por Helena Dias*, publicado originalmente pela Articulação do Semiárido Brasileiro

Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de Brasil, seja no voto para a presidência da República, governos e assembleias estaduais, para a Câmara e o Senado Federal.

É neste contexto que a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) apresenta a campanha Voto pela convivência com o Semiárido com foco na conscientização sobre a direta ligação entre o avanço das políticas públicas de convivência e o voto em candidaturas comprometidas com a vida das pessoas do território. Sua primeira ação foi o lançamento da Carta Política da ASA para as Eleições 2026.

Nós só vamos conseguir disputar o orçamento público para as políticas de convivência com o Semiárido se a gente tiver um governo democrático, votar para isso. Precisamos avançar no nosso projeto político e isso só vai acontecer se a gente conseguir manter o país nesse caminho que ele está agora, ir avançando na democracia. Tendo a possibilidade de debater, de discutir, de dialogar, de apresentar propostas e de disputar o orçamento do país, aponta Cícero Félix, da coordenação executiva da ASA.

A campanha se posiciona na defesa da reeleição do presidente Lula (PT) e tem caráter de mobilização territorial, seu público alvo são as famílias do Semiárido, sobretudo mulheres e juventudes. As mulheres continuam sendo maioria do eleitorado brasileiro (52,8%) e o Nordeste é a região que concentra a maior parte de eleitores e eleitoras jovens (entre 16 e 18 anos) do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Campanha quer alcançar e mobilizar famílias do Semiárido brasileiro

Crédito: Acervo/ASA Brasil

O diálogo com as juventudes é prioritário quando o assunto é voto e participação política. Entre 2022 e 2026, o registro eleitoral de pessoas com 16 a 17 anos caiu de 42,9% para 27,6%. Ou seja, 70% da população brasileira nessa faixa etária chegará às eleições deste ano sem título de eleitor. Historicamente, essa participação das juventudes nas eleições vem diminuindo desde 2014.

A gente não pode perder de vista a nossa capacidade de articulação da base, o Semiárido é isso. Eu acho que a gente tá conseguindo trazer os companheiros e as companheiras para esse debate, para incidir nos nossos territórios. Nossas vidas todas, nossa forma de viver nos próximos anos está em jogo, pontua Roselita Vitor, da coordenação executiva da ASA.

A iniciativa da Articulação tem parceria com outras campanhas, como é o caso daAgroecologia nas Eleições, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

A força dos territórios

Com caravanas territoriais e estratégias digitais de comunicação, a iniciativa centra forças no orgulho do povo do Semiárido pelas conquistas de políticas como o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), Uma Terra e Duas Águas (P1+2), Sementes do Semiárido e o projeto Quintais das Margaridas.

A campanha incentiva a valorização dessas políticas resgatando a memória de luta da ASA como forma de demarcar os avanços que o Semiárido deseja a partir das Eleições 2026: universalização da primeira e da segunda água, saneamento rural, democratização do acesso à energia fotovoltaica, fortalecimento do combate à violência contra a mulher e da divisão justa do trabalho doméstico.

Todos os temas abordados na Voto pela convivência com o Semiárido estão detalhados na Carta Política da ASA. Apesar das ações priorizarem as famílias do território, a Articulação pretende engajar a sociedade civil em geral por este voto. Candidaturas novas e à reeleição, próximas ao Semiárido, ao campo agroecológico e da agricultura familiar estão sendo mapeadas para dialogar com as reivindicações da campanha.

Divisão justa do trabalho doméstico é um dos focos da campanha

Crédito: João Gabriel Marins/ASA Brasil

Histórico

Historicamente, a Articulação vem denunciando o clientelismo eleitoral no território, por meio da campanha Não Troque Seu Voto. A nova campanha, Voto pela convivência com o Semiárido, vem para ampliar a reflexão, mantendo a voz de denúncia, mas também evidenciando a necessidade de um voto afirmativo em defesa do território.

A troca de voto por favores ainda é muito recorrente no Semiárido, fragiliza a autonomia política das famílias e alimenta relações de dependência. No Brasil, uma em cada cinco pessoas (22%) diz já ter recebido oferta para vender o voto em algum período eleitoral, de acordo com pesquisa da Ipsos-Ipec. Segundo dados da Polícia Federal, a compra de votos está entre os principais motivos para a instauração de inquéritos policiais no âmbito do Codigo Eleitoral, em 2026.

Diante desse cenário, a ASA quer evidenciar que a troca do voto pode oferecer uma vantagem imediata, mas não garante políticas públicas capazes de transformar a vida das famílias de forma duradoura.

Votar pela convivência com o Semiárido é defender água, comida saudável, produção de alimentos, acesso à terra, energia, direitos das mulheres, oportunidades para as juventudes e dignidade para quem vive no território. É defender políticas públicas para uma região onde vive cerca de 15% da população brasileira e que concentra quase 30% da agricultura familiar do país.

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