A estudante Julia Macedo dos Santos, 18, espera ansiosa pelo próximo domingo (4). A moradora da Cohab II, Itaquera, na zona leste de São Paulo, diz que o dia tem tudo para ser muito marcante em sua vida, afinal ela votará pela primeira vez.

A preparação, no entanto, começou antes: ela se dedicou a conhecer as funções dos cargos em disputa e a analisar as propostas dos candidatos.

A primeira coisa que fiz foi estudar para conhecer os candidatos. Até tivemos uma conversa em família para tirar dúvidas, conta. Sinto que estou exercendo minha democracia.

Mas a preparação de Julia não representa todos os jovens da Cohab II, também conhecida como Cohab José Bonifácio. Na reta final das eleições de 2026, apenas um em cada quatro jovens ouvidos pela Agência Mural no território disse saber quais são os cargos em disputa.

Entre 9 e 15 de setembro, a Mural esteve na Cohab II para conversar com os jovens de 16 a 22 anos e convidá-los a responder um questionário eletrônico sobre as eleições e as expectativas para o novo governo. Foram recebidas 71 respostas, sendo 17 coletadas em campo e 54 por formulário.

A região conta com 107 mil eleitores, segundo o TSE, levando em conta a Zona Eleitoral 405, denominada Conjunto José Bonifácio. Desse total, há 448 jovens de 16 e 17 anos e 4.721 eleitores de até 20 anos, que representam 4,3% do total.

O levantamento da Mural tem caráter jornalístico e não pode ser usado como pesquisa eleitoral nem como uma representação de todos os jovens que vivem na Cohab. Mas revelam algumas percepções sobre a vida de quem vai às urnas pela primeira vez nas periferias.

Desinformação?

Na pergunta: você sabe quais cargos serão escolhidos nas eleições deste ano? 38 disseram conhecer mais ou menos. Outros 17 afirmaram saber quais são os postos, enquanto 16 responderam que não sabem. O último grupo equivale a 22,5%, quase um quarto dos entrevistados.

Nas eleições de 2026, o eleitor fará seis escolhas na urna, na ordem: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente.

Apesar das dúvidas sobre os candidatos, os ouvidos afirmaram ter acesso a informações sobre as eleições. As redes sociais são a principal fonte de para 17 dos 71 jovens ouvidos, seguidas por sites e jornais, citados por 16, e televisão, por 14.

Outros dez disseram que ainda não pesquisaram sobre as eleições, nove apontaram família e amigos e seis citaram candidatos e partidos.

Costumo me informar pela internet e pela TV, conta Julia. Em casa, as eleições também fazem parte das conversas com a família, principalmente quando o assunto envolve fake news, candidatos e propostas.

Distantes da política

Dos 71 jovens ouvidos pela Mural, 23 tinham título de eleitor. Deles, quatro afirmaram que não pretendem votar no próximo domingo. É o caso do atendente de telemarketing Nathan de Souza Lima, 20, que nunca votou e não pretende comparecer em 2026.

Não gosto de política e acho que os candidatos não me representam, diz. Vejo como perda de tempo, pois são os mesmos candidatos que são eleitos e nada muda. Eles não me representam e não acho que vale só para escolher o menos pior.

Mesmo divididos sobre a participação, os entrevistados afirmam que querem melhorias para a cidade e que as prioridades da nova gestão devem ser educação, segurança e saúde.

No questionário, os 71 jovens responderam a pergunta quais temas deveriam ser prioridade para a COHAB II?, com nove opções de resposta: educação, saúde, segurança, transporte, emprego e renda, moradia, cultura e lazer, infraestrutura do bairro e outro. Cada entrevistado poderia escolher quantas alternativas quisesse.

Educação foi o tema mais citado, com 51 marcações, seguida de segurança (49) e saúde (46). Emprego e renda receberam 42 marcações e infraestrutura do bairro 36.

Emprego e renda foram citados 41 vezes, enquanto infraestrutura do bairro e moradia receberam 35 marcações cada . Cultura e lazer foram citadas 30 vezes, transporte 27 e a outro 14.

Todos os temas são importantes. Não podemos investir em saúde e não falar de moradia, ou investir em educação e não falar de transporte, afirma a estudante Julia. Poucos candidatos conhecem realmente a realidade da periferia, mesmo aqueles que usam essas regiões para fazer campanha e se eleger.

Por isso, na hora de escolher os candidatos ela levou em conta o histórico político de cada um e as proposições para um possível mandato. E ela não foi a única.

No questionário aplicado pela Mural, os jovens foram convidados a marcar as alternativas que representassem o fator mais relevante para escolher um candidato. Não havia um número limite de escolhas, entre: Propostas, Partido, Opinião de família ou amigos, Redes sociais, Quem representa meu bairro/periferia, Outro ou se não sabe.

O item propostas foi o mais citado, com 51 marcações. Partido político apareceu na sequência, 24 vezes, e a presença do candidato no bairro logo depois, com 22 citações.

A opinião de familiares e amigos recebeu 18 marcações; a alternativa outro, 14; e as redes sociais, oito. Seis participantes disseram ainda não saber o que levariam em consideração.

Eu considero principalmente a representatividade, quem está de acordo com aquilo em que eu acredito para uma sociedade mais justa e se preza pela democracia, conclui Julia.

Agência Mural

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