Professores e gestores de escolas estaduais da Grande São Paulo denunciam que são pressionados por supervisores para registrar presença de alunos que faltaram às aulas. Segundo os educadores, caso não cumpram as exigências, há o risco de punições, fechamento de salas de aula, perda de bônus e até desligamento dos profissionais.
Segundo os docentes, trata-se de uma estratégia do governo estadual para tentar melhorar indicadores educacionais da rede.
A frequência mínima nas aulas exigida para a aprovação é de 75% da carga horária letiva, conforme a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Nas escolas estaduais de São Paulo, a presença em sala de aula atingiu 91,1% em 2025, o maior índice da série histórica, segundo dados da Seduc-SP (Secretaria de Educação de São Paulo), calculados a partir dos registros oficiais das escolas no Diário de Classe Digital.
Em 2023, a taxa de presença nas cerca de 5 mil escolas estaduais de São Paulo havia sido de 82,5% um aumento de 8,6 pontos percentuais em dois anos.
Alunos durante atividade em aula @Léu Britto/ Agência Mural
Porém, profissionais da educação ouvidos pela Agência Mural, denunciam que o alto índice é inflado dentro da plataforma Escola Total (BI), que registra as atividades letivas, entre elas frequência dos estudantes.
Nela, o painel Aluno Presente utiliza três cores para indicar o índice de presença do dia: verde, amarelo e vermelho. Caso fique em vermelho, o responsável da escola é chamado na URE (Unidade Regional de Ensino) para dar explicações. Se o caso for recorrente, pode ser destituído do cargo.
‘Por isso sou obrigado a fazer o ajuste da chamada. Se numa sala faltam dez alunos, eu só posso lançar falta para no máximo três. Ninguém pede isso por escrito, mas todo supervisor solicita o ajuste do dia’
Bruno*, vice-diretor de escola na zona leste
Segundo ele, a pressão torna impossível reter alunos por falta. Tenho uma aluna que nunca vem, mas para não perder a vaga, ela aparece no 14º dia e quebra o ciclo [de faltas, que não podem ultrapassar 15 dias seguidos]. Eu vou ‘mesclando’ as faltas dela para não gerar índices negativos no sistema, explica.
Bruno diz que não gostaria de fazer os ajustes, mas a necessidade de trabalhar fala mais alto. Para compensar as faltas, professores fazem avaliações de recuperação simplificadas ao final do bimestre. É uma política do Estado. O objetivo é alcançar o maior índice de presença e a menor retenção, de forma maquiada, completa.
Em nota, a Seduc-SP disse que não há qualquer orientação institucional para que gestores ou professores deixem de registrar faltas ou alterem os registros oficiais de frequência dos estudantes.
Segundo a secretaria, o registro de frequência, regulamentado pela Resolução SEDUC nº 32/2025, é realizado diariamente pelo docente e deve refletir a participação efetiva do estudante nas atividades escolares.
O órgão acrescentou que a compensação de ausências não altera os registros de frequência nem substitui a presença do estudante, sendo um instrumento pedagógico previsto na legislação, e não um mecanismo de aprovação automática.
Alunos que não foram às aulas tiveram registro de presença por medo de represálias da gestão estadual, apontam educadores @Magno Borges/Agência Mural
Professores afetados
Os docentes também afirmam sofrer pressão para inflar o número de alunos presentes nas aulas. Fábio*, professor no distrito do Iguatemi, na zona leste, conta que estudantes com frequência inferior a 50% do total de dias letivos foram aprovados no final do último ano, sem justificativas.
Aprovaram até alunos com 10% de frequência. Se ele estiver em qualquer lugar da escola, como no banheiro, o professor deve dar presença, mesmo que ele não assista à aula, lamenta Fábio. Para ele, os dados são maquiados para esconder a defasagem nos indicadores e evitar retenções.
Caio*, que leciona em Guaianases, também na zona leste, diz que a situação se repete em todas as escolas que passou. A [Unidade Regional de Ensino] Leste 3 nos obriga a fazer esse acerto. Nós somos pressionados, dizem que se tiver baixo índice [de presença] vão fechar salas, perder professores, perder a gestão. Todas as escolas fazem ajuste na chamada, denuncia.
Educadores ouvidos pela Mural apontam que se a chamada é feita corretamente, alunos com excesso de faltas perdem a vaga. Porém, os desdobramentos afetam toda a unidade, pois haveria o fechamento de salas e a demissão de coordenadores e diretores. Além disso, há superlotação das salas que permanecerem abertas, com o remanejamento de estudantes das turmas fechadas.
Na escola onde o vice-diretor Bruno trabalha, eles viveram um exemplo da situação. A diminuição de alunos causou demissões na coordenação e sobrecarga de funcionários.
Escola “diamante”
As escolas são categorizadas como Diamante, Ouro, Prata e Bronze, e as que apresentam índices positivos recebem premiações e bônus salariais. Em 2025, a Seduc anunciou que as escolas que atingiram 100% da meta alcançaram a categoria Diamante e receberam bônus de 2 salários para professores, diretores e coordenadores, equipe gestora e administrativa e profissionais de apoio escolar.
Escolas que atingiram 50% da meta ficaram na categoria Ouro, com bônus de 1 salário. As metas incluem boas notas dos estudantes, frequência dos alunos, participação nas provas e as metas estabelecidas por cada escola.
Em nota oficial enviada à Agência Mural, a Seduc reforçou que não existe aprovação automática e que o controle é sistêmico, feito pelos docentes.
Para o professor Caio, os profissionais são vítimas do sistema de bonificação. Eles [profissionais da Secretaria de Educação] afirmam que o registro é realizado pelos professores, ou seja, se fizeram coisa errada, a culpa é nossa, não do Estado que nos forçou a isso. Se você não ajustar a chamada, daqui um ou dois meses você está desempregado”, desabafa.
Babás de plataforma
A prática de inflar a presença dos alunos é consequência da política de metas e rankings e da “plataformização” do ensino estadual, com a entrada de aplicativos e ambientes virtuais de grandes empresas de tecnologia no cotidiano das escolas. A avaliação é do especialista em educação Gabriel Di Pierro, que coordena a área de juventude da Ação Educativa.
A frequência escolar é um dos indicadores utilizados para avaliar o desempenho das gestões e do corpo docente – e punir quem não alcança os patamares esperados. Em várias escolas, diretores são afastados ou trocados à revelia da comunidade escolar. Tudo é baseado nesses resultados. Estão pressionando os professores, que acabam colocando presença para estudantes que faltaram, diz.
A utilização das plataformas afetou drasticamente o planejamento das aulas. O conteúdo fica engessado, o aluno aprender é o que menos importa para o Estado hoje. Eles querem que a plataforma esteja verde. Você não dá aula, fica sendo babá de plataforma”, diz Caio.
O docente relata que, caso um aluno não consiga realizar as tarefas por falta de internet ou equipamentos, a coordenação da escola é chamada para dar explicações e, na maioria das vezes, culpa o professor.
Educação só na plataforma
As escolas estaduais paulistas passaram a utilizar ferramentas digitais em quase todos os processos didáticos e organizacionais, incluindo materiais de estudo, avaliações e registro de notas.
Ao todo, os estudantes chegam a utilizar até oito plataformas educacionais, acessadas por tablets oferecidos pela Seduc.
- TarefaSP (para lição de casa)
- Matific (para estudo de matemática no Ensino Fundamental)
- Leia SP (com atividades para incentivar a leitura);
- Redação Paulista (voltado para correção e aprimoramento da escrita e leitura);
- SPeak (para estudo da língua inglesa)
- Khan Academy (para estudo de matemática para o Ensino Médio)
- Alura (com atividades de programação)
- Elefante Letrado (para incentivar a leitura no Ensino Fundamental).
Para realização de atividades avaliativas, professores e alunos usam a plataforma Prova Paulista.
Já na gestão escolar e comunicação com as famílias (incluindo envio de comunicados, boletins, frequência e calendário) são usadas a SED (Secretaria Escolar Digital), Minha Escola SP, Diário de Classe e Centro de Mídias.
Sala do Futuro é a página que reúne plataformas do governo estadual. Educadores apontam que aulas ficaram engessadas @Reprodução
Os efeitos não são sentidos apenas na Capital. Roberto* é professor em Itapecerica da Serra, cidade da Grande São Paulo, e também sofre com a falta de autonomia.
Segundo ele, as aulas já vêm prontas, com muitos erros. Acabou a autonomia do professor. A busca ativa por alunos não é genuína, é para aumentar índices que serão usados para bônus salariais, diz.
Os professores também relatam que são intimidados para fazer cursos em plataformas, como o EFAPE (Escola de Formação dos Profissionais de Educação) e o Programa Multiplica SP. Caso as atividades não sejam feitas, a avaliação dos docentes cai, o que pode gerar demissão.
‘Temos que fazer vários cursos. Se não tiver um da minha área, sou indicado a fazer qualquer um, só para marcar ponto na semana. O ‘Multiplica SP’ também é obrigatório, se não fizer, fica com falta injustificada e com quatro faltas somos expulsos’
Roberto, professor
Os professores ouvidos sentem que a ameaça se tornou o modus operandi da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e que as plataformas são usadas até para fazer assédio moral contra profissionais.
Em relação ao Programa Multiplica SP, a Seduc respondeu em nota que a adesão é voluntária e que as formações ocorrem, em regra, dentro da carga horária destinada à formação continuada dos profissionais da rede.
A secretaria afirmou que apenas docentes com carga horária semanal de até cinco horas realizam parte das atividades fora da jornada e que a não adesão não impede a participação nos processos de atribuição de aulas.
Sobre as denúncias de ameaças, a Seduc afirmou que o acompanhamento de indicadores educacionais pelas Unidades Regionais de Ensino integra as atribuições de supervisão técnica e administrativa previstas na legislação e tem como finalidade apoiar a gestão escolar e a implementação das políticas educacionais da rede.
Educadores de várias cidades da Grande SP e capital apontam pressão @Thila Moura/Agência Mural
Conflito de interesses
Em agosto de 2023, a uma das plataformas utilizadas pelos estudantes, a Alura, focada em tecnologia, foi contratada sem licitação por R$ 30 milhões pela Secretaria de Educação, como mostrou reportagem da Folha de SP.
Também em 2023, Feder foi investigado pela Procuradoria Geral da Justiça por conflito de interesses em contratação de notebooks pela Seduc. O secretário é sócio de uma offshore dona de 28,16% das ações da Multilaser, empresa contratada por R$ 200 milhões pela pasta.
O Ministério Público de São Paulo arquivou o pedido de investigação seis meses depois, alegando que Feder não teve influência na licitação, por não fazer parte do governo na época. Porém, ainda em 2023, o governo paulista fechou mais três contratos com a Multilaser nas áreas da saúde, com licitações chegando a R$243 mil. Feder já ocupava a Seduc quando as contratações foram feitas.
A reportagem também enviou perguntas para a Seduc sobre as investigações contra Renato Feder e as acusações de conflito de interesse, mas a secretaria não respondeu aos questionamentos. O órgão também não respondeu às perguntas sobre quais critérios técnicos e pedagógicos orientam a escolha das plataformas e qual o custo total anual pago pelo Estado para as empresas detentoras das ferramentas.
*Os nomes foram alterados para preservar as fontes de retaliação.
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