A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando pai, eu consegui dormir, quando voltou da casa de uma parente longe daqui. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres eólicas ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano, tirou o sossego também das crianças.
Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós, lamenta Walisson. A caçula, Jenifer Victória, de 6 anos, também já sente os efeitos. Eu comecei a perceber recentemente que ela está com sinais de ansiedade e de bruxismo, relata o trabalhador rural, que teve perda auditiva por causa das turbinas, instaladas no município há mais de uma década.
Ainda não há pesquisas científicas que relacionem o impacto desse tipo de geração de energia na saúde infantil de Caetés, a 250 quilômetros do Recife. Mas, para os profissionais da saúde, os relatos clínicos não deixam dúvidas: a vida dos mais novos já não é mais a mesma, as mudanças atravessam o cotidiano, as formas de brincar, o sono, a sensação de segurança e a relação com o território.
O que tenho visto, dando suporte médico no território, é que crianças e adolescentes desenvolveram, entre outras coisas, transtorno de ansiedade generalizado e que a síndrome da turbina eólica atingiu também essa população, relata Maria Eduarda Valois Spencer, médica da atenção primária à saúde e professora de Medicina no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga). Ela é colaboradora da pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) que constatou que 68% dos camponeses de Caetés estão em sofrimento psíquico.
Os ruídos emitidos pelas hélices gigantes costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náusea, tontura, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. A exposição às torres por tempo prolongado pode causar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.
Síndrome da turbina eólica
Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor, problemas de concentração e aprendizagem e zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.
Doença Vibroacústica
É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (< 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia com evolução lenta e que pode afetar vários órgãos e tecidos, como os sistemas nervoso e imunitário e os aparelhos cardiovascular e respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória.
É frequente o relato de crianças que fazem uso de medicações psicotrópicas desde muito novas e que, quando vão passar férias em regiões mais distantes, onde não há usinas eólicas, as famílias já testaram não dar a medicação e as crianças conseguiram viver e dormir melhor, atesta Maria Eduarda, que também é coordenadora do projeto Reflorestando o Cuidado na Caatinga: semeaduras de esperança e resiliência frente aos impactos do Complexo Eólico em Paranatama do PET-Saúde Clima, do Ministério da Saúde.
A médica relata ainda o aparecimento de questões dermatológicas e respiratórias. As turbinas, que ficam próximas às casas, provocam poeira que contém diversas partículas do ambiente e da própria turbina que causam reações alérgicas na pele e no sistema respiratório, explica. Além disso, a questão do zumbido e do efeito estroboscópico das hélices têm um potencial de gerar náuseas e problemas de equilíbrio, por exemplo, numa fase muito importante, de intenso desenvolvimento neuromotor da criança, principalmente na primeira infância, complementa.