O que cada candidato à presidência da república propõe para os jovens das periferias? Para responder a essa pergunta, a Agência Mural analisa os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), protocolados pelas campanhas no site Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, o DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral.
Nesta primeira reportagem, a pesquisa volta-se para as propostas relacionadas à educação, trabalho e geração de renda, assuntos centrais na vida de quem mora nas quebradas da Grande São Paulo.
O Estatuto da Juventude do Brasil considera jovens as pessoas entre 15 e 29 anos – o equivalente a 46,6 milhões de brasileiros, segundo dados do Censo de 2022. Em 2025, 17,5% desse grupo não estudava, trabalhava ou possuía qualificação profissional, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Quero que meus filhos entendam que vivemos em uma democracia e que temos direitos”, disse a eleitora Jullya Ruiz Anastácio, no primeiro turno, na Escola Estadual Júlio Pestana, no Tucuruvi, zona norte de São Paulo. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural
O percentual caiu desde 2019, quando o total de jovens sem trabalho ou estudo era de 22,4%. Ainda assim, ele coloca um desafio para o próximo governo: ampliar as oportunidades de estudo e inserir os jovens no mercado de trabalho de forma qualificada e segura.
Ambos os candidatos apresentam propostas para educação, trabalho e geração de renda dos jovens, mas apenas Lula fala diretamente das periferias das grandes cidades.
Educação e formação profissional
Tanto o presidente Lula quanto o senador Flávio Bolsonaro apresentaram propostas para ensino médio, técnico e superior em seus planos de governo, abordando inclusive financiamento e modelos de ensino. Porém, as ideias são distintas.
Lula prioriza o combate à evasão escolar, com criação e ampliação de programas de incentivo a docentes, cientistas e aos estudantes, como o Pé de Meia. O candidato cita diretamente as periferias na sua proposta de ampliar os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.
Educação é pauta recorrente entre os manifestantes do Grajaú
No novo mandato, continuaremos a expansão da nossa rede de institutos federais, priorizando a interiorização, os vazios educacionais, as periferias urbanas e os municípios com baixa oferta de cursos técnicos, diz o plano de governo.
Já Flávio propõe que o repasse de verba para as redes de ensino dependa do desempenho dos alunos da educação básica.
Também almeja incentivar as escolas cívico-militares, repassar vouchers para instituições de ensino privadas e mudar o FIES para transformá-lo em um novo programa de financiamento estudantil, o Empréstimo Contingente à Renda, que prevê pagamento proporcional das parcelas da dívida.
Confira as propostas:
| TEMA | FLÁVIO BOLSONARO (PL) | LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA (PT) |
| Ensino médio | – Orçamento por resultado: financiamento de gestão escolar guiado por desempenho e metas de aprendizagem; – Expansão das escolas cívico-militares, no que define como defesa do ensino livre de doutrinação político-partidária; – Apoio a escola em tempo integral; – Voucher educacional para escolas privadas em falta de vagas nas públicas; – Criação da Política Nacional de Formação de Talentos para estimular competência da economia digital e uso da IA. | – Continuidade e expansão do Pé de Meia, para combater a evasão e garantir permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio; – Lançamento do Pé-de-Meia Licenciatura e do programa Bolsa Mais Professores, para atrair e fixar docentes. |
| Ensino técnico | – Ampliação ensino médio técnico, com bolsas custeadas por empresas. | – Expansão dos Institutos Federais (IFs), com 111 novos campi; – Criação do programa Partiu IF, um cursinho gratuito para alunos do 9º ano da rede pública que queriam ingressar nas instituições; – Apoio a programas específicos, como o Mulheres Mil, para qualificação feminina em cursos ligados a economia criativa, artes e audiovisual. |
| Ensino superior | – Transferência da gestão do Ministério da Educação para Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovações, direcionando órgãos como CAPES e CNPq à pesquisa aplicada; – Substituição do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) pelo Empréstimo Contingente à Renda, na qual o estudante paga a dívida de forma proporcional após estar empregado. | – Ampliação de vagas e investimentos nas universidades públicas, com recursos do Novo PAC (10 novos campi e 367 obras); – Reajuste das bolsas de pesquisa, manutenção de recordes de ofertas no ProUni; – Renegociação de dívidas do FIES; – Criação da Universidade Indígena e da Universidade do Esporte; – Programa Conhecimento Brasil, para atração e repatriação de cientistas. |
Trabalho, emprego e renda para juventude
Flexibilização do trabalho, valorização profissional, economia solidária, empreendedorismo, incentivo à empregabilidade e atenção aos autônomos e aos trabalhadores por aplicativo são temas presentes nos planos de governo dos dois presidenciáveis. Porém, em perspectivas bastante diferentes.
Lula aborda os temas com foco na redução de jornada de trabalho, na valorização salarial dos trabalhadores e na manutenção dos programas de distribuição de renda. Já o candidato do PL prioriza a redução de custo para o empregador, o estímulo ao crédito e a redução de juros para incentivar contratações.
Nas últimas semanas, os candidatos apresentaram novas propostas sobre trabalho e renda que não constavam nos documentos apresentados ao TSE. Lula anunciou o perdão às dívidas dos MEIs em 2027 e o PIX MEI, um benefício de até R$5 mil para auxílio na compra de equipamentos. Além disso, aumentou o limite de faturamento anual para a categoria, dos atuais R$81 mil para R$110 mil em 2027 e R$140 mil em 2028.
Flávio se disse favorável à escala 6X1, aprovada na semana anterior pelo Senado, mesmo tendo insistido durante toda campanha que era contra a medida, por defender a remuneração por hora. Veículos de imprensa denunciaram que ele se comprometeu com aliados a, se eleito, reverter a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que garantiu um dia a mais de descanso para o trabalhador.
Acompanhe o comparativo entre candidatos:
| TEMA | FLÁVIO BOLSONARO(PL) | LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA (PT) |
| Trabalho, emprego e renda | – Redução gradual dos encargos trabalhistas sobre a folha de pagamento para estimular contratações formais; – Contratos especiais com menor custo na folha para primeiro emprego (18 a 24 anos), recontratação para trabalhadores 50+ e desempregados a mais de 12 meses; – Acordos diretos entre empresa e funcionário (defesa do negociado sobre o legislado); – Criação de Banco Nacional de Vagas, conectado a departamentos de RH privados; – Intermediação de emprego feminino com Mais Trabalho para Elas; – Expansão de creches integrais para liberar mais tempo das mães trabalharem; – Trabalho por aplicativo sem imposição de regras sindicais. | – Valorização salário mínimo e renda com reajuste acima da inflação; – Fim da escala 6X1; – Fiscalização contra fraudes na pejotização e terceirizações; – Regulamentação do trabalho por aplicativos com direitos trabalhistas e previdenciários; – Aplicação da lei de igualdade salarial de gênero; – Estímulo a contratação pessoas com deficiência, idosos e grupos historicamente discriminados; – Erradicação trabalho análogo à escravidão e infantil. |
| Empreendedo- rismo, crédito e Economia | – Programa Minha Primeira Empresa, para jovens empreendedores, combinando desburocratização, treinamento pelo Sistema S e crédito pela Caixa Econômica Federal; – Revogaço regulatório para eliminação de licenças que encarecem a produção; – Programa Ganha-Ganha e Banco da Prosperidade, sistema que gera pontos de crédito e juros menores na Caixa por adesão a capacitações e assiduidade; – Prioridade para beneficiários de programas sociais em vagas de primeiro emprego e cursos de qualificação. | – Oferta de linha de crédito e garantias públicas para micro e pequenas empresas, por meio de programas como Acredita, Procred 360, Pronampe e Desenrola Pequenos Negócios; – Uso da plataforma Contrata+ Brasil para acesso de pequenos produtores a compras governamentais; – Apoio a cooperativas populares, catadores, agricultores familiares e empreendimentos comunitários; – Acesso a crédito orientado, capacitação técnica, simplificação tributária e cobertura previdenciária. |
Dois projetos, um Brasil
Lula tem uma trajetória vinculada à ampliação do acesso das populações periféricas e rurais às políticas públicas. O projeto de Flávio Bolsonaro, atribui centralidade aos interesses empresariais e à redução dos custos de contratação, apostando que isso produzirá oportunidades para os trabalhadores.
É o que resume a cientista política Beatriz Mendes, de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, para quem as candidaturas representam compromissos distintos com a classe trabalhadora e as periferias brasileiras.
Minha crítica é justamente para a prioridade de cada um, porque os interesses da elite econômica não correspondem às necessidades dos trabalhadores
Beatriz Mendes, cientista política.
Esse contraste, segundo a especialista, não aparece apenas nos planos de governo, mas também no legado político de cada candidato. A expansão da rede federal de educação profissional, por exemplo, foi impulsionada nos governos Lula e é uma das marcas de seu governo.
Já o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou instituir, por medida provisória, uma modalidade de emprego chamada Contrato Verde e Amarelo, que incentivava a contratação de jovens reduzindo, entre outros custos, os depósitos de FGTS. A medida foi revogada pelo Congresso Nacional.
Beatriz Mendes é doutoranda em Relações Internacionais, mestre em Ciência Política e bacharela em Gestão de Políticas Públicas pela USP @Arqueivo pessoal
Quando abrir um CNPJ é uma exigência para conseguir trabalhar, não se pode chamar isso de liberdade ou empreendedorismo, porque essa contratação pode esconder uma relação profundamente desigual, acrescenta.
Impedir a precarização do trabalho é um ponto de atenção para a especialista. Isso porque um jovem que depende exclusivamente do seu salário dificilmente poderá recusar uma proposta de trabalho, mesmo que em condições desfavoráveis.
É preciso questionar se de fato existe autonomia para negociar remuneração, jornada e condições de trabalho com os empregadores. Já o apoio ao empreendedorismo precisa oferecer condições concretas aos jovens, como crédito acessível, proteção social e capacidade de sustentar o negócio.
E os jovens periféricos?
A falta de políticas específicas para as juventudes periféricas mostra, para Beatriz, o quanto esse grupo ainda é invisibilizado nas políticas públicas. No entanto, ela reforça que é preciso estudar os planos de governo buscando mais do que a expressão juventudes periféricas, mas sim o compromisso com esse grupo no desenho das propostas.
Para ela, o programa de Lula apresenta resposta mais consistente, porque reconhece que o acesso à educação depende de condições materiais para estudar e trabalhar.
Na minha avaliação, há nele [Lula] um compromisso mais consistente com a ampliação de direitos. É a partir desse compromisso que precisamos exigir avanços: renda suficiente, proteção, tempo para estudar e descansar e mais poder de decisão sobre a própria vida.
Manifestantes reivindicam manutenção de direitos e políticas sociais em ato no Grajaú, no último domingo (18) @Isabela Alves/ Agência Mural
O plano de Flávio dá ênfase às demandas empresariais e à redução dos custos de contratação. Porém, Beatriz chama atenção que só qualificação e incentivos às empresas não resolvem a desigualdade no mercado de trabalho. É preciso avaliar remuneração, proteção social e possibilidades de evolução profissional oferecidas a esses jovens.
Um dado ajuda a dimensionar essa discussão. Segundo a PNAD de 2025, entre os jovens de 14 a 29 anos que abandonaram a escola sem concluir o ensino médio, 43% apontaram como motivo a necessidade de trabalhar. Nesse contingente, 72,8% eram pretos ou pardos.
Por isso, é importante políticas amplas, que olhem para território, raça e gênero. Mais que isso: é fundamental que a juventude periférica participe da formulação de políticas públicas que lhes dizem respeito.
Qualquer política comprometida com o nosso futuro precisa ampliar nossas possibilidades de escolha: cursar uma universidade, exercer uma profissão, empreender ou trabalhar com segurança econômica e tempo para viver. E, principalmente, poder fazer essas escolhas com dignidade, conclui.
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