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Apenas no período de Copa do Mundo, quase 340 mil brasileiros solicitaram a autoexclusão de seu CPF para terem o acesso a plataformas de bets bloqueadas por opção. Os dados são do Ministério da Fazenda, que já bloqueou o acesso a casas de apostas online, tanto de apostas esportivas quanto de jogos de azar, para 941 mil pessoas, além de outros 2,8 milhões de beneficiários de programas sociais via Bolsa Família ou Benefício de Prestação Continuada (BPC) um em cada 10 beneficiários do país.
Os números são difíceis de ignorar. É um pedido de ajuda. Coletivo. Um indicativo de que muita gente quer parar de jogar, mas, para isso, precisa ser impedido.
Você já deve ter ouvido (ou usado) a expressão bebo socialmente. A literatura médica admite, do mesmo modo, o jogador social. Aquele eventual, com controle sobre os próprios impulsos. Há outros cinco níveis de gravidade, alguns caracterizando o que seria esse transtorno. Uma doença. Que parte significativa da população nega, utilizando o discurso de liberdade individual para defender a existência e publicidade das casas de apostas online, as bets.
Aumento da ansiedade já era um relato comum a 51% dos apostadores, segundo pesquisa de 2024 do Observatório Nacional da Indústria (ONI), feita durante o primeiro ano de regulamentação do setor no Brasil. O mesmo levantamento aponta que 26% mencionam episódios frequentes de estresse e 23% dizem conviver com sentimentos de culpa após perder dinheiro nas plataformas.
O problema do vício em jogos em geral não é novidade. Desde 1980 a ludopatia foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na Classificação Internacional de Doenças (CID) 9. Desde então, novas camadas vêm sendo criadas para dar conta da epidemia social que vem se agravando e, ainda em 2013, o Transtorno do Jogo foi reconhecido na medicina internacional a partir de definição da Associação Americana de Psiquiatria. A CID-10 contempla o jogo patológico e a mania de apostas, enquanto a CID-11, de 2022, trata do vício em jogos eletrônicos.
O problema já se manifesta no mercado de trabalho. Segundo levantamento da empresa de benefícios VR com 1,3 milhão de brasileiros empregados, há uma tendência de aumento sensível de licenças por vício em jogos e apostas, passando de apenas um registro em 2022 para 21 em 2025, com prazo médio de 29 dias por afastamento. Isso reforça a importância de as empresas acompanharem com mais atenção os impactos que determinadas dinâmicas sociais e comportamentais podem gerar na saúde e na rotina dos trabalhadores. O mais importante, nesse contexto, é usar os dados para ampliar a capacidade de prevenção e acolhimento, avalia o diretor-executivo de Pessoas, Jurídico e Governança da organização, Willian Gil.
Para o diretor de saúde mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, é uma questão de tempo para que uma CID-12 seja utilizada pela OMS para classificar de maneira mais específica o vício em bets.
Os 6 tipos de jogadores
Jogo não é sinônimo de doença. A gravidade da dependência é que define o quadro de ludopatia, conforme critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da OMS
Jogador Social
Aposta recreativa, com limites claros de tempo e dinheiro.
Jogador Profissional
Tem controle, mas faz das apostas fonte de renda.
Jogador Risco
Até tem controle e limites, mas já apresenta atitudes de maior exposição a apostas.
Jogador-problema
Sofre consequências negativas e apresenta perdas de controle esporádicas.
Jogador Compulsivo
Sofre de urgência incontrolável de jogar, vício fundamentado (ludopatia).
Jogador Patológico
Perde capacidade de controlar o hábito, sofre graves prejuízos financeiros e psicossociais, enfermidade psiquiátrica crônica (transtorno do jogo).
O desafio de lidar com esse tipo de vício é que, bem como é verificado no caso de bebidas e outras drogas, há uma dificuldade generalizada em se reconhecer com o problema, especialmente num universo socialmente aceito. Nas unidades físicas de atendimento espalhadas pelo país para atender a população mais vulnerável, como em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), menos de 6,5 mil atendimentos sobre a condição foram realizados em 2025. Enquanto isso, na literatura médica, a condição atinge até 4% da população o que no Brasil poderia se traduzir em até 8,5 milhões de pessoas.
O problema com jogos e apostas é ainda é ainda mais difícil, porque o problema se escalona muito rápido. Então, a pessoa começa a jogar num dia, e existem alguns mecanismos, por exemplo, quando a pessoa começa a perder, para ela começar a procurar repor aquilo que ela está perdendo. Num cenário como esse, o problema se desenvolve muito rápido, o impacto econômico é muito rápido, o impacto familiar, a associação com outros transtornos mentais, e isso se dá de uma forma muito, muito, muito veloz, complementa Kimati.
Um ponto pouco discutido sobre o universo das bets é o quanto elas podem ser catalisadores da ampliação da desigualdade. Segundo Kimati, esse território digital tende a potencializar vulnerabilidades que a sociedade brasileira já possui, tornando os usuários mais dependentes sujeitos a desenvolverem transtornos mentais, outros vícios e transtornos de humor, em especial na parcela negra da população, nas periferias ou em casos de desemprego ou separação conjugal. O vício torna o paciente cinco vezes mais suscetível ao suicídio, segundo dados epidemiológicos.
Dois lados, mesma moeda; muita moeda
Era Natal de 2023 e, com a família reunida, o ator de 29 anos do Rio de Janeiro tentava esconder o celular. As horas calado e isolado em plena celebração de fim de ano, no entanto, destoavam do esperado para o comediante que faz sucesso nas redes sociais. Após dois meses longe dos aplicativos de apostas online que ajudou a divulgar por pouco mais de um ano, era sua primeira recaída. E é essa a palavra que usa. Foi flagrado. Admitiu ser, não estar, viciado. Um outro episódio semelhante voltaria a ocorrer em abril de 2024. Desde então, diz, nunca mais traiu a confiança da família nem a própria.
Filho de um sociólogo e uma jornalista, Bruno Helal já fez filmes em uma gigante do streaming, mas fez sucesso mesmo produzindo todo tipo de esquetes de humor nas redes sociais e engajando o público por usar calcinhas em público em um sem número de situações constrangedoras. Já tinha 600 mil seguidores quando foi abordado por uma casas de apostas sediada em Curaçao, que teria feito uma sequência de propostas. Quatro mil dólares. Cinco. Seis. Aceitou. E diz ter buscado testar os jogos com aqueles quase R$ 30 mil fáceis que receberia por três postagens nos stories do Instagram por semana. Mais um erro.
Eu pensava: eu acho que eu vou conseguir então ganhar além do dinheiro que eles vão me pagar eu ainda vou conseguir fazer um dinheiro extra aqui apostando, entendeu? Eu comecei a fazer os stories, fui botando meu próprio dinheiro e aí filmava e tal, beleza. Terminava de gravar o story, eu continuava apostando, lembra. Fugia dos almoços acompanhado. Ficava no celular no banheiro. Passava noites em claro. Mas as eventuais vitórias empolgavam: Eu pensava vou ser o maior apostador do mundo.
Helal não conta quanto perdeu, mas seu primeiro ano de contrato teria lhe rendido ao menos R$ 360 mil. Perdi metade de tudo que ganhei, conta, se dizendo arrependido. A história de como saiu da rotina de jogos e o arrependimento por ter divulgado bets na condição de influenciador, ele contou em um vídeo que já passa das 2 milhões de visualização e já lhe rendeu mais de 100 mil seguidores. Diz que ninguém o procurou para dizer ter perdido tudo por sua recomendação. Admite que não saberia como reagir nesse caso.
O ator garante que a ideia é ajudar as pessoas a saírem do vício, já que há semelhanças no comportamento de quem tem tendência ao vício. É que eu comecei colocando R$ 50, R$ 70, pensando em fazer um dinheiro extra. Se eu fiz isso hoje, posso conseguir R$ 3 mil por mês. Todo apostador pensa isso, pontua, acrescentando que acredita só ter conseguido mudar o próprio roteiro quando entrou na terapia e admitiu o problema para si e para as pessoas de seu convívio.
Questionado, Helal admite a contradição. O que me deixa, digamos, menos mal é de eu ter perdido muito dinheiro, mas não era de uma publicidade que eu fiz para uma marca de tênis, para uma marca de comida, era de bet. Merecia perder, fala. Metade dos ganhos com as bets que hoje combate, no entanto, foram mantidos em investimentos. Por mais que eu tenha conseguido guardar um dinheiro e esse dinheiro que eu guardei ter vindo de bet, rola aquela coisa do sentimento de culpa, só que eu acho que o fato de eu ter perdido muito também meio que cria uma balança.
As informações desta reportagem incomodam um mercado bilionário. A Agência Pública não aceita dinheiro de casas de apostas e investiga quem lucra com o vício alheio. Se esta investigação te indignou, apoie o jornalismo independente e fortaleça esse trabalho.