Quem esperava encontrar pânico ou clima de guerra no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), hoje pela manhã, depois de controlado o incêndio no prédio de laboratórios multidisciplinares, acabou se deparando com um ambiente de cautela e normalidade. Prevaleceu o bom senso. Reitoria, lideranças estudantis e representantes dos professores evitaram vincular o fogo às ameaças de bomba postadas e enviadas por bolsonaristas.

Quem deu a senha para se manter a cautela foi o reitor Alfredo Gomes. Logo cedo, em entrevista para emissoras de TV, ele disse que não poderia fazer nenhum tipo de julgamento. Vamos nos basear nos fatos que forem constatados pela apuração do Corpo de Bombeiros, da Polícia Federal e das instâncias internas da universidade. Vamos aguardar as conclusões da perícia.

Gomes convocou duas reuniões durante a manhã. Na primeira, com a equipe de infraestrutura da instituição, ele se informou sobre as reais dimensões dos estragos e das condições de manutenção da unidade. Em seguida, com os orientadores e coordenadores dos laboratórios destruídos, tomou pé de quais pesquisas foram perdidas, a maioria das áreas de Farmácia, Química, Biologia, Ciências da Computação e Educação Física.

À tarde, o reitor acompanhou o ministro da Educação na vistoria à unidade destruída pelo fogo. Na universidade, o ministro Leonardo Barchini assegurou “vamos reconstruir o prédio, vamos recomprar todos os equipamentos e dar todo o suporte à comunidade universitária”. Ele não descartou a possibilidade da causa ser criminosa: “não sabemos se foi acidental ou não. Por isso determinamos à Polícia Federal para que viesse aqui saber do ocorrido. Já abriram o inquérito e já estão fazendo oitivas de suspeitos”, explicou o titular da pasta da Educação.

Aparentemente, o incêndio e as ameaças de bomba não afetaram a rotina da UFPE. Enquanto investigadores e peritos da Polícia Federal examinavam o local – o que só aconteceu depois que a Defesa Civil de Pernambuco atestou que não havia risco de desabamento – a 200 metros dali, centenas de estudantes de escolas de Ensino Médio visitavam a Expo UFPE, uma mostra dos vários cursos da instituição para adolescentes que vão fazer o Enem este ano.

O mesmo não pode ser dito em relação à rotina e à vida acadêmica dos pesquisadores (mestrandos, doutorando e professores) dos laboratórios atingidos pelas chamas. Aos poucos, rapazes e moças que foram chegando ao local onde se dedicavam à pesquisa, se agrupando à sombra de uma árvore na lateral da unidade. Vários choravam. Ninguém se referiu a problemas na manutenção das instalações.

Eduardo Camelo, que faz seu primeiro ano de mestrado em Ciências da Computação, foi um dos poucos que aceitou dar entrevista. E não segurou as lágrimas. Tenho amigos que perderam anos de trabalho, de pesquisa, de dedicação. Olho pra isso e lembro das noites sem dormir, de tudo que fizemos e, agora, está perdido.

Seu esforço para manter a serenidade era visível enquanto dava detalhes, tanto do cotidiano nos laboratórios quanto do valor dos equipamentos queimados. Com o dedo apontado para o primeiro andar, bem na frente do que sobrou do prédio, ele explicava: “ali, onde você tá vendo aquelas ferragens retorcidas, onde tá tudo incinerado, ficava um computador de última geração que custava uns R$ 300 mil. Para fazer experimentos simulando uma rede 5G, a gente usava cinco placas de vídeo de ponta, de R$ 10 mil cada uma. Tínhamos notebook de 128 GB de RAM só para rodar uma IA específica. Foi isso que perdemos.

Eduardo Camelo não segurou as lágrimas diante do laboratório

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero.

Mutirão para abrigar os pesquisadores

Ex-coordenador do curso de Licenciatura em Química, o presidente da Associação dos Docentes da UFPE, Ricardo Oliveira, estava empenhado em um mutirão de professores do seu departamento para identificar possíveis espaços e laboratórios para acolher as equipes que trabalhavam na sede da antiga Dine.

Vai levar muito tempo para recuperar o que foi perdido. E há coisas, resultados de pesquisas ou dados de teses de doutorado, por exemplo, que não será possível recuperar, lamentou o sindicalista, evitando apontar culpados ou estabelecer relação com os ataques da extrema direita. O mais importante é entender a perda coletiva desse desastre, pois a sociedade como um todo é a muito prejudicada.

Ele lembrou que o incêndio destruiu um equipamento de RMN, ou Ressonância Magnética Nuclear, que vale no mercado, no mínimo, R$ 8 milhões, considerando o custo com a instalação e adaptação do espaço físico.

A RMN é um exame de imagem avançado que utiliza campos magnéticos e ondas de rádio para criar imagens detalhadas dos órgãos e tecidos do corpo.

Reitor da universidade de 2003 a 2022, Amaro Lins, professor do departamento de Engenharia Civil, também destacou o valor incalculável das pesquisas que foram prejudicadas. Hoje, a UFPE trabalha em rede com as principais universidades do mundo. Os laboratórios consumidos pelo fogo faziam parte de redes globais de pesquisas, seus resultados são compartilhados por pesquisadores de todas essas redes. Por isso, não é só a UFPE que sai prejudicada, lamentou o ex-reitor.

Segundo Lins, não será possível recuperar, por exemplo, amostras coletadas de um trabalho de Biologia que estava sendo desenvolvimento há dois ou três anos. A universidade vai levar muito tempo para se recompor.

Três incêndios em uma semana

O primeiro dos três incêndios que alimentaram tensão e boatos na UFPE aconteceu na quarta-feira, 30 de setembro, em um laboratório do departamento de Física. O espaço foi completamente destruído. Segundo a administração da universidade, a causa do acidente foi imediatamente identificada, pois um grupo de pesquisadores estava manipulando produtos químicos em um forno que atinge temperaturas próximas a 1000°C. No domingo da eleição, 4 de outubro, uma falha em um aparelho de ar condicionado destruiu um freezer no laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal.

Pedido para investigar ameaças

A coordenadora do Diretório Central dos Estudantes, Raysa Dias, aluna de Engenharia de Materiais, contou que a diretoria recém-eleita para a entidade precisou atuar durante a madrugada para evitar o pânico nos grupos de whatsapp. As pessoas relacionaram imediatamente o incêndio às ameaças de bomba, de explosão, enviadas durante dias aos estudantes de Jornalismo e que se tornaram mais intensas após ao ato pró-Lula do dia 6, mas nós atuamos para apaziguar, entendemos que essas especulações são perigosas em um momento de fragilidade da nossa democracia, comentou Raysa.

No entanto, segundo ela, o DCE não pretende deixar as ameaças passar em branco: vamos, ainda na tarde de hoje (08/10), formalizar um pedido para que a Polícia Federal investigue e identifique os autores das ameaças de bomba feitas a estudantes da UFPE. Eles estão tão certos da vitória, estão tão certos de que não serão punidos, que nem escondem seus nomes e fotos, contou Raysa.

Na madrugada de ontem, o DCE também foi chamado para articular um abrigo para os moradores da Casa do Estudante, que fica ao lado do prédio incendiado e foi severamente atingido pela fumaça, precisando ser evacuado. Muita gente passou mal, precisou ser socorrida. Felizmente, a reitoria liberou um espaço para que estudantes tivessem onde passar a noite.

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