Lula (PT) venceu as eleições de 2026 no segundo turno, em uma virada inédita que lhe rendeu o quarto mandato à presidência do Brasil. A votação expressiva foi puxada por movimentos sociais, coletivos e estudantes, que enxergam no partido e no presidente possibilidades de alavancar pautas progressistas.

No entanto, o petista terá desafios para governar pela frente, com o Congresso mais conservadora de todos os tempos.

A Agência Mural perguntou a analistas políticos das periferias qual o futuro da esquerda da esquerda nas próximas eleições? Estar atento ao poder das plataformas digitais, manter a mobilização popular e escutar ativamente os eleitores foram estratégias da campanha de Lula no segundo turno que podem ser norteadoras das próximas disputas.

Plataformas digitais

Um fator de extrema importância foi a mobilização nas redes sociais direcionada pelo deputado federal André Janones (Rede), no canal de Whatsapp Exército do Lula”, que chegou a ter 10,8 milhões de inscritos.

As ações coordenadas ampliaram a circulação de mensagens de apoio a Lula e deram à esquerda o domínio das redes, um campo até então dominado pela direita. É uma estratégia que representa um salto na apropriação coletiva das mídias digitais, segundo a cientista política da USP Beatriz Mendes.

Beatriz Mendes é doutoranda em Relações Internacionais, mestre em Ciência Política e bacharela em Gestão de Políticas Públicas pela USP @Arqueivo pessoal

Ele [Janones] conseguiu transformar a vontade de ajudar em um percurso estruturado, com tarefas realizáveis, criando um sentimento de pertencimento em que cada pessoa consegue se ver contribuindo para uma construção coletiva, comenta.

As plataformas digitais são, cada vez mais, um espaço para fazer campanha e precisam ser vistas como estruturas de poder para o futuro da esquerda.

A Meta – empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook – é alvo de investigações e análises pelo Supremo Tribunal Federal, após indícios de interferência nas eleições de 2026  com favorecimento das postagens do candidato Flávio Bolsonaro (PL).

Fonte: ICL

Conhecer o ambiente em que a disputa acontece, entender como se comunicar e construir formas de participação que façam sentido são ações essenciais. Isso também exige compreender o que gera engajamento e alcance, quais conteúdos mais circulam, como os algoritmos distribuem informações e o que mobiliza as pessoas.

É uma mudança na relação com a militância, que passa a participar ativamente da comunicação e ser porta-voz dessa transformação que queremos gerar no mundo, sobretudo a juventude, acrescenta Beatriz.

No Capão Redondo, também na zona sul, manifestantes levam a bandeira do Brasil como símbolo @Samara Silva/ Arquivo pessoal

Escuta ativa e debate para além dos sindicatos 

O cientista político Tiarajú Pablo explica que a base de Lula enxergou Flávio Bolsonaro (PL) como um adversário fácil de ganhar. A história mostrou que não era bem assim, comenta. A demora em revelar escândalos nos quais o então candidato do PL estava envolvido contribuiu para a derrota no primeiro turno e foi a força motriz do segundo.

Para o especialista, o governo precisa fortalecer as políticas para a classe trabalhadora e deixar evidente o que tem sido feito, sem timidez. É o que foi feito com a aprovação do fim da escala 6X1, o pacote de benefícios para o MEI e o anúncio de tarifa zero no país.

Quando o governo tenta governar a fogo brando, acaba pagando um preço, pontua o especialista sobre o futuro da esquerda. Não dá para a gente se mobilizar só em época de eleição. 

Beatriz concorda. Para ela, a escuta ativa das demandas e expectativas das pessoas e a capacidade de explicar as políticas para a população são fundamentais, juntamente com a disposição de corrigir problemas.

Na comunicação, é importante construir relações de confiança. Há demandas que continuam sem resposta e reconhecê-las é indispensável para reconstruir vínculos

Beatriz Mendes 

Ambos os especialistas concordam que é preciso ampliar o debate com diversos grupos sociais, para que eles possam participar da formulação de políticas que os afetam. Um deles são os trabalhadores, que hoje vivem realidades diferentes com as mudanças nos modelos de trabalho.

A tradição sindical continua importante, mas a classe trabalhadora também está nas plataformas, no trabalho informal, nos pequenos negócios e em diferentes formas de atividade autônoma, pontua Beatriz.

Presidente foi reeleito no segundo turno @Ricardo Stuckert

Manter a chama da mobilização

Para entrevistados, a experiência do segundo turno mostra uma energia de mobilização social, organizada e articulada, que não ocorria há tempos. A participação política deve ser valorizada, assim como o trabalho das organizações, dos estudantes, dos sindicatos e dos movimentos sociais

Seria um erro tratar esses grupos como uma força convocada apenas no risco de derrota eleitoral. Um governo deve reconhecer a legitimidade dessa pressão, inclusive quando ela expõe suas contradições

Beatriz Mendes.

Por isso, dois aprendizados centrais apontados pela especialista são: recuperar a capacidade de imaginar uma vida coletiva melhor e organizar a ação política em torno dessa possibilidade. As juventudes são uma aposta para a continuidade desse trabalho.

Por fim, há necessidade real de renovação de nomes, com mulheres negras, juventudes e lideranças periféricas alcançando espaços de poder. Isso envolve decidir sobre orçamento, formular políticas e ocupar espaços de negociação.

Manter a mobilização significa sustentar espaços de encontro, formação política, cuidado, divisão de responsabilidades, decisão coletiva e, sobretudo, preservar quem está na linha de frente, diante da violência política e da sobrecarga, conclui Beatriz.

Agência Mural

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