por Tiago Paraíba* e Rafael Rocha**

O escorpião não muda de natureza (proverbio popular)

Tem uma fábula antiga, dizem que é de Esopo, que parece feita sob medida para a política pernambucana. Um escorpião pede ao sapo que o leve para a outra margem do rio. O sapo desconfia: “se você me ferroar, eu morro.” O escorpião promete: “por que eu faria isso? Se eu te ferir, nós dois afundamos.” O sapo aceita. No meio do rio, o escorpião crava o ferrão. Antes de afundar, o sapo pergunta: “por quê?” O escorpião responde: “porque é da minha natureza.”

Agora troque os personagens. O sapo é à esquerda lulista. O escorpião é o PSB de João Campos. O rio é 2026.

A ferroada anunciada

Os números da segunda rodada da pesquisa Quest mostram o estrago. João Campos caiu de 65% para 57% entre os eleitores lulistas entre abril e setembro. No mesmo período, Raquel Lyra subiu de 30% para 36%. Não é coincidência. É a ferroada que todo mundo sabia que viria.

Raquel, mesmo comandando uma coalizão de direita, tratou de se aproximar desse eleitorado no fim do governo. Ampliou o “Mães de Pernambuco” para 150 mil famílias, prometeu 25 mil moradias populares, manteve 300 cozinhas comunitárias. Não mudou a essência de um governo que começou turbulento, com medidas autoritárias e a extrema direita em postos-chave. Mas construiu pontes com quem, sem isso, dificilmente olharia para ela.

João fez o contrário. Terminou a gestão na Prefeitura do Recife com um pacote de privatizações de parques, praças e do centro da cidade, benefícios fiscais para as bets e mão de ferro na greve dos servidores. Sinalizou para o empresariado e para a direita pernambucana incluindo a Federação União Progressista, que até março ocupava secretarias na gestão do PSB. João escolheu cortar caminho pelo campo adversário.

Mas a desidratação dele com a esquerda lulista não vem só de erros recentes ou de acertos de Raquel. Há uma divergência estrutural entre PSB e PT em Pernambuco. Quando João negou o pedido de Lula para que o PT indicasse o vice em 2024 e encolheu as secretarias comandadas por petistas, mandou o recado: quer reconstruir a hegemonia do PSB que Eduardo Campos construiu entre 2013 e 2022. Isso significa espaço quase zero para o PT.

O auge desse projeto foi 2013, quando o PSB passou a comandar o estado e a Prefeitura do Recife. O PT, que havia conduzido a vitória das forças populares na capital com João Paulo em 2000, foi expulso da Frente Popular em 2012. Isso abriu caminho para o PSB vencer o candidato de Lula. Em 2014, o PT pernambucano viu sua bancada federal sumir e amargou talvez o pior momento de sua história recente. Naquele ano, o PSB rompeu nacionalmente com o PT e pavimentou o caminho para seguir comandando Pernambuco até 2022. Não foi acidente. Foi natureza.

A fábula se repete. O PSB pede o voto da esquerda para atravessar o rio do poder. Promete aliança, projeto popular, reconstrução. Mas, no meio do caminho, ferroa. Porque sua natureza é a hegemonia, não a partilha.

Se João vencer: a esquerda refém do verniz

Se João Campos vencer em 2026, parte da esquerda pernambucana mergulha numa subordinação prolongada. A vitória consolida a hegemonia do PSB e projeta João na disputa nacional pós-Lula por fora do PT. Mais que isso: deixa boa parte da esquerda amarrada a um projeto liberal com cara de esquerda.

João não governa para a classe trabalhadora. Governa para o empresariado, para o mercado, para a direita que precisa ser neutralizada. Privatiza parques, praças e o centro do Recife. Dá incentivo fiscais aos jogos de azar (bets), que estão destruindo as vidas do nosso povo. Enfrenta servidores com intransigência. E, ao mesmo tempo, mantém um discurso moderno, jovem, de origem popular, que seduz setores da esquerda que preferem não enxergar a essência do projeto.

Essa é a armadilha. A esquerda que apoiar João sem exigir contrapartidas e sem construir autonomia vira sócia menor de um governo que não é seu. Terá assento, mas não terá voz. Terá cargos, mas não terá projeto.

Para o PT, o cenário é pior. João já deixou claro que não quer o PT como protagonista. Quer o PSB no centro, com o PT como coadjuvante. Se vencer, terá quatro anos para impor essa lógica e atrasar qualquer reconstrução autônoma da esquerda.

Se João perder: a chance de reorganizar a esquerda sem o PSB

Se João for derrotado, abre-se uma janela histórica. Pela primeira vez desde 2012, o PSB deixa de ser o centro gravitacional da política pernambucana. Isso permite que o PT, os movimentos sociais, as lideranças populares e as novas forças de esquerda construam um projeto próprio, enraizado, sem pedir licença a ninguém.

No Recife, o PT tem força para liderar esse processo. A capital foi petista com João Paulo e João da Costa. O partido mantém capilaridade nas periferias, nos sindicatos, nos movimentos de moradia, saúde e educação. Sem a hegemonia do PSB, essa força pode se reorganizar em torno de um projeto popular, democrático e participativo.

A derrota de João também empurra o PSB para o papel secundário na política estadual. O partido, que já não comanda o estado desde 2022, teria dúvidas sobre a sua permanência na Prefeitura do Recife. Para a esquerda, seria uma chance de respirar sem o escorpião nas costas.

Mas há riscos. A derrota de João não garante a vitória da esquerda. Pode fragmentar o campo progressista, abrir espaço para a extrema direita e para o bolsonarismo radical, e mergulhar Pernambuco num ciclo de instabilidade. A esquerda precisa estar preparada para ocupar esse vazio, com unidade, programa e liderança.

Se Raquel vencer: a direita que aprendeu a falar com o povo

Se Raquel Lyra vencer, o cenário é de consolidação de uma direita moderada, mas com forte apelo popular. Raquel tem hoje índices de aprovação entre 61% e 68%, e no interior chega a 62%. Conseguiu o que poucos imaginavam: ser governadora naquele momento pelo PSDB, no Nordeste, num estado governado pelo PSB por 16 anos, com alta popularidade.

Raquel aprendeu a capturar o eleitorado lulista com gestos sociais focalizados, sem mudar a essência neoliberal do governo. Isso é perigoso: a esquerda perde base sem construir alternativa. Se Raquel vencer, a esquerda precisará se reconstruir fora do PSB e fora do governo, com autonomia e radicalidade.

Se Raquel perder não é automaticamente vitória da esquerda

Se Raquel perder, o cenário é de incerteza. A derrota dela pode fortalecer João Campos e o PSB, que reassumiriam a hegemonia estadual. Nesse caso, a esquerda volta ao dilema original: carregar o escorpião ou arriscar sozinha.

A derrota de Raquel também pode fragmentar seu campo e abrir espaço para a extrema direita tentar conduzir uma aliança mais conservadora e radical em Pernambuco. Não há garantia de que a derrota da direita moderada signifique vitória da esquerda; pode significar apenas a troca de um adversário por outro mais perigoso.

Para a esquerda, a derrota de Raquel só será positiva se vier acompanhada de um projeto autônomo, popular e enraizado. Caso contrário, será apenas a troca de um governo de direita por outro governo de direita com verniz de esquerda.

O dilema final

A esquerda pernambucana está diante de um dilema que a fábula de Esopo ilumina com precisão. Se carregar o sapo o PSB de João Campos , pode afundar com ele. Se não carregar, pode não atravessar o rio.

A verdade é que a esquerda não pode continuar sendo sócia minoritária de um projeto que não é seu. O PSB de João Campos não quer partilha; quer hegemonia. Não quer aliança; quer subordinação. A história de 20122014 é prova disso.

Mas a esquerda também não pode ignorar que, sem o PSB, a disputa contra Raquel Lyra fica mais difícil. O PT, sozinho, não tem hoje força eleitoral para vencer o governo de Pernambuco. Precisa de alianças, de um projeto que agregue, de uma frente ampla que vá além das siglas.

O caminho não é carregar o escorpião, mas também não é afundar sozinha. É construir uma alternativa que não dependa do PSB, que dialogue com os movimentos sociais, com as periferias, com os trabalhadores, com os jovens.

A esquerda precisa dialogar com esse 1/3 da esquerda lulista que não vota em João Campos, defender o legado petista na capital, fortalecer as lideranças locais e se distanciar ao máximo das contradições dos governos do PSB.

E o pontapé para a construção dessa alternativa passa pela reeleição de Humberto Costa, pela ampliação das bancadas de deputados do PT e do PSOL, e por uma votação de Ivan Morais no Recife muito superior ao percentual estadual.

2026 não está sendo apenas uma disputa eleitoral. Segue sendo uma disputa velada de projetos em que a esquerda pernambucana precisar superar o dilema da fábula antes que o rio a engula.

* Tiago Paraíba integra a executiva nacional do PSOL e militante da Ação Negra.

**Rafael Rocha é servidor público e filiado ao PT.

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