Desencontro de informações, insegurança e falta de respostas. Essa é a realidade de pacientes de Guarulhos, na Grande São Paulo, que dependem de medicamentos entregues na Farmácia de Alto Custo do município. Isso porque, desde abril, parte dos pacientes deveria ser contemplada com a entrega de remédios em casa, mas na prática não há garantias sobre o envio, nem critérios claros para definir os beneficiários.
Em março de 2026, a Agência Mural denunciou que pacientes passavam até três horas na fila da farmácia, aguardando a liberação de medicamentos, além de terem que realizar longos deslocamentos para chegar à única farmácia de alto custo do município.
Na época, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo informou que, a partir de abril, os pacientes passariam a receber os medicamentos em casa. A entrega domiciliar, porém, começou a ser implementada apenas no fim de junho. Segundo a pasta, o programa, chamado ‘Remédio SP’, está sendo implantado de forma gradual, com ampliação progressiva do número de pacientes atendidos.
Filas persistem na Farmácia de Alto Custo, em Guarulhos @Gabrielly Souza/Agência Mural
De acordo com a pasta, até 21 de agosto de 2026, 3.536 pacientes de Guarulhos já haviam sido cadastrados no programa e 1.182 entregas domiciliares haviam sido realizadas até a data no município. O órgão, porém, não respondeu ao questionamento sobre o número total de pacientes que retiram medicamentos de alto custo na unidade e que teriam direito de recebê-los em casa.
O relatório de atividades de 2026 da organização social de saúde SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), que gerencia a Farmácia de Alto Custo de Guarulhos e é responsável pelas entregas, aponta que 18.353 mil atendimentos foram realizados no município somente em julho deste ano.
O número, no entanto, não corresponde necessariamente à quantidade de pessoas atendidas, já que um mesmo paciente pode ter ido à farmácia mais de uma vez no mês, dependendo do tipo de receita médica que possua.
O programa Remédio SP realiza a entrega de medicamentos diretamente na residência de pacientes atendidos pela Farmácia de Alto Custo. Coordenada pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, a iniciativa tem como objetivo facilitar o acesso aos medicamentos, reduzir deslocamentos e diminuir filas de espera nas unidades.
Sem informação
O aposentado Dejalma José, 70, morador do bairro Cumbica, sequer foi informado sobre a possibilidade de receber os medicamentos em casa. Em tratamento contra um câncer de pulmão no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, ele esteve na Farmácia de Alto Custo para retirar o brometo de tiotrópio, medicamento utilizado para relaxar os músculos das vias aéreas e facilitar a respiração.
O serviço de entrega domiciliar não foi oferecido a ele. A próxima retirada está prevista para setembro. “Como ninguém me falou nada, eu vou ter que estar aqui de novo em setembro”, lamenta.
O também aposentado Hélio Felix de Jesus, 74, que acompanhava o vizinho Dejalma por ter mobilidade reduzida, também deixou a unidade sem qualquer orientação sobre o programa. Hélio faz uso de galantamina, indicada para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio leve a moderado, e de Alenia, medicamento utilizado no controle da asma.
Hélio retira os medicamentos na farmácia para o tratamento de Alzheimer e de doença pulmonar @Gabrielly Souza/Agência Mural
A reportagem questionou funcionários da unidade sobre quais critérios são utilizados para definir os pacientes que serão contemplados pelo serviço. Segundo uma atendente, não há seleção e qualquer paciente pode preencher a ficha de cadastro para solicitar a entrega em domicílio.
A informação, no entanto, diverge da resposta enviada pela Secretaria de Estado da Saúde. Em nota, a pasta afirma que a inclusão no programa depende da análise de critérios como a regularidade da documentação, a viabilidade logística da entrega e a validação do endereço informado pelo paciente.
Questionada, a Secretaria de Saúde afirmou que incluiu o paciente Dejalma José na lista de elegíveis para receber os medicamentos em casa a partir de setembro.
Falta de segurança
Diferentemente de Dejalma e Hélio, a doméstica Ana Paula Souza, 51, moradora do bairro Novo Recreio, conseguiu realizar o cadastro para receber em casa o medicamento utilizado no tratamento da asma. Ela também faz uso de Forxiga para o controle do diabetes tipo 2 e agora aguarda a confirmação da entrega.
‘Pego três conduções para estar aqui todo mês. Receber em casa facilitaria muita coisa na minha vida. Mas também não deram confirmação nenhuma, código de rastreio, nem nada. Só falaram para aguardar’
Ana Paula, dona de casa
Caso a entrega não ocorra, ela terá de retornar à Farmácia de Alto Custo para fazer a retirada presencial, assim como todos os meses.
A dona de casa Ester Oliveira de Castro, 43, cuida da mãe, que tem enfisema pulmonar. A paciente faz uso contínuo de brometo de tiotrópio, indicado para o tratamento da DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), além de budesonida, utilizada no controle da asma.
Ana Paula mostra os medicamentos retirados na farmácia de Alto Custo @Gabrielly Souza/Agência Mural
“Eles me ofereceram o serviço. Preenchi uma ficha de cadastro, mas sem nenhuma garantia de que vou receber os medicamentos em casa. Perguntei se haveria algum código de rastreamento ou um canal para acompanhar a entrega do motoboy, mas disseram que não. É só esperar, relata a moradora do bairro Taboão.
No último dia 13 de agosto, Ester recebeu o medicamento de sua mãe em casa, o que foi um alívio. Perguntei ao motoboy se em setembro ele vai estar aqui de novo. Ele disse que, se tudo caminhar bem, sim, conta Ester, feliz com a novidade.
A Secretaria de Saúde do Estado informa que a entrega domiciliar é realizada apenas para medicamentos elegíveis, conforme critérios técnicos e operacionais. O serviço não contempla tratamentos que exijam comparecimento presencial periódico, apresentação de exames ou medicamentos de grande volume.
As pessoas ainda enfrentam filas na calçada da farmácia @Gabrielly Souza/Agência Mural
Segundo a pasta, a adesão ao serviço é oferecida durante a retirada do medicamento na unidade, após avaliação da documentação, da viabilidade logística e da validação do endereço. Após a inclusão no programa, o paciente é informado sobre a data prevista para a entrega. Caso ocorra algum imprevisto, a unidade entra em contato para prestar as orientações necessárias.
A pasta também informa que a Farmácia disponibiliza atendimento por telefone e e-mail para esclarecer dúvidas e prestar suporte.
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