Quem pensa que depois do vestibular vai deixar de lado as matérias do ensino médio pode estar enganado. Foi assim com jovens das periferias de São Paulo que, após a tão sonhada aprovação na universidade, retornaram aos cursinhos populares para dar aulas e ajudar a preparar novos vestibulandos.

É o caso de Deborah Yasmin dos Santos, 19. Estudante de Letras na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ela afirma que o apoio encontrado no cursinho popular EQ (Escrevendo na Quebrada) foi essencial para sua aprovação. Desde 2020, a iniciativa prepara jovens do Capão Redondo e do Jardim São Luís, na zona sul, para a redação dos vestibulares.

Desde as primeiras aulas de redação que participei, senti que tinha uma dívida com eles para pagar, que precisava voltar como docente um dia, para ajudar de outra forma, conta.

Deborah é professora de redação no cursinho Escrevendo na Quebrada @Daniel Santana/Agência Mural

Deborah foi aluna do Escrevendo na Quebrada em 2024, entre abril e novembro. Após as aulas, obteve 870 pontos na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), cuja pontuação máxima é 1.000. Assim, conquistou sua vaga por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e iniciou o curso em 2025, no campus da Unifesp Guarulhos, na Grande São Paulo.

Chegou o e-mail da universidade falando: Não se esqueça de terminar sua inscrição se você não quiser perder a vaga. Eu pensei: Como assim? Que vaga?. Aí entrei lá e estava o meu nome. Falei: Não, isso é mentira. Demorou pra cair a ficha, lembra, emocionada.

Apesar da mudança de rotina, ela não esqueceu do cursinho e do desejo que tinha de retribuir o que aprendeu. Foi aí que recebeu um convite da diretoria do EQ para dar uma aula teste. Se saiu tão bem que recebeu uma proposta para assumir a disciplina e, desde março de 2026, atua auxiliando os jovens na redação, etapa extremamente importante para a nota nos vestibulares.

‘Depois da aula, participei de uma reunião para ver se eu me encaixaria. E aí eu iniciei como professora de redação’

Deborah, professora de cursinho

Atualmente, Deborah comanda uma sala com 35 alunos, aos sábados pela manhã, na Escola Estadual Leopoldo Santana, no Capão Redondo, onde mora. Em duas horas e meia de aula, as atividades são marcadas pelo diálogo e pela interação entre os vestibulandos e alguém que, há pouco tempo, esteve no mesmo lugar que eles.

A jovem encontra motivação na possibilidade de contribuir para que outros estudantes alcancem seus objetivos. A experiência de viver na periferia e enfrentar grandes deslocamentos e dificuldades semelhantes às dos alunos permite uma aproximação que ultrapassa o conteúdo das aulas.

Os alunos de Deborah em grupo fazendo atividades de redação no cursinho Escrevendo na Quebrada @Daniel Santana/Agência Mural

A parte de que mais gosto em ser professora na periferia é mostrar que eu também vivo como eles. Estou na mesma realidade. Então, consigo enxergar o que eles vivem, o que gera ainda mais empatia.

Essa identificação também orienta a maneira como a estudante de Letras encara o trabalho em sala de aula. Mais do que reproduzir a formação que recebeu, ela busca colocar seus conhecimentos à disposição de outros estudantes.

Quanto mais você aprende, mais percebe o tamanho do mundo. E a educação pode mudar a forma como você enxerga a sua realidade e a das outras pessoas.

No caminho da educação

A trajetória de Deborah é uma entre tantas que mudaram por meio da educação e agora, ela espera que as histórias de seus alunos sejam repletas de conquistas e descobertas. É o que sonha também Taissa Ramos, 30, professora de Química e Biologia no Cursinho Popular Elza Soares, na Favela São Remo, localizada no Butantã, na zona oeste de São Paulo.

Taissa leciona aulas de química e biologia para 40 alunos no cursinho @Arquivo pessoal/Divulgação

Formada em Ciências Biomédicas em 2020 e doutora em Biotecnologia desde 2025, ambas formações pela USP (Universidade de São Paulo), a moradora de Suzano, na Grande São Paulo, também é fruto de cursinhos populares. Ela estudou no cursinho da FEA-USP em 2012, antes da tão esperada aprovação.

Queria fazer medicina, no princípio. Mas, quando eu passei na USP, fiquei fascinada. Consegui isso, então eu vou. Fiquei muito orgulhosa, muito animada e fascinada pelo que aquele mundo poderia me proporcionar.

Foi justamente pensando em compartilhar todos esses aprendizados que ela se inscreveu para um teste como professora no cursinho Elza Soares. Passou! Desde maio de 2026, Taissa leciona aos sábados para uma turma de 40 alunos, no período da manhã, de maneira voluntária.

Taissa defendeu a tese de doutorado na USP em 2025 @Arquivo pessoal/Divulgação

Me sinto com uma responsabilidade gigante de passar para eles aquilo que eu aprendi. E isso é um espelho, conta.

É a partir dessa identificação que ela busca mostrar aos alunos que o ensino superior é um caminho possível, especialmente para quem, como ela, veio da escola pública e passou por um cursinho popular.

Olha para mim. Sou uma mulher negra, periférica, que veio de escola pública, esteve em cursinho popular, passou na USP, fez doutorado e agora estou aqui porque vocês são importantes’

Taissa, doutora em Biotecnologia

Da ponte para cá

A história de formação superior e retorno ao cursinho se cruza também com as páginas da Agência Mural. O jornalista Henrique Alexandre, 27, correspondente do Rio Pequeno, na zona oeste, é ex-aluno de cursinhos populares, conquistou uma vaga para estudar Jornalismo e retornou para a sala de aula para ajudar a preparar outros jovens para o vestibular.

Foram dois anos de cursinho: primeiro no preparatório da FEA-USP, em 2018, e no ano seguinte no Fera Anglo Social, no qual foi um dos 60 bolsistas selecionados para uma turma exclusiva.

Henrique volta para o cursinho e dá dicas para os jovens na preparação do vestibular @Arquivo pessoal/Divulgação

Henrique tinha como meta entrar no Mackenzie, na PUC-SP ou na USP. Para isso, tomou a decisão de deixar o trabalho e se dedicar seis meses exclusivamente aos estudos. Morando com a mãe na Favela do Sapé, juntou dinheiro para manter as despesas básicas durante o período.

Pedi demissão do trabalho para passar o dia todo no cursinho e conseguir uma vaga no vestibular. No final, deu certo. Foi meio louco, mas deu certo.

Em fevereiro de 2020, entrou no Mackenzie com 100% da bolsa pelo ProUni (Programa Universidade para Todos). No segundo semestre daquele ano, com sua nota do Enem, conseguiu transferir o curso para PUC-SP, seu grande objetivo. O jovem foi a primeira pessoa da família a entrar em uma universidade.

Entrar na faculdade, principalmente de graça, pelo ProUni, foi o que me deu dignidade. Poderia perder tudo, mas tinha certeza de que teria a faculdade.

Ele conheceu o cursinho Elza Soares enquanto produzia uma série de reportagens sobre preparação para o vestibular e encontrou a oportunidade de aproximar duas áreas que já faziam parte de a trajetória: o jornalismo e a educação.

Na primeira aula, uma surpresa: ser chamado de professor pelos estudantes. Henrique conta que voltou para casa emocionado, percebendo que seu papel também é mostrar para os alunos que é possível ocupar espaços que, um dia, pareciam distantes.

Meu papel principal é mostrar para eles que é possível. Estive na mesma posição e, se eu consegui, tenho convicção de que eles também vão conseguir.

Agência Mural

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