A política tem que ser feita por quem depende dela. É isso que defende a deputada estadual Ediane Maria do Nascimento, 42, reeleita pelo PSOL para seu segundo mandato como a primeira parlamentar empregada doméstica na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Entre seus principais compromissos para os próximos quatro anos, está o combate ao racismo, aprovando uma normativa para atendimento de vítimas, com acolhimento e preservação das provas. Também quer atuar na Comissão de Segurança Pública e garantir cozinhas solidárias como uma política permanente nas comunidades mais pobres.
O que muda a vida são políticas públicas e políticos comprometidos com a necessidade diária da população”, pontua. Vamos defender os interesses daqueles que nunca se sentiram representados na Assembleia.
Natural de Pernambuco, Ediane chegou em São Paulo aos 18 anos, para trabalhar com a empregada doméstica @Divulgação
No primeiro mandato, foi membro da Comissão de Segurança Pública. Além de fundar e coordenar a Frente Parlamentar do Funk. Um dos principais temas de atuação foi a habitação, no combate à reintegração de posse das famílias da Favela do Moinho, em 2025, no Campos Elíseos, região central.
Nordestina, natural de São Pedro, em Pernambuco, chegou no estado aos 18 anos, em 2002, para trabalhar com a empregada doméstica. Mãe solo de Tâmara, 26, Giovana, 23, Amanda, 20, e Gustavo, 17, criou os filhos na Vila São Pedro, favela em São Bernardo do Campo.
Reeleger uma empregada doméstica, também é dizer nas urnas qual tipo de política queremos daqui pra frente. O cidadão não quer mais uma política feita por quem não tem a nossa cara, a nossa história e a nossa origem.
Agência Mural: Como sua atuação parlamentar é atravessada por sua história, de mulher periférica?
Ediane Maria: Como empregada doméstica, eu ensaiava negociar com a minha patroa por uma carteira assinada, pelos meus direitos, pois é impossível chegar aos 60 anos no trabalho doméstico. Como mãe solo, dependi de programas e benefícios sociais conquistados pela população, como Bolsa Família e a PEC das Domésticas, sancionada pela presidenta Dilma em 2013 [Emenda Constitucional que estendeu aos trabalhadores domésticos direitos já garantidos às outras categorias].
Em 2017, eu estava na fila de um programa de entrega de leite, conheci uma companheira do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto] e fui morar na maior ocupação da América Latina [Ocupação Povo Sem Medo], em São Bernardo. Sempre militei pela minha história, pela minha mãe, caseira de fazenda, e pelo meu pai, pedreiro. Por isso, eu prezo por direitos, moradia, creche e UBS [Unidade Básica de Saúde].
‘A política tem que ser feita por quem depende dela’ @Divulgação
Mural: Que conquistas mais te marcaram na sua primeira gestão?
Ediane Maria: Lembro quando as meninas da limpeza na Assembleia Legislativa de São Paulo me falaram: deputada, vem ver o nosso lugar [de trabalho], mas sabemos que você não vai poder fazer nada. Eu olhei [um local que precisava de melhorias] e falei: a gente vai fazer alguma coisa sim. Conversei com quase 300 funcionários terceirizados, maioria mulheres negras, e conseguimos entregar um espaço de convivência para elas.
Também teve a nossa luta pela cultura. Fui a primeira presidente da Frente Parlamentar do Funk, que nasceu no meu mandato. A gente levou essa demanda para o governo federal e a partir dela foi criado o Prêmio Voz de Periferia, um reconhecimento para fortalecer expressões culturais periféricas.
Mural: Sua legenda (PSOL) passou de cinco para nove deputados na Assembleia de São Paulo. Em contrapartida, houve aumento de parlamentares do PL, de 21 para 27, além da reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo do estado. O que você espera da próxima legislatura?
Ediane Maria: Nunca foi fácil estar no parlamento, independente de quem seja maioria. No caso do Tarcísio, não existe negociação. Mas existe um trabalho que será feito das bases, em rede, de continuar denunciando o retrocesso e as privatizações do governador.
O avanço do PL, que já era a maior bancada em 2022, me preocupa. Estamos falando de parlamentares que veem um vagão de trem pegando fogo, pessoas andando nos trilhos, a Sabesp privatizada sem melhoria da qualidade da água Será mais difícil negociar. Nosso papel é continuar abrindo a Casa, construindo com quem mais precisa, descentralizando a política e levando [conquistas] para as periferias.
Vamos defender os interesses daqueles que nunca se sentiram representados @Divulgação
Mural: O número de pessoas negras eleitas passou de 16 para 18 e de mulheres de 26 para 28. Já o número de mulheres negras foi de cinco para 10. Qual o impacto dessa mudança?
Ediane Maria: Os eleitores disseram: queremos essas vozes e essas pessoas nos representando. Mas quando olho para a eleição da Eduarda Campopiano (PL), deputada com forte discurso anti-feminista, me preocupo com avanço da violência contra as mulheres. Isso é muito grave e pode impactar na falta de políticas de combate à violência em São Paulo, onde as delegacias especializadas sequer funcionam 24 horas.
Por isso, continuaremos denunciando e avançando. A minha luta é invisível para quem não nasceu com a pele preta. Mas ela seguirá para transformar o Estado de São Paulo em um território anti-racista.
Mural: Como você avalia a importância da sua reeleição?
Ediane Maria: Nos quatro anos de mandato, nós rodamos em quase todas as periferias de São Paulo. O que muda a vida são políticas públicas e políticos comprometidos com a necessidade diária da população. A política tem que ser feita por quem depende dela.
A gente não chega sozinho. Representamos aqueles que nunca puderam se sentir representados em uma Casa Legislativa. Eu nunca tinha visto um deputado do meu bairro. Eu nunca tinha visto um vereador do meu bairro, não sabia para que eles serviam, nem para onde iam os investimentos das emendas parlamentares. São Paulo reeleger uma empregada doméstica, também é dizer nas urnas qual tipo de política queremos daqui pra frente. O cidadão não quer mais uma política feita por quem não tem a nossa cara, a nossa história e a nossa origem.
Mural: No seu primeiro mandato você atuou com pautas de habitação, cultura, anti-racismo e segurança pública. Há outros temas de trabalho no seu radar, que sejam prioritários para as periferias?
Ediane Maria: Meu mandato será de continuidade, porque não é possível avançar em tudo em só quatro anos. Vou pleitear para estar na Comissão de Segurança Pública, que é um espaço difícil, mas fundamental para que a gente consiga ter debates, projetos e políticas que de fato combatam a violência nas periferias.
Outra frente é garantir que as feiras e cozinhas solidárias sejam uma política permanente nas comunidades mais pobres, fortalecendo o pequeno agricultor, a agricultura familiar e levando a comida de graça para quem mais precisa. Além disso, vamos avançar no combate ao feminicídio, ampliando o horário de atendimento das delegacias da mulher. Por fim, vamos lutar pelo combate ao racismo e pelo letramento racial, cumprindo a lei 18427/2026, que estabelece uma normativa para atendimento de episódios de racismo, com acolhimento à vítima e preservação das provas.
Agência MuralO post Reeleger uma empregada doméstica é dizer que política queremos apareceu primeiro em Agência Mural.
Tags:
Democratize-se! | eleições 2026