Com uma votação que surpreendeu até mesmo sua equipe de campanha e a extrema-direita nem se fala , Dani Portela (PT) foi reeleita como a deputada estadual mais votada de Pernambuco este ano. Em sua quinta disputa eleitoral, ela quase quadruplicou a votação de 2022. Os 146.123 votos que recebeu (2,78% dos votos válidos) consolidam seu nome como líder da oposição ao governo Raquel Lyra (PSD) e uma das principais representantes do campo progressista e da esquerda popular no estado.
Em entrevista por telefone, na última terça-feira, 6 de outubro, dois dias após a eleição, Dani analisa sua campanha, reforça sua posição contrária à governadora reeleita, a quem tece duras críticas no campo das políticas públicas para as mulheres, e fala sobre o desejo de disputar o Executivo novamente.
A deputada deve sua expressiva votação a dois fatores principais. Um deles é a sua ida para o PT. Eu tenho uma relação de profunda gratidão aos 10 anos de PSOL. Eu me formei no PSOL, é um partido relevante e fundamental. Mas, quando o próprio Lula não só me fez o convite como assinou a minha ficha, era inegável que eu estava entrando em um outro momento, relembra.
Nestas eleições, o PT de Pernambuco triplicou sua bancada na Câmara Federal, com a eleição de Carlos Veras, Liana Cirne e Rosa Amorim. Também ampliou a presença na Alepe, passando de três para cinco cadeiras com João Paulo, Breno Araújo, João Paulo Costa e Ivete Caetano, além da própria Dani e terá dois representantes no Senado, Teresa Leitão, que segue seu mandato, e Humberto Costa, reeleito.
Eu não abaixo nenhuma das bandeiras que eu trazia no PSOL, é a mesma Dani. Não abro mão de nenhuma das nossas lutas nem da radicalidade delas para disputar voto, mas eu venho essa Dani para um partido maior, que, para além do tamanho e da dimensão do PT, tem o lulismo, que é maior do que o próprio partido, afirma.
Outro fator para a votação histórica, na perspectiva da parlamentar, teria sido a construção coletiva que tem com organizações e movimentos sociais, levando-os para dentro do espaço institucional, num convite a mudar a fotografia do poder, como ela define, ao reunir, dentro de seu gabinete, quadros técnicos e militantes.
Há bandeiras que muitas pessoas abaixam na eleição, eu não faço isso. Sou uma militante do movimento feminista, militante organizada no movimento negro e aliada da luta LGBT não apenas na fala, mas na atuação de uma vida inteira. Sou defensora de direitos humanos e advogada popular e, se eu não estivesse na política, estaria em qualquer um desses movimentos, instituições, entidades e organizações da sociedade civil nas mesmas lutas que eu travo do lado do parlamento, analisa.
Todos os projetos de lei que a gente conseguiu aprovar e conseguiu aprovar coisas bem relevantes , a gente fez a partir dessa perspectiva da qual eu venho, sou de uma linha de feminismo popular e também educadora popular. Uma lei não sai de uma cabeça iluminada de alguém do mandato. Temos as ideias de quem são os nossos sujeitos prioritários e aí a gente dialoga com as organizações e os movimentos que atuam naquele tema, explica, mostrando que a receita dá certo também porque quem colabora se vê representado no resultado.
Uma lei de autoria do mandato que ficou em alta, durante a corrida eleitoral, foi a nº 18.437/2023, de combate à violência na gravidez e no parto. A lei atualizou o conceito de violência obstétrica para reconhecer o racismo obstétrico como uma de suas formas e responsabilizar quem a pratica, além de fortalecer a proteção às gestantes, parturientes e puérperas.
O projeto foi amplamente citado, no último mês, em contraponto à frase de Raquel faz sem ela saber, ao sugerir um procedimento de laqueadura sem consentimento em uma mãe de sete filhos. Depois que o vídeo, gravado em 2025, viralizou, a governadora reconheceu o erro e pediu desculpas.
Alvo do ódio digital
Nós tínhamos consciência do trabalho que fizemos em quatro anos. Mas, também pelo próprio fato de ser liderança da oposição, eu nunca fui tão atacada em toda a minha vida política. Então, ao mesmo tempo em que a gente tinha consciência do que foi feito, também sofremos uma onda de ataques do gabinete do ódio. A gente não sabia o efeito negativo que isso podia trazer, revela Dani.
A votação expressiva que eu tive não surpreendeu somente a gente. Surpreende também os coronéis da política, ressalva, lembrando que, nos corredores da Alepe, se dizia que ela estaria fora da próxima legislatura.
Ela apontou, no último ano, para a existência de supostas milícias digitais para atacar opositores do governo do estado de Pernambuco. Um dos principais episódios dessa disputa foi a representação feita, de forma anônima, pelo então assessor especial do gabinete da governadora Raquel, Manoel Pires Medeiros Neto, que também concorreu a deputado estadual, mas se saiu mal, conquistando pouco mais de 5 mil votos.
O caso aconteceu depois de a deputada ter feito o requerimento que deu origem à CPI da Publicidade na Alepe, uma comissão para apurar possíveis irregularidades em contratos firmados pelo governo estadual com agências de comunicação. Na denúncia de Manoel, Dani foi acusada de contratar uma empresa-fantasma de automação de dados ligada a Wildson Pinto Coutinho, tio de Jesualdo de Albuquerque Campos Júnior, seu marido.
Em setembro de 2025, o Ministério Público de Contas de Pernambuco (MPC), que atua junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), considerou que a documentação apresentada por Dani não caracterizava a empresa como fantasma e encerrou a apuração, arquivando a denúncia.
Mandato de Dani prioriza articulação com movimentos sociais
Crédito: Géssica Amorim/DivulgaçãoMas, além de avaliar a própria vitória e o tamanho com que o PT de Pernambuco sai das urnas em 2026, Dani chama para uma reflexão, ao lembrar que o segundo colocado para a Alepe foi o vereador do Recife Gilson Machado Filho (Podemos), com 132.322 votos, mas que, até o início deste ano, estava no PL. Ele é filho do sanfoneiro e forte aliado do bolsonarismo Gilson Machado, ministro do Turismo no governo Jair Bolsonaro.
Isso precisa trazer para nós uma reflexão de como a gente avança nas nossas lutas para além da polarização, comenta Dani. Mesmo Raquel tendo sido reeleita, a mulher que liderou a oposição à governadora chegar em primeiro lugar dá para a gente uma responsabilidade, uma tarefa e um recado muito grande, acredita.
A caneta do Executivo
Em seu discurso de vitória, Dani soltou uma frase pouco comum para as circunstâncias: e vou avisando, viu? A gente quer a caneta do Executivo na mão. Hoje é Alepe, amanhã é prefeitura. Eu sonho que um dia essa cidade, esse estado e esse país vão ser presididos por uma mulher negra.
Quando perguntada pela reportagem sobre os próximos passos rumo a esse objetivo e como isso estaria sendo dialogado dentro do PT, Dani recuou, dizendo que o discurso não foi um pré-lançamento a outra candidatura. Foi dizendo que eu estou à disposição do PT, complementou, destacando que sua experiência no Legislativo, como vereadora e como deputada, serviram também para reafirmar os limites de atuação do parlamento em questões orçamentárias e de direcionamento de políticas públicas.
Então, cada vez mais, o desejo de mudar a vida das pessoas e de trazer os nossos sujeitos prioritários para o centro do debate nos leva ao desejo de falar em alternância de poder, de ter a caneta do Executivo nas nossas mãos. Não necessariamente na minha mão, porque não é personalismo, é projeto coletivo. E acho que chegou o tempo de um partido do tamanho do PT chegar de volta nesse lugar, explicou.
Eu tenho disposição, estou à disposição do meu partido e acho que a gente tem que disputar prefeituras no estado inteiro e na região metropolitana. O nosso campo tem que se fortalecer. O meu sonho e o meu compromisso número um hoje são a reeleição do presidente Lula, mas meu sonho é que essa cidade, esse estado e esse país um dia sejam governados por mulheres negras, que são a maioria da população, desenvolveu.
Se Dani pretende concorrer à Prefeitura do Recife em 2028 ou ao Governo de Pernambuco em 2030, terá que se colocar no caminho do atual prefeito Vitor Marques (PCdoB) e medir forças com João Campos (PSB), de quem se tornou aliada.
Em 2024, no PSOL, Dani disputou a Prefeitura do Recife contra João. Em 2026, com ela no PT, os dois estiveram juntos, com a parlamentar ao lado do ex-prefeito em eventos de campanha ao Governo do Estado.
Oposição e críticas a Raquel Lyra
Como líder da oposição na Alepe, Dani acredita que seu maior desafio e, portanto, foco a partir de 2027, com a reeleição de Raquel e o segundo deputado mais votado sendo um forte representante do bolsonarismo, será conseguir fazer uma atuação voltada para a fiscalização do orçamento público e cobrar da governadora por mais políticas efetivas para mulheres.
Eu tenho estudado o orçamento como nunca. Eu rodei o estado no primeiro ano com o Plano Plurianual (PPA) Participativo, trazendo o povo para discutir o orçamento. Isso vai ser a grande centralidade da nossa atuação, antecipa. E promete aumentar ainda mais as cobranças ao governo Raquel 2 por mais políticas para mulheres.
Nós, do movimento feminista, lutamos muito tempo por mais mulheres na política. E agora o que a gente está dizendo? Que não basta ser mulher, não pode ser qualquer mulher. Precisa ser uma mulher aliada das nossas lutas. E aí se reelegem duas mulheres (Raquel e Priscila Krause, sua vice, também do PSD), mas as mulheres não são prioridade, dispara Dani.
Como exemplo, ela cita que a Secretaria da Mulher, em 2025, tinha o quinto menor orçamento entre as 22 pastas do Executivo estadual. Se é prioridade, então precisa estar no orçamento, resume.
Dani Portela e João Campos se aproximaram a partir de 2024
Crédito: Tom Cabral/DivulgaçãoQuando Raquel lançou o programa Juntos pela Segurança, em novembro de 2023, assumiu, naquela época, uma meta de redução de 30%, até 2026, nos índices de violência contra a mulher em Pernambuco, em comparação com 2022. No entanto, em 2025, segundo dados da própria Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE), o estado registrou 88 feminicídios, contra 76 em 2024, uma alta de 15,7%.
Outra coisa que muitas candidaturas bateram, eu inclusive, não só como candidata, mas na atuação parlamentar, uma coisa insistentemente trazida por nós, é a questão das delegacias das mulheres, aponta Dani, lembrando que a governadora não inaugurou nenhuma nova unidade especializada em quatro anos.
Das 15 que existem, apenas sete abriam 24 horas. Recentemente Raquel ampliou isso em uma ou duas, mas elas fecham à noite e nos finais de semana, justamente os horários de pico dessa violência. Então efetivamente você não vê prioridade para a vida das mulheres, apesar de ter uma governadora mulher, critica.
Sobre se o PT seguirá como oposição ou se vai negociar cargos no governo Raquel 2, Dani disse que ainda é muito cedo para decidir sobre isso, até porque o partido sequer se reuniu para debater essas questões, está totalmente focado na reeleição do presidente Lula no segundo turno.
Neste fim de semana, Dani viaja ao Agreste, vai , para reunir a militância e fazer com que o voluntariado continue na rua nos municípios onde ela teve boa votação. O partido ainda não se reuniu para definir posição, lembrando que a gente está numa federação e a federação tem outros partidos (Federação Brasil da Esperança é formado por PT, PCdoB e PV), comenta.
Mas eu, desde já, individualmente, sou oposição à Raquel Lyra, sempre fui e não vou sair desse lugar. Só que não é sobre Dani indivíduo, é sobre o partido dos trabalhadores e das trabalhadoras, que ainda vai discutir isso. Mas, olhando para o perfil da bancada e para as pessoas que se elegeram, acho que nós seguiremos, sim, na oposição. É o que eu defendo e vou defender dentro do partido, complementa.
Quem é Dani Portela
Advogada popular, historiadora e professora, Dani Portela tem 51 anos e é mãe de dois filhos Alice, de 23 anos, e Jorge, de dois anos. Filha por adoção de um ex-preso político da ditadura militar brasileira, tornou-se alfabetizadora de adultos pelo método Paulo Freire ainda na juventude.
Deputada garante que, agora, vai se dedicar à campanha pela reeleição de Lula
Crédito: Géssica Amorim/DivulgaçãoEm 2026, disputou sua quinta eleição. Em 2018, concorreu ao Governo de Pernambuco pelo PSOL. Teve 188.087 votos (4,97% dos votos válidos), ficando em quarto lugar. Foi quando ficou conhecida como a mulher da flor, por causa do adereço que sempre usa preso ao cabelo.
Dois anos depois, elegeu-se vereadora do Recife, sendo a mais votada do município naquele ano, com 14.114 votos. Uma de suas principais iniciativas como vereadora foi a criação da Comissão da Igualdade Racial e Enfrentamento ao Racismo da Câmara Municipal.
Em 2022, tornou-se deputada estadual, com 38.215 votos. Em 2024, disputou a prefeitura, alcançando 35.110 votos. Agora, pelo PT, chega ao seu segundo mandato na Alepe.
Fez uma campanha, segundo o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com uma receita de R$ 1,1 milhão, sendo a maior parte desse dinheiro oriunda da direção do PT (R$ 1 milhão). Na sequência, a maior doação foi de seu marido, Jesualdo, de R$ 66,8 mil. De bens declarados, Dani tem como registro, no TSE, apenas um carro, no valor de R$ 96,2 mil.
Líder da oposição na Alepe, Dani preside a Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular e é vice-presidente da Comissão da Mulher.
Em seu caderno de propostas, fala em defesa da cultura, educação, saúde, acessibilidade, mobilidade e segurança. É defensora da agroecologia e do Passe Livre e foi contra a privatização da Compesa.
A composição da próxima Alepe
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