As candidaturas de pessoas LGBTQIAPN+ atingiram um recorde nas eleições gerais de 2026. Levantamento do Instituto Plena Cidadania, com base nos registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), contabiliza 526 candidaturas confirmadas desse grupo no Brasil um aumento de 60,6% em relação a 2022, quando a organização registrou 327 candidaturas.
O crescimento ocorre em um cenário de redução no número total de candidaturas no país. Em 2022, 29.262 nomes disputaram as eleições gerais, contra 20.524 em 2026. Com isso, a participação de candidatos LGBTQIAPN+ passou de 1,12% para 2,5% do total – ou uma a cada 90 para uma a cada 40.
Quando uma pessoa LGBT+ ocupa um espaço de poder, ela mostra que esses lugares também pertencem a nós. A representação importa porque permite que outras pessoas se reconheçam na política e entendam que também podem participar das decisões que afetam suas vidas, afirma a candidata a deputada estadual Thuane Duran (MDB), 32, mulher trans do ABC Paulista.
Thuane (blusa preta), junto com a candidata Zoraida Lobato em evento do partido MDB @Reprodução de redes sociais
E ela não é a única. Nas periferias da Região Metropolitana de São Paulo, ao menos outras cinco candidaturas representam esse movimento, em diferentes municípios e esferas políticas. A defesa dos direitos LBGT é a pauta que perpassa todos os candidatos, independente do partido, em especial quando se discute sobre saúde, segurança e assistência social para essa população.
Mas a defesa da educação pública, segurança alimentar, delegacias da mulher e programas de moradia também aparecem com relevância nos planos de governo.
É um grande equívoco não enxergar a população LGBT como classe trabalhadora. Estamos em todos os lugares: na construção, na educação, na saúde. Porque, antes de tudo, somos cidadãos, reivindica Neon Cunha, 56, mulher trans e candidata a deputada estadual pelo PT em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
O partido é um dos que mais concentra candidaturas LGBTQIAPN+, com 106 concorrentes, atrás do PSOL (137) e à frente do PDT (48), os três primeiros colocados. Na outra ponta estão Mobiliza e DC, ambos com duas candidaturas, e PRD, com três.
Os desafios
Apesar do crescimento das candidaturas LGBT, quem concorre a uma vaga afirma encontrar obstáculos, incluindo falta de recursos financeiros para as campanhas, o preconceito e a dificuldade de fazer conteúdos circularem nas plataformas digitais sem impulsionamento.
Rodrigo Mar, 43, candidato a deputado estadual pelo PT, avalia que sua orientação bissexual pode facilitar entradas, mas não elimina as barreiras impostas pelo preconceito.
A gente está dentro de uma sociedade organizada a partir do machismo, onde tudo que se aproxima do feminino é desvalorizado. O preconceito e a homofobia moram nesse lugar, afirma o candidato do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo. Por isso é importante estar no parlamento, ele é feito a partir da representatividade.
O Instituto Plena Cidadania aponta que o estado de São Paulo tem, ao todo, 68 candidatos LGBTs concorrendo nas eleições. Desse total, 40 disputam uma vaga para deputado estadual, 26 para deputado federal, um para suplente e um para vice-governador.
Os dados foram obtidos a partir das inscrições registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na plataforma VoteLGBT. A pesquisa considera candidaturas autodeclaradas, cujos responsáveis autorizaram a divulgação das informações.
Das periferias ao Legislativo
Mulher lésbica, Fernanda Curti, 31, nasceu e foi criada no Jardim São Domingos, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Começou a atuar politicamente aos 15 anos, no movimento estudantil, e aos 16 filiou-se ao PT, partido pelo qual disputa a uma vaga de deputada estadual.
Se candidatou pela primeira vez em 2020, concorrendo a uma vaga de vereadora em Guarulhos, quando recebeu 4.405 votos. Em 2022, disputou uma vaga de deputada federal e obteve 24.566 votos. Em 2024, foi eleita pela primeira vez, como vereadora, com 9.236 votos.
Fernanda Curti durante reunião na Câmara Municipal de Guarulhos @Nico Rodrigues/Divulgação
A defesa dos direitos LGBTQIAPN+ é uma das marcas de sua atuação, mas Fernanda afirma que seu mandato também trata de temas como economia, moradia, tributação, racismo, juventude e desigualdade social.
É óbvio que eu vou discutir essas questões, só que nós temos um mandato pensando na cidade [de Guarulhos]. Nós vamos discutir economia, moradia, tributação, enfrentamento ao racismo religioso, ou seja, tudo o que envolve a vida das pessoas, afirma.
Entre suas propostas está o enfrentamento às filas das Farmácias de Alto Custo, a prevenção à violência obstétrica, a reestatização da Sabesp e o fortalecimento da educação pública. Ela também defende a ampliação da Patrulha Maria da Penha e das Delegacias da Mulher, além de casas de abrigo para vítimas de violência sexual.
Participação popular como proposta
Em São Caetano do Sul, Thuane Duran, 32, mulher trans, estreia em uma eleição como candidata a deputada estadual pelo MDB. Nascida e criada no bairro do Radialista, ela afirma que sua entrada na política partidária ocorreu após a participação no MDB Diversidade, um núcleo do partido para promover a inclusão.
Eu não venho para a Assembleia apenas como candidata, venho como cidadã, como alguém que utiliza os serviços públicos e passou quatro anos em vulnerabilidade [social]. Quero levar essa experiência para dentro do Legislativo e fazer com que a população também tenha espaço para participar das decisões, afirma.
A candidata tem projetos de políticas públicas para as comunidades em áreas de saúde e transporte @Reprodução de redes sociais
Antes de disputar uma vaga, Thuane participou de outras campanhas do partido, contribuindo para a construção de propostas voltadas ao fortalecimento da diversidade. Esteve na corrida eleitoral que levou Ricardo Nunes (MDB) à Prefeitura de São Paulo, em 2024, e na de Léo Áquilla, que naquele ano concorreu ao cargo de vereadora. Em 2026, ela disputa uma vaga de deputada estadual pelo PSB.
Uma de suas principais propostas é o projeto Bairro a Bairro, que busca aproximar a população do mandato e ampliar a participação dos moradores nas decisões políticas. A iniciativa prevê o diálogo com lideranças comunitárias para identificar e buscar soluções para problemas dos bairros, especialmente em áreas como saúde e transporte.
Vida política LGBT+
Ativista desde 1985, Neon Cunha coloca a defesa da democracia e dos direitos humanos no centro de sua campanha, além de defender que a pauta LGBTQIAPN+ esteja ligada a outros direitos, como educação, moradia, saúde e qualidade de vida.
Neon concorre pela segunda vez para deputada estadual com prioridade na educação e direitos da primeira infância @Priscila Schoof/Divulgação
Ela entrou na política por perceber a falta de representação de mulheres negras e trans na Assembleia Legislativa de São Paulo e está em seu terceiro pleito. Em 2022, recebeu 35.111 votos na disputa por uma vaga na Assembleia. Em 2024, obteve 8.224 votos para a Câmara Municipal.
Neste ano, tem entre suas prioridades: melhorar a qualidade da educação, garantir direitos da primeira infância, implantar programas de moradia, valorizar a cultura, apoiar trabalhadores independentes, garantir atendimento em saúde mental para populações vulnerabilizadas e rever a atuação das forças de segurança.
‘A periferia não é homogênea, ela é muito diversa, e se alguém quer falar de diversidade, tem que falar a partir da periferia’
Neon Cunha, candidata a deputada estadual
Quem concorda é a candidata à reeleição como deputada federal, Erika Hilton, 33, nascida e criada na periferia de Franco da Rocha, na Grande São Paulo. Ela defende que garantir trabalho, segurança, combate à violência e condições dignas de vida é especialmente importante para travestis e mulheres trans negras e periféricas.
Erika tenta a reeleição e defende mulheres trans, travestis das periferias @Mateus Alves/Divulgação
As políticas públicas devem levar em conta fatores como raça, classe social e território, priorizando comunidades mais vulneráveis, afirma a candidata do PSOL.
Educação como prioridade
Rodrigo Mar aponta a defesa da educação pública como seu principal eixo de sua atuação política. Entre suas propostas está o investimento em educação de qualidade por meio do incentivo aos PPP (Projetos Político-Pedagógicos) construído com a participação de educadores, sociedade e comunidade escolar.
É possível construir uma sociedade mais plural. E a educação é o primeiro passo, inclusive para nós LGBTs. E esse mandato pode ser uma porta também para essa transformação, afirma.
Rodrigo propõe reestruturação na Educação de crianças e jovens de São Paulo @Arquivo pessoal/Divulgação
O candidato iniciou a vida política com os pais, que participaram da fundação do PT na zona leste, nos anos 1980. Ele atuou no movimento estudantil e no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Nos últimos oito anos, foi como chefe de gabinete do deputado federal Paulo Batista dos Reis (PT). Segundo Rodrigo, essa atuação o aproximou das demandas de moradores do extremo leste de São Paulo.
Saúde visual e proteção
Morador de Santo André, Felipe Menino, 37, advogado e candidato a deputado federal pelo PSB, apresenta como principais pautas a saúde visual e políticas públicas para a população LGBTQIA+.
Diretor jurídico do Conselho Regional de Ótica e Optometria, ele defende a ampliação do acesso a exames e ao cuidado primário com a saúde visual. Como proposta, sugere um programa que disponibilize vouchers para aquisição de óculos, em modelo semelhante ao da Farmácia Popular.
Na pauta LGBTQIA+, Felipe defende políticas de acolhimento e proteção social em diferentes fases da vida. Para ele, a falta de apoio pode começar na descoberta da identidade e se prolongar até a velhice, especialmente entre mulheres trans e travestis.
Quando eu me identifiquei como uma pessoa LGBT, o medo era do desacolhimento, da família rejeitar, de não ter onde ficar. Imagine os que não contribuíram para o INSS e não têm benefício previdenciário? Chegam no final da vida como? Como que a gente oferece cuidado para essas pessoas?, questiona.
Direitos LGBTQIA+ e desigualdade territorial
Keit Lima, 35, moradora da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, foi eleita vereadora em 2024 pelo PSOL e é candidata a deputada estadual pelo partido. Sua principal promessa é ampliar a destinação de recursos públicos para territórios marcados por desigualdades sociais.
Entre as propostas está a criação do Índice Favela no Orçamento, que prevê a destinação de ao menos 10% do orçamento estadual para ações em áreas com maiores índices de desigualdade. O indicador vai considerar fatores como déficit habitacional, saneamento, áreas de risco e acesso à saúde e educação.
Keit defende uma política estadual de saúde integral para a população LGBTQIA+ @Arquivo pessoal/Divulgação
A favela é nossa referência de luta e simboliza os lugares onde existe muita potência, trabalho e criatividade, mas ainda falta a presença efetiva do poder público, lamenta.
Keit também defende uma política estadual de saúde integral para a população LGBTQIA+, com atendimento humanizado, acompanhamento psicológico e atenção à saúde sexual e reprodutiva, além de casas de acolhimento para pessoas em situação de violência ou vulnerabilidade.
Prosperidade também é poder viver com dignidade, segurança, afeto, trabalho e liberdade. Defender a população LGBTQIA+ periférica é criar condições para que todas as pessoas possam construir seus projetos de vida e prosperar.
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