por Jane Santos*
Vencemos.
E ainda estou tentando encontrar palavras para a dimensão do que vivemos ontem. O tanto de emoção e choro, abraçadas, eu e minha filha. Em meio aos gritos emocionados da vizinhança, parte expressiva da classe média alta, sim da classe média alta.
Houve os números: 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos e a confirmação de Lula para um quarto mandato. Uma virada histórica.
É tetra! E não consigo deixar de pensar na imagem: quatro mandatos, como os quatro dedos da mão de Lula justamente um homem tantas vezes atingido pelo etarismo e pelo capacitismo.
Mas os números, sozinhos, não contam o que aconteceu. Cada número tinha rosto.
Adolescentes e jovens nas ruas. Pessoas com deficiência. Idosos que já nem eram obrigados a votar e foram. Nordestinos atravessando distâncias para voltar à sua terra depois de tantas humilhações dirigidas a quem somos.
Era memória. Superação. Dignidade. Direitos. Soberania.
Era gente dizendo: nós existimos. nós lembramos. nós temos esperança. nós também decidimos o Brasil.
E Lula falou para o país que governará para todos, respeitando a Constituição e dialogando inclusive com um Congresso mais conservador. Será dificil. Mas, estamos juntos. O gostinho de ruas cheias pegou.
Quase imediatamente vieram cobranças de parte da mídia e do mercado: e o ajuste fiscal? E os gastos? E o pacote econômico?
Ora, bolas. Naquele primeiro discurso, quase sem voz e ainda tomado pela emoção, ele falava de democracia, que estava em risco, soberania, educação, SUS, economia digital, tecnologia e segurança. E que logo conversaria com os empresários. Haveria mesmo de transformar a celebração de uma vitória histórica numa planilha de cortes?
Há tempo para celebrar e há tempo para governar. A agenda econômica existe, o programa prevê controle fiscal e a equipe já discute medidas de ajuste.
Mas talvez parte do chamado mercado precise se lembrar de uma coisa: o Brasil não é uma planilha.
É um país. Com gente. Com voto. Com sede de direitos. Com memória. Com democracia.
E, como se a própria noite, com uma lua cheia linda a também celebrar, precisasse nos lembrar por que tudo isso importa, o candidato derrotado anunciou que não reconhece o resultado e que tentará anulá-lo embora a questão que contesta tenha envolvido pedido de ambas as candidaturas. E envolve aproximadamente 35 mil votos que, se todos fossem destinados ao patético reclamante com seu DNA Golpista de sempre, não superariam os mais de 4, 4 milhões de dianteira de Lula. Faz-me rir.
Então, não. Não passarão (minha homenagem aos fantásticos Galãs feios).
Oposição é democracia. Questionamento pelas vias legais é democracia. Discordância é democracia. Mas democracia começa por algo elementar: o voto do povo precisa valer. E ontem o povo fez bonito. Que escolha!
E eu quero guardar as imagens: o jovem na rua. a pessoa com deficiência chegando à urna. o idoso que fez questão de votar, alguns, mesmo em condições adversas de saúde. o nordestino voltando para casa, a mão apertando a tecla, a lágrima, o abraço, a bandeira.
E Lula, eleito para o quarto mandato. Tetra.
Hoje eu me permito celebrar. A memória. A superação. A esperança. A dignidade. Os direitos.
A soberania. A democracia.
Porque o Brasil não pertence ao ódio, ao escárnio, ao preconceito ou à humilhação.
O Brasil pertence ao seu povo. E ontem o povo falou.
Vencemos.
E, desta vez, eu confesso em plenitude:
lavamos a alma. Vitória do Brasil com S!
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