Cuidado! Ele pode aparecer a qualquer hora. De dia ou à noite, nas ruas mais movimentadas ou nos lugares ermos de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. É branco como os ossos e vermelho como o sangue. Ao seu redor, caveiras se enfileiram entre lanças e estacas, em sinal de boas-vindas a quem o espera.
A aparição é velha conhecida na cidade e tem nome: Carro Phantasma. Estamos falando de um Fiat Tipo branco, ano 1994, coberto de tinta vermelha e objetos de terror pendurados na lataria. Desde 2020, o veículo circula pelas ruas de Mogi, assustando e divertindo os moradores.
O videomaker e ator Marcos Perrin transformou a mao o Fiat Tipo 1994 no Carro Phantasma @Renan Omura/ Agência Mural
O pessoal fica olhando meio torto, desacreditando, já fazendo o sinal da cruz. Nesse ponto, eu consegui ver que cheguei no que queria: impressionar no realismo da pintura, afirma o videomaker e ator Marcos Perrin, 59, dono do veículo e da ideia.
O carro ganhou repercussão durante a pandemia de Covid-19, quando Perrin passou a circular pelas ruas da região caracterizado como uma figura assombrada. Com um megafone, ele anunciava o toque de recolher e chamava a atenção de quem ainda fazia aglomerações durante a quarentena.
Eu falava: ninguém sai na rua!, lembra o videomaker. Mais de seis anos depois, o veículo continua circulando pela cidade e despertando a atenção dos moradores. Algumas pessoas conhecem o carro fantasma pelas redes sociais e quando o vê pessoalmente ficam surpresos, comenta satisfeito.
Uma história de terror
A caracterização começou em outubro de 2015, quando Perrin comprou o Fiat Tipo branco e decidiu transformá-lo em um veículo com aparência de terror. A ideia nasceu do seu gosto por filmes e jogos assustadores e da vontade de criar uma proposta original que pudesse ser usada em eventos.
Inspirado por produções como The Walking Dead e Resident Evil, ele quis experimentar uma caracterização que fugisse do aspecto artificial das fantasias.
Tem que ser realista e não caricato… Nunca tinha visto um carro de terror rodando, então decidi criar um.
Marcos Perrin
O primeiro teste foi em outubro de 2015. Na época, Perrin aproveitou materiais de maquiagem que já tinha em casa, colocou uma máscara de caveira e saiu com o veículo pelas ruas. A recepção do público o incentivou a continuar.
Já ganhei alguns acessórios, como um pequeno caixão do Cemitério São Salvador de Mogi. Também ganhei uma caveirinha de um menino que estava doido para me encontrar e entregar o presente, conta.
Carro Phantasma tambem marca presenca em encontros de carros e eventos particulares @Arquivo pessoal
A partir daí, o videomaker passou a pesquisar materiais, testar tintas e modificar a pintura. Incluiu caveiras, mãos nos retrovisores, peças decorativas e adesivos refletores. Levou 10 anos para ele chegar no resultado que buscava.
Fui fazendo tudo aos poucos, desde a pintura até os detalhes das caveiras. Fui comprando e testando os materiais até chegar ao resultado que queria. Normalmente, eu retoco a pintura a cada três meses.
Pintura feita por Perrin busca reproduzir o aspecto de sangue coagulado e da realismo ao Carro Phantasma @Renan Omura/ Agência Mural
Toda categorização do veículo é feita com tinta, sem envelopamento. Para criar o efeito de sangue, Perrin testou diferentes produtos, como sprays e tintas vermelhas de vários tons. Encontrou no verniz vitral vermelho, o material que mais se aproximava do efeito desejado.
O trabalho não termina na pintura. Perrin faz a própria manutenção do veículo e cuida da conservação dos elementos decorativos. Algumas peças já estão no carro fantasma há anos, outras precisaram ser refeitas ou substituídas devido ao desgaste.
Criado em 2015, Carro Phantasma mistura cinema, criatividade e terror em Mogi @Renan Omura/ Agência Mural
A preocupação com o realismo orienta a escolha dos acessórios. No carro fantasma, as caveiras precisam ter uma aparência convincente, não infantilizada. Algumas réplicas de crânios receberam iluminação nos olhos, que acende quando ele pisa no freio.
Apesar de assustador, o carro continua fazendo parte das atividades cotidianas do proprietário. Perrin usa o Fiat Tipo para ir ao mercado, trabalhar e levar a mãe a compromissos. Ele é meu carro do dia a dia, uso ele pra tudo.
‘Algumas pessoas conhecem o carro pelas redes sociais e quando o vê pessoalmente ficam surpresos’, comenta Perrin @Renan Omura/ Agência Mural
Terror pela saúde
Uma das aparições mais marcantes do Carro Phantasma foi em uma campanha de incentivo à vacinação contra a Covid-19, em agosto de 2021. Chegou um carro desse, com meu personagem com a cara ensanguentada, vestido de Morte. Eu passava e perguntava: vocês vão tomar vacina, né? A ideia era conscientizar.
Hoje, Perrin leva o veículo a encontros de carros e atividades particulares em Mogi das Cruzes e em outras cidades da região. Dependendo do espaço, monta um cenário de cemitério e acrescenta acessórios, como um caixão ou personagens de terror.
A pedido de alguns casais, já organizou passeios para que eles pudessem observar as reações dos pedestres ao encontrá-los. Para Perrin, observar o público faz parte da diversão.
Algumas pessoas me procuram para dar um passeio no Carro Phantasma. A partir de um determinado valor, dou uma volta com elas., comenta.
Do cinema ao carro fantasma
O projeto reúne interesses que acompanham Perrin desde a adolescência. Ele gosta de inventar histórias e de cinema, o que despertou sua curiosidade por efeitos especiais e pelos bastidores das grandes produções.
Sempre gostei de criar, inventar histórias e dar vida aos personagens. Aos 14 anos, fui me envolvendo com vídeo, edição, maquiagem e efeitos especiais.
Quando participa de eventos, Marcos Perrin aproveita o espaco para montar cenarios de cemiterio e ampliar o universo de terror criado em torno do Carro Phantasma @Arquivo pessoal
A partir dos anos 1980, começou a experimentar trabalhos profissionais na área. Em 1990, integrou a equipe do laboratório de rádio e vídeo da UMC (Universidade de Mogi das Cruzes). Participou de produções audiovisuais, concursos e projetos de animação, além de atuar e de trabalhar com edição.
Uma das lembranças que guarda é a participação em um concurso da MTV, em junho de 1991, quando um videoclipe produzido por ele ficou entre os dez melhores trabalhos. Em novembro de 1999, também conquistou o primeiro lugar na Categoria Profissional de um concurso de audiovisual na região.
Cada projeto foi trazendo uma experiência nova, tanto na parte técnica quanto na criação
Marcos Perrin
Perrin ainda realiza trabalhos audiovisuais, mas busca oportunidades no cinema e na atuação. O carro acabou se tornando uma forma de reunir parte das experiências, incluindo maquiagem, criação de personagens e efeitos visuais.
Ele não pensa em vender o Tipo nem em reproduzir o projeto em outro modelo. Mesmo que fosse possível encontrar outro veículo igual, acredita que o resultado não seria o mesmo. A gente vai se apegando no bichinho, né, conclui.
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