Samuel Pereira, 34, não votou no primeiro turno das eleições de 2026. Morador do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, ele decidiu não comparecer às urnas, depois de ter votado no presidente Lula (PT) em 2022.
Fui ficando cansado da política. Não é que eu não tenha opinião, eu tenho. Mas estou cansado dessa briga o tempo inteiro, dessa discussão de um lado contra o outro. Às vezes parece que a política virou só isso, afirmou.
No Itaim Paulista, Lula teve mais votos do que Flávio Bolsonaro (PL). Na região, recebeu 49% dos votos, contra 40% do senador. No entanto, o percentual foi menor do que o registrado quatro anos atrás, enquanto a abstenção subiu de 19% para 23%.
O caso de Samuel é um exemplo de um dos aspectos do resultado do primeiro turno da disputa presidencial. Ao todo, mais de 3,7 milhões de pessoas deixaram de votar nas 39 cidades da Grande São Paulo. A abstenção atingiu 22,8%, acima dos 20,5% registrados em 2022.
Regiões que deram mais votos ao petista também foram impactadas pela ausência de eleitores e o tema se tornou um dos pontos-chave da campanha para o segundo turno presidencial, marcado para o próximo dia 25, entre o atual presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Na comparação com quatro anos atrás, foram 327 mil eleitores a mais que deixaram de comparecer às urnas. O aumento ocorreu mesmo com a redução do número total de pessoas aptas a votar na Grande São Paulo.
Os dados foram levantados pela Agência Mural e mostram o comportamento do eleitorado das periferias neste primeiro turno e as principais diferenças em relação a quatro anos atrás.
Impacto na votação
Na disputa presidencial, algumas das regiões onde Lula, candidato à reeleição, obteve maior vantagem também registraram índices elevados de abstenção, em especial em periferias da capital ou em cidades onde ele saiu na frente.
Essa alta tem sido atribuída como um dos motivos do resultado final. Flávio obteve 47% dos votos em nível nacional, e Lula teve 45%.
Na Grande São Paulo, porém, o petista ficou à frente, com 45,1%, contra 43,8% do senador nas 39 cidades. Apesar disso, na comparação com 2022, a votação de Lula caiu de 5,78 milhões para 5,31 milhões de votos.
A diferença entre os dois caiu de 937 mil para 155 mil votos, e Lula teve redução na votação em 38 cidades. Em 25 municípios, Flávio ficou à frente.
Por outro lado, a abstenção cresceu em 55 das 57 zonas eleitorais da capital e em 28 municípios da Grande São Paulo. Entre as maiores altas estão Pirapora do Bom Jesus (+5,6 pontos percentuais), Franco da Rocha (+4,6), Embu das Artes (+4,3) e Itapevi (+4,0), regiões que deram maioria ao atual presidente.
Lula teve 45% na Grande SP e Flávio 43%. A nível nacional, Flávio ficou na frente @Magno Borges/Agência Mural
Parte dos eleitores que votaram em Lula em 2022 pode não ter migrado para Flávio, mas simplesmente deixado de comparecer às urnas, embora outros fatores também possam ter influenciado os resultados.
Sobre a possibilidade de reversão, a questão é quanto desse recuo expressa uma insatisfação conjuntural e quanto representa um vínculo mais duradouro com a direita. Não dá para presumir que seja apenas um problema de comunicação, nem decretar uma mudança ideológica definitiva das periferias a partir dessa parcial.
Uma frente importante para Lula no segundo turno é buscar apoio entre quem votou branco ou nulo, além de quem se absteve, comenta a cientista política Beatriz Mendes. O núcleo mais identificado ideologicamente com a direita tende a ser menos permeável à mudança de voto, embora nem todo voto em Flávio represente essa identificação, ressalta.
Segundo ela, a abstenção, os votos brancos e nulos não são uma reserva automática de votos para Lula e podem expressar rejeição, desinteresse ou dificuldades de comparecimento. O desafio é ampliar apoio para além das bases já mobilizadas, sem contar com uma conversão expressiva do eleitorado bolsonarista mais consolidado.
Samuel, do Itaim Paulista, seria um desses exemplos, que não votou, mas não por ter se tornado parte do eleitorado bolsonarista.
Em 2022, votei no Lula porque achava importante participar e escolher. Não fui votar sem pensar. Naquele momento, era o candidato em quem eu acreditava, relembra.
No entanto, ele ainda não decidiu se vai votar no segundo turno. Ele diz que gostaria de ver resultados mais concretos e perceber que os assuntos discutidos durante a campanha eleitoral têm relação com o que acontece depois da votação. Eu queria sentir que minha escolha tem consequência e que as pessoas estão sendo ouvidas.
Para além da descrença
Um dos focos das campanhas no segundo turno será convencer esses eleitores de que vale a pena comparecer às urnas e de que o resultado pode ter impacto nas políticas públicas.
No Grajaú, na zona sul de São Paulo, a abstenção subiu de 19% para 22,6%, o que representa 44 mil dos mais de 200 mil eleitores. Nessa zona eleitoral, Lula venceu com 57% dos votos, mas recebeu 12 mil a menos do que no primeiro turno de 2022.
Eleitora do distrito, a cozinheira Regina Rambaldi, 63, relata que o dia da votação foi difícil para quem precisou se deslocar até as urnas na região. Para ela, as mudanças nos locais de votação podem ter afetado o comparecimento dos eleitores.
Dificuldade para votar foi uma das causas citadas por abstenção @Isabela Alves/Agência Mural
Um levantamento divulgado pelo g1, com base em informações do TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo), aponta que houve 113 alterações de locais de votação em todo o estado. Desse total, 22 ocorreram na capital, distribuídas por 16 zonas eleitorais, incluindo o Grajaú.
Além disso, Regina cita as dificuldades de locomoção. Decidi ir de ônibus e, quando cheguei, o ponto estava cheio. Três ônibus reservados passaram e muitos estavam esperando mais de 50 minutos, conta. Minha percepção é de que nem todo mundo foi votar por conta dessa demora.
Também no bairro, a manicure Márcia Barbosa, 43, não votou no primeiro turno e ainda está indecisa sobre comparecer às urnas no segundo.
Para mim, está faltando muita coisa na política. Para eu votar em um presidente, também não vai mudar muita coisa.
Apesar disso, Márcia manifesta preocupação com as consequências que atribui a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, especialmente em relação às políticas destinadas à população de baixa renda, como o Bolsa Família.
Ele já comentou que quer tirar o voto das mulheres. Se isso vier acontecer, o que será do Brasil?, reflete. A declaração mencionada por Márcia não foi feita por Flávio, mas por aliados dele. O senador negou essa intenção.
Comparado com eleição passada, abstenção foi maior @Magno Borges/Agência Mural
Entre suas principais expectativas para o próximo governo estão melhorias na saúde, redução do preço dos alimentos e políticas voltadas à população de baixa renda. Tem pessoas que precisam de muito auxílio e ajuda, afirma.
Márcia é mãe atípica e conta que a filha tem esclerose tuberosa, epilepsia e autismo. A menina precisa de canabidiol como parte do tratamento. Entre fevereiro e junho deste ano, a mãe precisou comprar o medicamento por conta própria.
Com a renda que recebe como manicure, afirma ter dificuldades para arcar simultaneamente com as despesas da casa, a alimentação, as fraldas e os cinco frascos de medicamento de que a filha precisa por mês. Segundo ela, cada frasco custa aproximadamente R$ 700.
Outra preocupação de Márcia é a relação entre o Executivo e o Congresso Nacional. Nas eleições de 2026, o PL ampliou sua bancada na Câmara dos Deputados para 121 parlamentares e elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos neste ano.
A esquerda e a direita não se misturam. As pessoas devem parar pra pensar que não é só o presidente que governa o Brasil. São os senadores, deputados e vereadores que delegam as leis para o presidente assinar. Vai ser uma briga muito grande, conta.
Caminhada para o segundo turno
Convencer eleitores que demonstram descrença na política será um dos desafios das campanhas. Para Lula, ampliar a participação e conquistar novos apoios será importante na tentativa de repetir o resultado de 2022.
Naquela eleição, o petista foi eleito presidente e obteve 6,40 milhões de votos na Grande São Paulo (52,2%). Para alcançar novamente esse patamar, precisaria conquistar cerca de 1 milhão de votos além dos recebidos no primeiro turno deste ano, entre eleitores de outros candidatos e aqueles que não compareceram às urnas.
Direito ao voto para todos: a idosa de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, usa andador para ir até o local de votação, na Escola Estadual João Evangelista da Costa. @Jacqueline Maria da Silva/ Agência Mural
Em nenhum município Lula alcançou, neste primeiro turno, a mesma quantidade de votos que recebeu no segundo turno de 2022.
Flávio, por sua vez, obteve 5,1 milhões de votos na Grande São Paulo. Em 2022, seu pai, Jair Bolsonaro (PL), havia recebido 5,8 milhões no segundo turno.
Em Diadema, no ABC Paulista, Lula teve um de seus melhores desempenhos na região, com 52% dos votos. Foram 125.594 votos para o petista, contra 89.832 para Flávio. Apesar disso, sua votação caiu quatro pontos percentuais em relação a 2022, e cerca de 74.857 eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a uma abstenção de 22,61%.
Everton Gonçalves Santos, 35, foi um deles. Ele não conseguiu votar no último domingo (4), mas não por falta de vontade. O profissional de marketing estava trabalhando no dia da votação, mas garante que comparecerá às urnas no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
‘Mesmo com o desânimo de muita gente, acho importante participar e escolher quem vai tomar decisões que afetam a nossa vida’
Everton, 35, morador de Diadema
Para ele, o resultado da votação presidencial em Diadema tem relação com o perfil da população e com a forma como os dois candidatos, Flávio Bolsonaro e Lula, são vistos pelos moradores. Políticas públicas também pesam bastante nessa escolha.
Outra moradora da cidade que não votou foi a auxiliar administrativa Milena Onorato, 22. No entanto, ela não entra na conta de abstenções de Diadema. Nascida em Salvador, na Bahia, não conseguiu transferir o título eleitoral a tempo.
Não fiz a transferência porque ainda não tenho previsão de morar em Diadema para sempre. Votei em 2022 no Lula na Bahia e não sabia que existia a possibilidade do voto em trânsito, relata.
Apesar de não ter conseguido votar, a jovem acredita que os resultados da eleição podem impactar diretamente sua vida e a das pessoas ao redor.
No segundo turno, Milena ainda não sabe se conseguirá votar, devido a questões como a distância e os altos custos de viagem. Para ela, votar é uma forma importante de participar de decisões que impactam diretamente sua vida, mas também considera necessário compreender os motivos por trás das abstenções.
Distância, custo, falta de informação e outras dificuldades também podem afastar as pessoas das urnas, conclui.
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