Na eleição mais acirrada da história do Brasil, o audiovisual pernambucano tomou as redes e as ruas para conquistar votos pela reeleição do presidente Lula (PT). De telão inflável em praças públicas a produções com Inteligência Artifical (IA), trabalhadores do setor estão engajados nesta reta final de campanha para dialogar com os eleitores através do cinema.

O projeto Cinema Sem Teto, uma iniciativa ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), está percorrendo localidades na periferia do Recife com um telão inflável, cadeiras e um panelão de munguzá para exibir produções audiovisuais com mote político num convite para debater o cenário eleitoral do segundo turno.

A ação já passou pelo Morro da Conceição, na zona norte, quando uma sessão bem cheia, feita em articulação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento Mãos Solidárias, exibiu Anatomia do Caos, produção dirigida por Dandara Ferreira, que aborda a condução da pandemia de covid-19 no governo Jair Bolsonaro. Assista aqui ao documentário completo.

Cinema Sem Teto leva documentários para bairros periféricos

Crédito: Divulgação/MTST

Na sequência, o grupo exibiu Não Existe Almoço Grátis, feito dentro das trincheiras do MTST, que ganhou prêmios em festivais como o de Brasília e aborda a história de três cozinheiras das Cozinhas Solidárias até o momento da posse de Lula em 1º de janeiro de 2023.

São territórios com alguma relação com o MTST em que os agentes que fazem o convite para a gente estão ligados à defesa da candidatura de Lula, mas as sessões em si são ocupadas por gente que não necessariamente é eleitor e eleitora de Lula. Há muita gente em dúvida, gente que se absteve ou que está pensando em se abster e até bolsonaristas têm sentado nas sessões também. O que gera um clima curioso, porque vimos pessoas que declaravam voto em Flávio Bolsonaro assistir algumas sessões até o fim. E isso cria também uma possibilidade de debate posterior, que é o que a gente busca, detalha Ingá Patriota, coordenadora do Cinema Sem Teto.

Nesta semana, o projeto percorreu a pracinha do Diário, no centro da cidade, e Água Fria, na zona norte, exibindo a série de vídeo do Revelando, que tem mostrando diversas denúncias envolvendo o senador e candidato Flávio Bolsonaro. Nestas quinta, sexta e sábado, de 22 e 24 de outubro, é a vez das comunidades Pocotó, Fazendinha e Curral, próximas a Boa Viagem, na zona sul, e também do bairro da Várzea, na zona oeste, e do Alto Santa Terezinha, na zona norte.

O “tesouraço” traduzido para as redes

A ideia de fazer um filme de terror em que um personagem foge de um serial killer, o homem da tesoura, uma figura inspirada em Flávio Bolsonaro, surgiu de um encontro, logo depois do primeiro turno, entre os membros da ABD-Apeci (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco/Associação Pernambucana de Cineastas). O plano terminou gerando uma série de seis vídeos curtos com uso de IA feitos pelo cineasta Tiago Calmon, para circular nas redes sociais.

Nas produções, ele aborda o corte de verba, o chamado tesouraço, proposto pelo candidato da extrema direita, através de um homem que persegue pessoas para tirar seus direitos.

Foi nessa reunião da ABD-Apeci que a categoria do cinema estruturou um plano de ação e aproximadamente 30 profissionais mapearam 14 frentes de trabalho autônomas, cineclubes, produção de vídeos, planfletagens digitais, exibições comunitárias e ações de rua. Aproximadamnete 100 pessoas estão envolvidas de forma direta e indireta.

Os vídeos, explica Tiago, procuram mostrar o que essa promessa de cortes dos bolsonaristas pode significar na vida cotidiana, com a perda de medicamentos distribuídos pela Farmácia Popular, do Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro para estudantes da rede pública, e de políticas habitacionais.

A ideia foi trazer para a experiência concreta das pessoas o que é que significa esse tesouraço e espremer o significado concreto dessas palavras e desses símbolos numa linguagem das redes sociais com IA, coisas que caibam em 10 segundos e funcionem quase como um panfleto, um material de agitação que você olha rápido e consegue assimilar a ideia que está sendo passada ali, explica.

Também cineasta, Pedro Severien também apostou na produção de uma pequena série para as redes, mas focada no público idoso. Diante da massa de filmes e produções, eu foquei nessa frente mais pessoal, filmando meus pais e minha tia, Cristina Buarque, primeira secretária da Mulher de Pernambuco. Foram produções bem simples, mas que tinham esse objetivo de oferecer relatos posicionados para comunicar com pessoas com mais de 70 anos. Publiquei no meu Instagram, Facebook e soltamos pelo WhatsApp também, conta.

Projetor e telão nas praças

Já o roteirista, diretor e produtor Caio Dornelas se articulou com grupos que já estavam frequentando praças do Recife para conversar sobre política e espalhar o voto em Lula e botou seus equipamentos para jogo para exibir em telão episódios da série Revelando.

No Instagram, ele compartilhou a experiência em San Martin, na zona oeste: foi massa, as pessoas paravam para assistir, não conheciam o conteúdo. Boa parte já votava em Lula, mas voltaram para casa, após o passeio na praça, com novas ferramentas, novos instrumentos, novos conhecimentos para também passar a palavra adianta do voto no 13. Nesta quinta (22), ele esteve na Brasilit, na Várzea, também na zona oeste da capital.

Cineasta Caio Dornelas levou seu equipamento para bairros da zona oeste

Crédito: Beatriz Mota/Marco Zero Conteúdo

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