Em ano de Copa do Mundo, o futebol volta a ocupar o imaginário de crianças e jovens que sonham com um futuro no futebol. Ryan Francisco, 19, e Mateus Mendes, 17, são exemplos de garotos que começaram nos campos de várzea e nas quadras da Vila Nhocuné, em Artur Alvim, na zona leste, e hoje trilham esse caminho nos elencos de São Paulo e Santos.

As histórias dos dois mostram que chegar ao futebol profissional não depende apenas do talento. Entre o futebol de bairro e um clube da Série A estão as peneiras, os treinos, os deslocamentos, as dificuldades financeiras e, principalmente, famílias que precisaram reorganizar a própria rotina para acompanhar o sonho dos filhos.

Ryan, atual centroavante do São Paulo, começou a se aproximar da bola ainda na infância. Antes mesmo de frequentar os campos, já encontrava maneiras de brincar com ela dentro de casa.

Enquanto eu o trocava para a creche, deixava a roupa e a meia enrolada perto dele. Ele pegava a meia e ficava chutando, às vezes, pegava uma maçã, uma laranja e ficava me dando drible na cozinha, lembra a dona de casa Magda Rodrigues, 54, mãe do atleta.

Ryan Francisco, jogador do São Paulo, ao lado dos pais Magda Rodrigues e Raimundo Alves @Lohe Duarte/Agência Mural

O futebol ganhou outro significado para a família de Magda quando Ryan passou a acompanhar o pai, o empresário Raimundo Alves, 56, nos jogos de várzea em Artur Alvim. Enquanto os adultos jogavam, os filhos e netos dos jogadores brincavam com a bola e, assim, surgiu um time para as crianças.

Para Raimundo, naquele momento, ainda era uma brincadeira, mas o talento do filho começou a chamar atenção. Ryan foi convidado para uma peneira de futsal do São Paulo e acabou indicado ao Corinthians. Permaneceu no clube por um ano e quatro meses, foi campeão e depois iniciou a transição para o futebol de campo.

Foi nesse período que o pai começou a perceber que o esporte poderia deixar de ser apenas uma brincadeira. Ali, acreditei que meu filho seria profissional. Olho para 11 anos atrás, quando achava que o sonho era distante, e hoje vejo ele se realizando, conta Raimundo.

A partir daí, Ryan passou por avaliações, peneiras e campeonatos. Cada aprovação representava mais uma etapa, mas também significava novos gastos e deslocamentos para a família.

O fim?

Em 2016, Ryan recebeu um convite para integrar a base do Palmeiras. No ano seguinte, atuou pelo sub-11 ao lado de Endrick Felipe, que anos depois chegaria à Seleção Brasileira. Durante três anos, viveu uma rotina de treinos e competições. Em 2017, jogou a semifinal entre Santos e Palmeiras, e fez um gol de cobertura, levando o time a uma final histórica, que contou com um público de mais de 20 mil pessoas.

A passagem pelo clube, no entanto, terminou em 2019, quando Ryan foi dispensado. A dispensa abalou a família, que também enfrentava dificuldades financeiras, mas naquela mesma semana, Ryan recebeu novos convites para avaliações. Abatido com a saída do Palmeiras, ele não queria ir, mas Raimundo o convenceu a continuar tentando.

Ryan começou cedo disputando campeonatos e conquistando troféus @Arquivo pessoal

Ryan continuou sua trajetória, passou pelo Nacional Atlético Clube, Esportivo da Penha, Centro da Coroa e realizou avaliações em outros clubes. Em algumas oportunidades, porém, o problema não era apenas ser aprovado: era conseguir chegar aos testes.

A família nem sempre tinha dinheiro para levar o garoto para avaliações em outras cidades ou estados. O caminho até o futebol profissional também dependia das condições financeiras para manter os treinos e os deslocamentos. Foi nesse período que surgiu a oportunidade de Ryan jogar pelo SKY Brasil, um clube que ainda estava em fase de formação.

Pessoal da família falou que eu estava ficando louco: deixar de ir para o Flamengo, Atlético Paranaense e tantos outros que convidaram Ryan para ir para um time que ainda estava em projeto?, lembra Raimundo.

A família decidiu apostar na oportunidade. Pouco depois dessa decisão, veio a pandemia e o treino precisou caber dentro de casa. Com os campeonatos paralisados, o SKY passou a acompanhar Ryan por chamadas de vídeo e continuou dando suporte à família. Naquele período, Raimundo e Magda também enfrentavam dificuldades financeiras. Os dois tinham uma confecção de roupas e ficaram sem os pedidos por um período.

Na infância, o garoto deu os primeiros passos no futebol nos campos de várzea da Vila Nhocuné @Arquivo pessoal

Treino improvisado

Sem dinheiro para comprar equipamentos, a mãe improvisou com os materiais da confecção. Fez uma escada, usada nos exercícios, com linhas. Os materiais que estavam disponíveis em casa passaram a fazer parte da rotina de treinamento. Enquanto os campeonatos estavam parados, Ryan seguia treinando.

Em 2021, o SKY Brasil disputaria seu primeiro campeonato sub-15 e, por causa das restrições da pandemia, não haveria torcida. Raimundo, que acompanhava as estreias do filho desde o início, não queria perder aquela partida. Sem carro e sem dinheiro para ir ao estádio, pesquisou o local e encontrou um barranco de onde conseguiria assistir ao jogo.

O atleta tem contrato renovado com o time até 2029, mesmo após lesão o São Paulo reconhece o talento do jogador @Reprodução/Instagram/ryan.francisco9

Eu pesquisei tudo sobre o estádio, o entorno. Descobri um barranco que eu conseguia acessar pelo meio do mato e lá eu conseguia assistir. Nós não tínhamos carro, então liguei para um amigo, maluco igual eu, e falei: Vamos lá assistir ao jogo.

O amigo aceitou. Os dois chegaram ao local e acompanharam a partida pendurados em uma árvore, debaixo de chuva e frio. Naquele dia, Raimundo viu o filho marcar o primeiro gol oficial da história do SKY Brasil. Ryan continuou disputando campeonatos e ganhando destaque, até chamar a atenção do São Paulo, que procurou a família e fez uma proposta.

Em 2022, ele chegou à base do clube, conquistou títulos e, em 2025, foi o artilheiro da Copinha. Depois da competição, ganhou ainda mais atenção ao cobrar dois pênaltis de cavadinha. Em fevereiro deste ano, passou a integrar o elenco profissional do São Paulo, com contrato até 2029.

Antes eu era apenas um menino sonhador, mas aconteceram tantas coisas incríveis que nem nos meus melhores sonhos eu imaginei, afirma Ryan.

Entre Artur Alvim e Santos

A trajetória de Mateus Mendes, atual volante do sub-17 do Santos, também começou na Vila Nhocuné. Aos quatro anos, ele já mostrava interesse pelo futebol e talento.

Cheguei ao Santos por meio de um amistoso no qual me destaquei, quando surgiu a oportunidade de ser um Menino da Vila, não pensei duas vezes”, diz Mateus @Abner Dourado

Eu nasci e cresci na periferia da zona leste de São Paulo e, desde pequeno, frequentava os jogos de futebol de várzea. Acredito que esse sonho nasceu ali no campo, conta o atual volante do Santos.

Aos oito anos, ele entrou para o Juventus, pela Federação Paulista, e, para a mãe, a assessora de planejamento Amanda Mendes, 42, foi quando o futebol passou a exigir mais do filho.

Eu ficava tensa, nervosa, ele já estava federado. Você chega lá e vê a cobrança dos técnicos e dos clubes em cima dos meninos, então percebe que não é mais uma brincadeirinha.

Mesmo não conseguindo ser jogador profissional, Alisson nunca deixou de jogar e levar o filho para as partidas @Arquivo pessoal

Mateus fez a transição do futsal para o campo, passou por outros times, jogou a Copa do Brasil em Florianópolis pelo São Caetano e chamou a atenção do São Paulo, onde permaneceu por três anos.

A pandemia interrompeu os campeonatos, mas não os treinos. O garoto permaneceu se dedicando e mantendo o ritmo. Quando o Campeonato Paulista Sub-13 retornou, surgiu uma nova oportunidade.

Um amigo do pai, o autônomo Alisson Leandro, 44, convidou Mateus para jogar um amistoso contra o Santos. A partida também seria uma avaliação.

Mateus foi aprovado, mas o novo clube trouxe também uma dificuldade para a família: os treinos aconteciam em Santos, enquanto todos continuavam morando em Artur Alvim, na zona leste da capital.

A família de Mateus, que acompanha de perto os sonhos do atleta @Arquivo pessoal

Durante seis meses, Alisson buscava o filho na escola e seguia para Santos. No caminho, Mateus comia uma marmita preparada pelo pai, para ganhar tempo e chegar ao treino no horário.

Enquanto o garoto treinava, Alisson trabalhava de dentro do carro. Para a sorte da família, a empresa do pai ainda funcionava no modelo de home office.

No segundo semestre de 2024, a família ainda não tinha condições de se mudar. A solução encontrada foi dividir um apartamento em Santos com familiares de outros jogadores. Mateus passou a ficar durante a semana longe de casa e voltava aos finais de semana para rever os familiares, os amigos e se preparar para mais uma semana.

No fim de 2024, enquanto a família se organizava para a mudança definitiva para Santos, a irmã mais velha, Isabella Mendes, 22, estudante de fisioterapia, deixou a rotina e foi acompanhar a carreira do irmão. Ela passou a morar com Mateus.

Eu e meu irmão sempre fomos muito unidos. Mas confesso que, quando o futebol chegou na minha vida e eu fui inserida em um mundo completamente desconhecido, tive que aprender e reaprender muitas coisas, conta Isabella.

Para ela, acompanhar a carreira do irmão também significa participar de uma conquista familiar.

Acho que esse sentimento se aflora ainda mais quando você é irmã de um atleta, porque o que para muitos é apenas uma competição, para nós é uma realização. É ali que uma vida inteira de dedicação ganha forma.

Mateus Mendes assinando contrato com Santos Futebol Clube @Reinaldo Campos/Santos FC

Lesões pelo caminho

A trajetória de Mateus também foi marcada por lesões. Aos 14 anos, durante um treino, sofreu uma fratura no maxilar após levar uma joelhada no rosto. Em 2025, durante outra atividade, sofreu uma lesão no olho que o manteve hospitalizado por 15 dias. O jogador passou por duas cirurgias e precisou usar uma prótese ocular.

São coisas que a gente não espera nunca. O futebol não vem com manual, você vai aprendendo enquanto vive, conta Amanda.

Depois de meses de recuperação, Mateus recebeu uma proposta para assinar o contrato profissional com o Santos. Pouco depois, veio outra conquista: a convocação para a Seleção Brasileira na categoria sub-15. Para o garoto, não foi só mais uma experiência, mas a materialização de um sonho. Hoje, a família mora em Santos e acompanha a rotina do jogador.

Da várzea à Série A

Ryan e Mateus começaram no futebol de bairro, passaram pelo futsal e enfrentaram peneiras, dispensas e dificuldades. Com o apoio das famílias, chegaram à Série A e se tornaram exemplos para outros jovens da periferia. Mateus ainda diz não ter noção do impacto que sua trajetória pode causar.

Ainda não tenho muita dimensão da influência sobre a vida dos outros meninos. Mas fico extremamente feliz quando me falam que me têm como referência. Isso me motiva ainda mais a buscar sempre ser o melhor que posso como pessoa e atleta.

Agência Mural

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