Com a eleição de um Congresso Nacional mais conservador, com maioria expressiva do PL, as periferias de São Paulo precisarão seguir mobilizadas para conseguir ampliar as políticas sociais, mesmo que o presidente Lula (PT) seja reeleito no próximo domingo (25). É o que espera a deputada federal  Juliana Cardoso (PT), 46, de Sapopemba, na zona leste de São Paulo.

Ela inicia seu segundo mandato em 2027 e prevê tempos muito difíceis na política. Eles [oposição] fizeram uma maioria impressionante, e estão trabalhando para ter número e mexer em direitos constitucionais, teme. Com o Lula a gente vai conseguir trabalhar para assegurar. Mas eu não tenho dúvida que isso será através de muita mobilização popular.

Quem não respeita a democracia, não respeita o povo, diz Juliana Cardoso @Divulgação

Filha de mãe negra e de pai indígena, da etnia Terena, do Mato Grosso do Sul, Juliana se denomina petista mesmo antes de nascer, quando frequentava os movimentos sociais ainda na barriga da mãe. Desde a infância, esteve ligada à luta dos trabalhadores e das Comunidades Eclesiais de Base da zona leste da capital paulista.

Foi vereadora por São Paulo pela primeira vez em 2008, aos 27 anos, e passou por mais três mandatos na Câmara Municipal (2012, 2016 e 2020). Foi eleita deputada federal em 2022 e reeleita em 2026, ampliando a bancada do PT, que ganhou mais nove cadeiras – mas que vai encarar o aumento expressivo dos partidos da direita conservadora, como PL ( mais 28 vagas), MDB ( mais 8 vagas) e Republicanos (mais 6 vagas).

Confira a entrevista na íntegra:

Agência Mural: Quais foram os principais desafios da sua primeira gestão federal, entre 2023 e 2026?

Juliana Cardoso: Foram três momentos nesses últimos quatro anos. Primeiro, saí de um mandato de vereadora para a deputada federal, no qual metade da semana eu passava em Brasília, metade no estado de São Paulo, que é gigantesco. Estamos falando de 645 cidades. O segundo foi a necessidade de uma reconstrução ágil do Brasil, para tirar o país do lugar que a família Bolsonaro e seus aliados colocaram, com uma avassaladora destruição de políticas públicas. Terceiro, foi entender como poderia conectar o nosso estado a uma política nacional, o que também passou por uma reconexão ao meu povo indígena, um dos que mais sofreram com a política de destruição do governo Bolsonaro.

Lula deve anunciar demarcação da terra indígena do Jaraguá após segundo turno, diz Juliana @Divulgação

Mural: E o que vislumbra para os próximos quatro anos de gestão?

Juliana: Eu achava que a bancada de 2022 era ruim, mas a gente elegeu o pior Congresso de todos os tempos, [com um caráter] de desistência do povo brasileiro. Eles trabalham para uma política individual, e nós para a força da coletividade.

Acho que vamos ter tempos muito difíceis no Congresso. Eles fizeram uma maioria impressionante, e estão trabalhando para poder número para mexer em direitos constitucionais. Essa extrema direita, propõe um projeto dos Estados Unidos para o Brasil, que é a entrega das nossas riquezas: petróleo, pré-sal, minérios e agora as terras raras, que com o Lula a gente vai conseguir trabalhar para assegurar. Mas eu não tenho dúvida que isso será através de muita mobilização popular.

Mural: Como você acha que seria o cenário político com Lula eleito? 

Juliana: Seria a garantia da nossa soberania, da Constituição e de que não vamos entregar nossas riquezas naturais, como as terras raras, para nenhum outro país. É a garantia de que a gente possa ter uma economia que gire e dignidade de viver com [a segurança] das políticas públicas, como o posto de saúde do lado de casa e a Farmácia Popular.

A oposição sempre fala da política dos Estados Unidos, mas lá não tem SUS. Para você ser atendido, tem que ter cartão de crédito, senão morre na porta do hospital. Ainda temos uma política que funciona, por conta não só do governo Lula, mas também dos estados e municípios, que recebem e aplicam os recursos.

Mural: E o cenário com Flávio Bolsonaro (PL)?

Juliana: Vou te dar um exemplo básico e concreto. Aqui na capital paulista, temos um Instituto Federal em Cidade de Tiradentes [na zona leste], que já está começando o processo de recrutamento dos trabalhadores, mas precisamos de orçamento para finalizar a contratação. Com Flávio Bolsonaro, não teremos. Todos os trabalhos que fizemos para garantir dinheiro do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] para construção de creches, escolas, unidades básica de saúde e prontos socorro, não chegará.

Flávio quer nossa economia atrelada aos Estados Unidos. A gente ganha em dólar? Não. Ele já disse que se ele for eleito vai começar a transição com uma equipe dos Estados Unidos, de Trump, é só pesquisar para ver. Está escrito no plano de governo de Flávio Bolsonaro que ele irá mexer na Constituição. Óbvio que tem questões jurídicas, mas eles não respeitam a democracia, as instituições e automaticamente não respeitam o povo.

Mural: Você disse que teme a eleição de Flávio Bolsonaro pelas dificuldades com o Congresso. Que tipo de dificuldades? 

Juliana: Flávio Bolsonaro, os deputados e deputadas eleitas são contra as mulheres feministas. Eu temo pela minha vida e de outras companheiras, porque vai ser um governo mais violento e desrespeito, fisicamente e verbalmente.

Já está sendo neste segundo turno. Fui a uma missa de Nossa Senhora Aparecida e no final estava agradecendo as pessoas e pedindo voto para o Lula. Se juntaram uns cinco [homens] e começaram a me xingar. Essas pessoas estão à vontade, por conta das representações políticas eleitas. Nós vamos ter que mudar a nossa forma de segurança e trabalhar muito a nossa saúde física e mental.

Deputada acredita que próxima legislatura representará tempos muito difíceis na política

Mural: Chegamos ao final da gestão sem a demarcação de terras indígenas urbanas, como a do Jaraguá, na zona oeste de São Paulo. Essa será uma prioridade? Como emplacar essa pauta no Congresso de 2027? 

Juliana: Temos quatro anos para fazer o que precisa ser feito. Por que tem tanta demora? Eu também demorei para entender, mas nós estamos em uma luta de sangue praticamente. São muitos trâmites e tem que estar tudo muito certinho para não ter um viés que possibilite retirar as nossas demarcações. Tem muitas terras que você tem que ir conversando desde o município até o estado, para estar tudo amarrado, sem nenhum problema.

Agora, sem dúvida nenhuma, tem que ter agilidade. E tem muitos processos que já estão prontos. Passando o segundo turno, o presidente Lula já vai anunciar as demarcações que já tão pronta. Uma delas é o Jaraguá aqui da cidade de São Paulo.

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Mural: Qual a importância da sua reeleição para as periferias?

Juliana: Historicamente as mulheres não ocupam espaços de poder e decisão. As mulheres lutaram pelo direito do voto, depois para votar sem autorização do marido. Lutamos para poder ter o fundo eleitoral e chegar até aqui. Foi muita luta, construída da nossa ancestralidade, para chegar aqui.

As mulheres indígenas, negras, das periferias, têm que ocupar esse espaço. Eu vou ter uma responsabilidade imensa, porque seremos três deputados indígenas eleitos, perdemos um. Isso é triste e dolorido, porque estamos falando da nossa ancestralidade, da nossa força. Eu acho que vai ser uma atuação dura, mas temos muitos parceiros e parceiras que nos abraçam, para ajudar a assegurar os direitos dos povos indígenas.

Mural: Quais outras pautas você elenca como prioritária para as periferias e para população indigena? 

Juliana: Somos um mandato periférico, então eu sei exatamente o que significa política pública, sou fruto dela. Sou filha de escola pública, me profissionalizei e tive o meu primeiro emprego com as parcerias e projetos da gestão de Luiza Erundina [ex-prefeita de São Paulo pelo PT]. A minha prioridade é sempre trazer para as nossas periferias a consciência política de classes junto com a política pública, transformando em lei.

As experiências que funcionaram no território, a gente pode levar para o Brasil, como o PAI [Programa de Acompanhamento do Idoso], que está dentro da saúde de São Paulo e que eu quero aprovar como programa federal. Dentro das nossas aldeias falta saúde, escolas e saneamento básico. A demarcação ajuda a levar essas políticas.

Agência Mural

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