- Em parceria com Amado Mundo, conteúdo do projeto Território do Voto*
Alagoa Grande (PB) – Os usineiros paraibanos que, em agosto de 1983, pagaram 1,5 milhão de cruzeiros (ou 36,3 mil reais a dinheiro de hoje, corrigidos pela inflação) a uma dupla de matadores profissionais pelo assassinato da líder camponesa Margarida Maria Alves acreditavam que o crime seria o suficiente para gerar pânico entre as famílias agricultoras e de cortadores de cana, colocando um ponto final na luta por direitos sociais e trabalhistas. Não poderiam estar mais enganados.
A morte de Margarida se transformou em um marco. Desde então, os movimentos sociais acumularam força e conquistas nas regiões do Brejo e do Planalto da Borborema. O primeiro exemplo disso foi o Polo Borborema, uma articulação de sindicatos de trabalhadores rurais e 150 associações comunitárias de 15 municípios criada em 1993, dez anos depois do crime.
Sete anos depois, veio a Marcha das Margaridas.
A primeira Marcha das Margaridas pelas avenidas de Brasília aconteceu em agosto de 2000, com a participação de 20.000 trabalhadoras rurais. Inicialmente, o movimento fez parte de uma mobilização global contra a fome e a violência de gênero, a Marcha Mundial de Mulheres.
Naquele momento, a comissão de mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) decidiu que a Marcha aconteceria no primeiro ano de mandato dos presidentes da República, sempre no dia 12 de agosto, data do assassinato de Margarida Alves.
Desde então, foram oito marchas. A próxima já está sendo preparada para acontecer em 2027, independente de quem esteja ocupando o Palácio do Planalto.
“Terra é poder”, sentencia Leônia, resumindo luta das mulheres paraibanas
O movimento social do Brasil precisou se reunir para garantir os direitos pelos quais, historicamente, Margarida Maria Alves deu sua vida. Garantir o acesso à terra, à aposentadoria, à própria educação, essas eram as preocupações de Margarida Maria Alves, recorda Maria Leônia Soares da Silva, agricultora no município de Massaranduba e coordenadora de mulheres da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Paraíba (Fetag-PB).
No início de setembro, Leônia, ou Léa, como é mais conhecida, esteve à frente da caminhada com centenas de mulheres de vários municípios paraibanos que marcou o início dos preparativos para a Marcha do próximo ano. O ato público começou diante da casa de Margarida e terminou no Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande.
Ela explicou porque o movimento social atua para manter vivo o nome de Margarida entre os mais jovens: o caminho que está construído hoje não foi construído da noite para o dia, já vem sendo trilhado há muito tempo. Muitas pessoas vieram construindo as políticas, vieram pautando a questão da educação contextualizada, a questão do acesso à água, da água com dignidade, lembrando que o acesso à terra ainda é um desafio.
Ter terra é ter vida, ter terra é ter alimento, ter terra é dignidade, ter terra é poder, sentencia Leônia.
Nenhuma das Marchas das Margaridas foi tão tensa quanto a de 2019, a única sob o governo Bolsonaro. Pela primeira vez, garrafas de vinagre foram incluídas no kit levado pelas participantes e seriam usadas para umedecer os lenços caso a Polícia Militar do Distrito Federal tivesse usado gás lacrimogêneo. No final, nada disso foi necessário e as mulheres acabaram levando as garrafas para usar em suas cozinhas.
Outra marcha
Manifestações assim, conduzidas por mulheres, não são episódios isolados naquela região. Todos os anos, desde 2010, milhares de famílias agriculturas, principalmente mulheres, saem em caminhadas pelas ruas de alguma das cidades da região para cobrar políticas públicas ou denunciar violações de direitos. É a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, organizada pelo Polo Borborema.
Houve casos, como em 2023, em Montadas, quando o número de participantes da marcha era praticamente o mesmo da população do município. Naquela ocasião, a cidade de 5,8 mil habitantes recebeu 5 mil pessoas em uma manhã.