidatos do partido pareciam vulneráveis , Trump continuou afirmando que a economia estava ótima, fez comentários sobre as bundas das pessoas e disparou declarações islamofóbicas. Muitas vezes, divagava de forma desconexa e emitia sons que não chegavam a formar palavras. Não parecia estar bem.

Ao longo da campanha, o presidente dos EUA praticamente não tomou nenhuma medida para responder às preocupações de eleitores que não fossem seguidores do MAGA (Make America Great Again, seu movimento político), a não ser oferecer o falso suborno de US$ 5 mil a todos os adultos americanos.

Trump não tinha nada a dizer sobre a crise do custo de vida e chegou a negar que ela existisse, enquanto os democratas, com razão, insistiam repetidamente no tema. Também não abordou a alta dos gastos com saúde e moradia. O republicano argumentou ainda que o valor mais caro da gasolina era um pequeno preço a se pagar pela guerra no Irã, que aparentemente ele não consegue encerrar. 

Durante a campanha, ele fez ainda promessas vazias sobre a redução dos preços dos combustíveis e apostou no ódio, demonizando os democratas como radicais e excêntricos antiamericanos. Disse que drenaria o pântano de Washington, D.C. (em referência ao combate ao establishment político e ao fim dos malfeitos no governo). Em vez disso, explodiu os diques e deixou o esgoto da corrupção invadir a Casa Branca.

Trump se transformou em um espetáculo de variedades cruel e grotesco. Isso pode funcionar para um candidato, mas não para um presidente.

O vice-presidente JD Vance, sua versão em miniatura, também aderiu à onda de ódio. Em um comício do republicano Vivek Ramaswamy, candidato derrotado ao governo do estado de Ohio e responsável pela propaganda mais desprezível da campanha eleitoral, Vance bradou: 

Vi a notícia de que existem comunidades ilegais de imigrantes ilegais somalis que estão se coordenando para inundar as urnas e abafar o seu voto… Queremos que as eleições americanas pertençam aos cidadãos americanos. Enviem uma mensagem votando em Vivek para governador.

Não havia notícia alguma nesse sentido. Vance estava simplesmente explorando o racismo, talvez como uma prévia de sua campanha presidencial de 2028.

Trump e seu partido despejaram toneladas de desinformação e de porcaria sobre os eleitores americanos. E Elon Musk gastou (na verdade, desperdiçou) quase meio bilhão de dólares para apoiar candidatos republicanos e atacar democratas, com boa parte desse dinheiro destinada ao Texas, para ajudar Ken Paxton, procurador-geral do estado e candidato derrotado ao Senado.

Mas nem mesmo o dinheiro vindo de Marte foi capaz de salvar os republicanos do colapso provocado por Trump. Menos de dois anos após sua volta ao governo, a maioria dos norte-americanos deseja uma mudança de rumo. Eles gostariam de acreditar que a última eleição nunca aconteceu. Mas aconteceu. E muitos danos já foram causados.

Parar de cavar é o primeiro passo para sair do buraco. Este passo já foi dado. Mas a bagunça continua, assim como Trump, ferido, furioso e pronto para provocar ainda mais estragos. A faxina depois da ressaca não termina com esta eleição. Ela está apenas começando.

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