A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a “pauta de costumes” em torno de temas como aborto, “ideologia de gênero”, “kit gay” e “mamadeira de piroca”, para 2026 esse repertório foi ampliado.
Assuntos como violência contra a mulher, maternidade, cuidado, família, autonomia financeira e empreendedorismo também passaram a integrar o discurso de setores conservadores, ao mesmo tempo em que ganha força um ativismo cristão antifeminista, que inclusive disputa a própria definição do que significa ser mulher.
Para falar sobre esses e outros temas em torno do voto feminino cristão nestas eleições, a Marco Zero conversou com a socióloga da religião e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) Tabata Tesser, pesquisadora associada do Instituto de Estudos da Religião (Iser).
Socióloga, ela tem estágio doutoral na Universidade de Barcelona (UB) e é mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No ISER, integra a pesquisa Cristianismos e Aborto: disputas nas instituições públicas brasileiras (2010-2025). Também faz parte do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR-Unicamp) e do grupo de estudos de Investigações em Sociologia da Religião (Isor), da Universidade Autônoma de Barcelona.
Crédito: acervo pessoal
Marco Zero Nas eleições de 2022, a pauta de costumes parecia mais concentrada no segmento evangélico. Em 2026, vemos novas personagens, como Daniella Marques, num movimento que une identidade católica, tradicionalismo, perfil de elite e discurso sobre mulheres e família. O que mudou na forma como a direita está tentando falar com essas mulheres? O que essa mudança revela sobre o eleitorado feminino cristão no Brasil?
Tabata Tesser Acho que a primeira mudança importante é que estamos começando a perceber que falar de mulheres cristãs não é falar apenas de mulheres evangélicas. Existe uma espécie de miopia na cobertura eleitoral brasileira que transforma o eleitorado evangélico em sinônimo de eleitorado cristão, quando, na verdade, o cristianismo brasileiro tem um rosto fortemente feminino e o maior contingente de mulheres cristãs é católico.
O Censo de 2022 mostra que as mulheres são 55,4% dos evangélicos e 51% dos católicos. Quando olhamos para esse conjunto, estamos falando de dezenas de milhões de mulheres. São mulheres que não apenas frequentam igrejas, mas sustentam boa parte da vida cotidiana dessas instituições por meio do trabalho voluntário, da catequese, da assistência e do cuidado.
A emergência de uma figura como Daniella Marques é interessante justamente porque ela permite à direita fazer uma operação diferente daquela que vimos em 2022. Ela combina uma identidade católica explicitamente assumida, credenciais técnicas, pertencimento às elites econômicas e um discurso sobre mulheres, família, empreendedorismo e autonomia financeira. É uma tentativa de construir uma interlocutora feminina que não seja apenas a mulher religiosa tradicional, mas uma mulher profissional, economicamente bem-sucedida, empreendedora e, ao mesmo tempo, conservadora nos valores.
Isso é importante porque revela que a direita percebeu que não basta falar de aborto, ideologia de gênero ou sexualidade para disputar as mulheres cristãs. É preciso falar também de dinheiro, trabalho, cuidado, maternidade, violência e família, temas que já fazem parte do cotidiano dessas mulheres.
Ao mesmo tempo, eu teria cuidado para não interpretar isso como se essas mulheres estivessem simplesmente migrando para uma nova liderança. O voto cristão não é um voto que se entrega por atacado. A pesquisa do Iser com mulheres evangélicas mostra justamente isso: elas escutam pastores e familiares, mas fazem suas próprias escolhas, pesquisam e interpretam a política a partir de suas experiências.
Então, mais do que perguntar quem vai ficar com as mulheres cristãs, eu acho que precisamos perguntar o que essas mulheres estão dizendo sobre política. E, quando fazemos isso, encontramos um eleitorado muito mais complexo do que os rótulos permitem enxergar.
Marco Zero Janja Lula da Silva e Michelle Bolsonaro são mulheres muito diferentes e que também representam maneiras muito diferentes de construir politicamente a imagem da mulher. Até que ponto elas conseguem produzir uma identificação para além das já eleitoras de seus respectivos campos políticos?
Tabata Eu acho que existe um limite importante na própria ideia de primeira-dama como representante das mulheres. Janja e Michelle constroem imagens femininas muito diferentes, mas ambas estão inseridas em projetos políticos bastante identificados com seus respectivos campos.
Michelle Bolsonaro conseguiu construir uma identificação muito forte especialmente entre mulheres evangélicas e setores conservadores, mobilizando uma linguagem de fé, família, maternidade e testemunho cristão. Janja, por outro lado, constrói uma imagem pública que dialoga com outras formas de participação feminina, com pautas sociais, direitos e uma linguagem mais próxima de setores progressistas.
“As mulheres cristãs, por exemplo, não são homogêneas. Classe, raça, geração, território, família, experiência religiosa e cotidiano produzem diferenças enormes”.
E há uma questão que considero particularmente importante: a tentativa de recuperar ou entregar as mulheres cristãs por meio de primeiras-damas ou lideranças religiosas acaba dizendo mais sobre a estratégia dos partidos do que sobre essas mulheres. Elas não são um eleitorado que necessariamente acompanha uma mulher porque ela é mulher ou porque ela é cristã.
A identificação política acontece quando a mulher reconhece sua própria vida naquela agenda. E aí chegamos a temas muito concretos: o preço do supermercado, a consulta médica, a segurança dos filhos, a violência dentro de casa, o trabalho, a renda e a possibilidade de cuidar de quem depende dela.
Por isso, acho que tanto Janja quanto Michelle podem produzir identificação para além de seus campos, mas isso não acontece automaticamente pela imagem feminina ou pela religião. Depende da capacidade de falar com mulheres que não necessariamente se reconhecem integralmente em nenhum dos dois projetos.
Marco Zero Como você já colocou, as mulheres evangélicas não formam um bloco homogêneo. Suas posições políticas são atravessadas por questões de classe, raça, geração, território, família e cotidiano. Que peso a pauta de costumes ainda tem como caminho para conquistar essas eleitoras? Ou temas como endividamento, cuidado, violência, trabalho, renda, saúde e segurança podem ser mais decisivos nas eleições de 2026?
Tabata Eu diria que a chamada pauta de costumes continua sendo importante, mas talvez ela seja superestimada quando tentamos explicar o voto das mulheres cristãs.
A pesquisa Mulheres evangélicas, política e cotidiano, do Iser, é muito interessante nesse sentido porque mostra mulheres de diferentes regiões, majoritariamente negras e das classes C e D, falando sobre política a partir da própria vida. E o que aparece no centro não é necessariamente aborto ou ideologia de gênero. Aparecem cuidado, infância, maternidade, família, saúde, segurança, violência contra a mulher, preço dos alimentos e políticas públicas.
Existe uma frase que resume muito bem isso, essas mulheres conhecem a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta médica e a condução.
Isso não significa que elas não tenham posições sobre aborto, sexualidade ou educação. Elas têm. Mas essas posições convivem com experiências concretas. Uma mulher pode, por exemplo, ter uma visão bastante conservadora sobre família e, ao mesmo tempo, defender educação sexual nas escolas porque viveu uma experiência de violência na infância. Isso mostra como é inadequado transformar essas mulheres em caricaturas.
Empreendedorismo feminismo faz parte da pauta das mulheres de direita
Crédito: Tânia Rêgo/Agência BrasilEntão, para 2026, eu acho que quem quiser compreender esse eleitorado precisa olhar menos para a pergunta qual é a posição dela sobre a pauta de costumes? e mais para como ela está vivendo?. Ela está endividada? Consegue cuidar dos filhos? Tem acesso à saúde? Sente-se segura? Tem renda? Quem cuida dela quando ela precisa cuidar de alguém?
E existe uma dimensão religiosa muito importante aí: a igreja muitas vezes funciona como rede de apoio justamente porque o Estado não chega de maneira suficiente. Por isso, políticas públicas também são questões religiosas para essas mulheres, porque atravessam diretamente suas vidas e suas comunidades.
A pauta de costumes não desapareceu. O que muda é que ela precisa ser compreendida dentro de uma vida cotidiana muito mais complexa.
Marco Zero A direita nunca falou tanto das mulheres. De 2022 para cá, setores conservadores passaram a disputar temas tradicionalmente associados à esquerda e ao feminismo, como violência contra a mulher, cuidado, autonomia financeira e maternidade. Mas o que vemos é um ativismo cristão antifeminista ganhando força. Como você avalia esse movimento?
Tabata Eu acho que esse é um dos movimentos mais interessantes e também mais importantes para entendermos o conservadorismo atual.
Durante muito tempo, determinados temas foram identificados quase exclusivamente com a esquerda e com os feminismos. Agora, setores conservadores perceberam que não precisam abandonar seus valores para falar sobre mulheres. Eles podem disputar a própria definição do que significa proteger uma mulher, cuidar, falar de violência, defender autonomia econômica ou valorizar a maternidade. No fim, o que está em disputa é a pergunta o que é ser uma mulher?.
É aí que entra o ativismo cristão antifeminista. Ele não significa simplesmente ausência de uma agenda para mulheres. Pelo contrário: existe uma disputa ativa pela categoria mulher virtuosa e pelo significado de conceitos como autonomia, liberdade, cuidado, família e violência.
O caso da Daniella Marques é interessante porque mostra uma dessas formulações. A autonomia feminina aparece associada sobretudo à capacidade de gerar renda, empreender, acessar crédito e adquirir educação financeira. É uma agenda que pode produzir efeitos concretos, mas parte de uma concepção muito específica de desigualdade: a ideia de que a inclusão econômica individual seria um dos principais caminhos para a emancipação.
Isso é diferente de uma perspectiva feminista que olha para as estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que produzem a desigualdade entre homens e mulheres.
“Aí está a novidade: elas estão disputando o feminismo e, em alguns casos, disputando a própria linguagem feminista”.
E acho que os feminismos precisam prestar atenção nisso. Porque feministas e antifeministas estão, muitas vezes, falando sobre problemas semelhantes, violência, maternidade, cuidado, dinheiro, saúde, mas a partir de diagnósticos, linguagens e repertórios políticos completamente diferentes e chegando em concluíres distintas sobre a categoria mulher e gênero.
É uma disputa não apenas pelo voto das mulheres, mas pela definição do que é uma mulher, do que ela precisa e de quem deve protegê-la. E isso está acontecendo tanto no campo progressista como na direita. No campo progressista, vide o crescimento de discursos antigênero e antitrans buscando justamente responder a pergunta o que é ser mulher?.
Marco Zero Projetos sobre misoginia, violência contra a mulher, educação, família e infância têm mobilizado a direita na Câmara e no Senado, para além de temas como aborto, diversidade, ideologia de gênero e mamadeira de piroca. A pauta de costumes mudou no Congresso Nacional?
Tabata Sim, e eu acho que a principal mudança é justamente essa ampliação do repertório. A pauta de costumes não desapareceu. Aborto, diversidade, sexualidade e gênero continuam sendo temas fundamentais para a direita religiosa. Mas eles passaram a conviver com uma agenda muito mais ampla sobre família, infância, adoção, doulagem, educação, violência contra a mulher, misoginia, maternidade e cuidado.
Isso acontece porque esses temas são capazes de produzir uma conexão muito mais direta com a experiência cotidiana das mulheres. E a direita percebeu que pode disputar esses assuntos sem necessariamente adotar o diagnóstico feminista sobre eles.
Por exemplo, falar de violência contra a mulher não significa necessariamente reconhecer as mesmas estruturas de gênero que os feminismos reconhecem. Falar de maternidade não significa necessariamente defender políticas de autonomia reprodutiva e múltiplas capacidades reprodutivas. Falar de cuidado não significa necessariamente reivindicar sua socialização pelo Estado.
É justamente aí que a disputa fica mais sofisticada. Vide a direita que defende armar mulheres para combater a violência doméstica.
Acho que estamos vendo uma passagem de uma pauta de costumes mais caricatural e episódica, aquela dos grandes pânicos morais, como ideologia de gênero e mamadeira de piroca, para uma disputa mais cotidiana sobre quem define família, infância, educação, proteção, violência e a própria categoria mulher.
Isso não torna a pauta menos conservadora. Ao contrário, torna o conservadorismo potencialmente mais capilarizado, porque ele passa a ocupar temas que fazem parte da vida concreta das pessoas para além de fantasmagorias.
E há uma consequência importante para quem pesquisa ou cobre eleições: não podemos mais procurar o conservadorismo apenas quando ele fala de aborto ou sexualidade. Ele também pode aparecer quando fala de cuidado, empreendedorismo feminino, maternidade, proteção da infância, liberdade educacional ou combate à violência.
Por isso, eu diria que a pauta de costumes mudou menos porque abandonou seus temas tradicionais e mais porque ampliou seu território de disputa. E as mulheres estão no centro dessa disputa. E outra questão: mulheres conservadoras/virtuosas não precisam mais de interlocutoras. Estão online e roteando o antifeminismo cristão numa desconfortável, mas importante contradição: são feministas conservadoras na prática.
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