No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava nossa chegada, aproveitava para preparar a terra onde, dali a alguns dias, plantaria mais uma safra de batata.

Aos olhos de quem passa pela estrada, Seu Niva parece apenas mais um agricultor aproveitando a chuva para preparar a terra. Mas, há anos, ele faz muito mais do que plantar. Em sua propriedade, conhecimentos herdados do pai e do avô convivem com experiências desenvolvidas ao lado de pesquisadores, técnicos e outros agricultores do Polo da Borborema. Graças a essa combinação, ele se tornou um dos responsáveis pela recuperação de variedades tradicionais de batata e pela retomada do cultivo do algodão agroecológico na região.

A história de Seu Niva, porém, está longe de ser um caso isolado. Nas últimas três décadas, agricultores, sindicatos, organizações sociais, pesquisadores e gestores públicos transformaram o Polo da Borborema em uma das principais referências brasileiras em agroecologia e convivência com o Semiárido. O caminho passou pela valorização dos saberes das famílias agricultoras, pela organização comunitária e pelo acesso a políticas públicas capazes de transformar conhecimento em renda, autonomia e segurança alimentar.

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Localizado no Agreste da Paraíba, o Polo da Borborema reúne organizações da agricultura familiar de 21 municípios que, há mais de 30 anos, atuam de forma articulada para fortalecer a convivência com o Semiárido, a agroecologia e a segurança alimentar.

A iniciativa nasceu em meados da década de 1990, a partir da articulação de sindicatos de trabalhadores rurais que enfrentavam problemas comuns, como a dependência dos atravessadores, o uso intensivo de agrotóxicos e a dificuldade de acesso a políticas públicas. Com o tempo, a rede passou a envolver associações comunitárias, cooperativas, grupos de mulheres e jovens, bancos comunitários de sementes, feiras agroecológicas e organizações de assessoria técnica.

Hoje, o Polo é reconhecido nacionalmente como uma das principais experiências brasileiras de desenvolvimento territorial baseado na agricultura familiar. Além de estimular a produção agroecológica, contribuiu para a implantação de programas como o PAA, o PNAE, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e os bancos comunitários de sementes.

Seu Niva não fala da lavoura como se fosse uma profissão escolhida na vida adulta. Para ele, trabalhar na roça sempre foi parte da infância. Naquela época a gente começava com oito anos de idade. A primeira aula que a gente tinha era no roçado, lembra. Filho de agricultores, nasceu e cresceu na mesma propriedade onde vive até hoje. Foi ali que aprendeu com o pai as primeiras lições sobre o tempo de plantar, as variedades de feijão, o manejo da terra e os cuidados com as sementes.

Mas pouca coisa permaneceu igual desde então. Seu Niva diz que basta olhar para trás para perceber o tamanho das mudanças. Não tem nem comparação. Quando era criança, todo o trabalho era feito manualmente. Não havia tratores, matracas para plantar nem qualquer tipo de apoio ao agricultor. Hoje, além da mecanização, ele destaca a importância da assistência técnica, das organizações locais e das políticas públicas para tornar o trabalho menos pesado e ampliar as possibilidades de produção.

Em pouco mais de sete hectares, a família de Seu Niva cultiva uma diversidade de alimentos. Planta seis variedades de feijão, diferentes tipos de fava, macaxeira, batata-doce e cria animais. A mandioca foi sendo deixada de lado, conta, porque as casas de farinha da região desapareceram. Já a batata seguiu o caminho inverso e voltou a ocupar espaço na propriedade depois de um trabalho iniciado em 2011 para recuperar uma cultura que marcou a história de Areial.

“Essa aqui era a terra da batatinha, nas antigas. No tempo dos meus avôs e dos meus pais”, recorda. Apesar da tradição, plantar batata era privilégio de poucos. O custo da produção era alto, exigia financiamento bancário e grande quantidade de agrotóxicos. “Só plantava quem era rico”, resume.

A oportunidade de retomar esse cultivo surgiu com um projeto desenvolvido em parceria com a AS-PTA e outros agricultores da região. Seu Niva admite que não sabe explicar todos os detalhes técnicos da iniciativa, mas sabe exatamente o que ela mudou em sua vida. Só veio melhorar. Primeiro vieram as reuniões, depois os intercâmbios e, por fim, a recuperação das variedades tradicionais de batata adaptadas às condições da região.

A recuperação da batata trouxe um desafio que os agricultores já conheciam bem. Produzir era apenas parte do trabalho. Era preciso garantir sementes para o plantio seguinte. Seu Niva faz as contas quase de cabeça. No ano passado ele plantou 14 caixas de batata e colheu cerca de cinco toneladas. Parte da produção foi vendida para programas públicos. Outra parte ficou reservada para um destino diferente. Eu armazenei 34 caixas só para não perder. Agora a gente vai tirar para plantar de novo, conta.

Essas batatas não irão para a mesa de ninguém. São sementes. Cada caixa guarda cerca de 25 quilos de batata cuidadosamente selecionada para dar origem à próxima safra. Não serve mais para consumo. É só para plantar, explica.

O armazenamento acontece em um espaço conhecido pelos agricultores como Banco Mãe. Instalado pela cooperativa, o local abriga um contêiner refrigerado onde as sementes permanecem conservadas até a chegada do período mais frio do ano, quando começa um novo ciclo de plantio. Ali, cada agricultor guarda as suas caixas identificadas e, quando chega a época certa, retira apenas o que será necessário para a próxima safra.

Crédito: Inês Campelo/MZ

Seu Niva conhece bem o valor desse cuidado. Quando o pai cultivava batata, não existia câmara fria. As sementes eram guardadas em balaios de cipó, empilhados sobre pequenas paredes de alvenaria dentro de casa. Naquele tempo não existia caixa. Era tudo em balaio, recorda.

A tecnologia mudou, mas os cuidados, não. Até hoje, escolher uma batata para virar semente exige paciência e conhecimento. O agricultor também aprendeu que uma batata mal escolhida compromete toda a safra seguinte. Ela precisa ter bom tamanho, não pode apresentar machucados nem sinais de doença. As melhores vão para semente. As outras ficam para comer, resume.

O armazenamento também é parte importante do processo. Por isso, depois da colheita, elas não podem pegar chuva, nem ser lavadas. Precisam ficar em ambiente fresco, ventilado e protegido da umidade. Quem não souber lidar com ela, não lida, diz, sorrindo.

Mas Seu Niva faz questão de lembrar que esse conhecimento não ficou parado no tempo. Ao lado dos ensinamentos herdados do pai, vieram também novas experiências. Hoje ele utiliza biofertilizantes produzidos a partir do biodigestor instalado na propriedade, experimenta pó de rocha para recuperar o solo e participa de testes realizados em parceria com pesquisadores. Tudo que o povo me ensinar, eu estou fazendo, afirma, com a curiosidade de quem ainda se considera um aprendiz.

Há três décadas, a AS-PTA ajuda a cultivar soluções junto com os agricultores

A AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia atua no Polo da Borborema desde 1993. Diferentemente dos modelos tradicionais de assistência técnica, seu trabalho parte da valorização dos conhecimentos das próprias famílias agricultoras e da construção coletiva de soluções para os desafios do Semiárido.

Ao longo dessas três décadas, a organização apoiou iniciativas como a criação de bancos comunitários de sementes, a recuperação de variedades crioulas, a implantação de sistemas agroecológicos de produção, a formação de agricultores experimentadores, a organização de feiras agroecológicas e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar.

A entidade também contribuiu para aproximar agricultores, pesquisadores, universidades e gestores públicos, ajudando a transformar experiências locais em referências para programas estaduais e federais, como o PAA Sementes.

Hoje, a AS-PTA continua atuando como articuladora de redes territoriais, apoiando processos de formação, intercâmbio entre agricultores, organização comunitária e incidência em políticas públicas, sempre com foco na construção de sistemas agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas e capazes de garantir renda, conservação da agrobiodiversidade e segurança alimentar.


Entrevista // Nelson Anacleto Pereira

Crédito: Inês Campelo/MZ

A pergunta era simples: que agricultura nós queríamos construir?

Quando Nelson Anacleto Pereira assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca, em 1992, a agricultura familiar da região enfrentava problemas que iam da dificuldade para comercializar a produção ao uso intensivo de agrotóxicos. Ao longo das décadas seguintes, ele participou da criação do Polo da Borborema, da aproximação com a AS-PTA e da construção de políticas públicas que ajudaram a transformar o território em uma referência nacional em agroecologia. Nesta entrevista, ele relembra essa trajetória e explica por que considera que a maior conquista do Polo não foi uma tecnologia, mas a valorização do conhecimento produzido pelas próprias famílias agricultoras.

Como surgiu o Polo da Borborema?

Quando assumimos o sindicato, em 1992, a gente começou a perceber que os problemas de Lagoa Seca eram praticamente os mesmos dos municípios vizinhos. Primeiro veio a luta pela comercialização. O agricultor produzia, mas chegava à Ceasa e encontrava tudo dominado pelos atravessadores. Depois vieram as dificuldades com a Previdência Rural. Os sindicatos começaram a atuar juntos e perceberam que fazia mais sentido construir respostas coletivas do que cada um enfrentar esses desafios isoladamente. Foi desse processo que nasceu o Polo da Borborema.

Em que momento vocês perceberam que era preciso mudar o modelo de agricultura?

A grande pergunta que fazíamos era muito simples: que agricultura nós queríamos construir? Eu também plantava batata, repolho, hortaliças. Também usava agrotóxicos. Era o modelo que existia. Mas começamos a perceber que ele trazia muitos problemas. Não fazia sentido continuar produzindo alimentos colocando em risco a saúde das pessoas e degradando o ambiente. A partir daí começamos a buscar outro caminho.

Qual foi o papel da AS-PTA nesse processo?

A parceria começou em meados da década de 1990. Primeiro fizemos um diagnóstico da agricultura do município. Depois vieram estudos específicos, principalmente sobre o uso de agrotóxicos. Mas a maior contribuição não foi trazer respostas prontas. Foi ajudar a construir um processo em que agricultores, pesquisadores e técnicos passassem a aprender juntos.

O senhor costuma dizer que os agricultores também produzem conhecimento. O que isso significa?

Durante muito tempo predominou a ideia de que só a universidade ou os órgãos públicos tinham conhecimento. O técnico chegava com uma receita pronta e o agricultor apenas executava. Nós começamos a questionar isso. O agricultor também experimenta, observa, testa, aprende. Quando esse conhecimento passou a dialogar com universidades e pesquisadores surgiram soluções que nenhum dos dois construiria sozinho. Esse talvez tenha sido o maior aprendizado de todo esse processo.

Qual foi a importância das políticas públicas nessa transformação?

Elas foram fundamentais. Mas nenhuma surgiu por acaso. O Programa Um Milhão de Cisternas, o PAA, o PNAE, o PAA Sementes… tudo isso é resultado de muitos anos de organização social. As políticas públicas fortalecem a agricultura familiar, mas só existem porque houve agricultores organizados para lutar por elas.

Quais são hoje os maiores desafios?

Hoje os desafios são diferentes. Vivemos um período de desmontes de várias políticas públicas e isso mostrou que nenhuma conquista é definitiva. Além disso, as mudanças climáticas e a desinformação trazem novos problemas para as comunidades.

Por isso continuo acreditando que o principal desafio é fortalecer as organizações locais. São elas que garantem a continuidade desse trabalho.

Depois de mais de trinta anos, qual considera a maior conquista do Polo da Borborema?

As políticas públicas são importantes. As tecnologias sociais também. Mas acho que a maior conquista foi outra. Foi construir uma consciência coletiva. Hoje o agricultor não é visto apenas como alguém que recebe orientação. Ele sabe que também produz conhecimento, ensina, aprende e participa da construção das soluções para os problemas do território. Essa, para mim, é a maior conquista de todas.


Quando a colheita vira solidariedade

Crédito: Inês Campelo/MZ

Se no sítio de Seu Niva a preocupação é produzir alimentos e guardar sementes para a próxima safra, a cerca de 20 quilômetros dali outra rede se organiza para garantir que esse tipo de produção chegue a quem mais precisa. No Assentamento Cícero Romana I, em São Sebastião de Lagoa de Roça (PB), funciona a cozinha solidária A Ordem é Ninguém Passar Fome. Coordenada por Adenilda Batista Pereira e Maria Lindinalva da Horta, ela nasceu há cerca de dois anos a partir de um trabalho comunitário realizado pelas duas.

Primeiro a gente fazia sopa, fazia lanche, reunia as famílias para conversar, lembra Adenilda. Elas percorriam a comunidade de casa em casa, convidando moradores para um café, oficinas de crochê, pintura e outras atividades. O objetivo era criar vínculos e acolher pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade. A gente ia buscar as famílias. Às vezes chegava cansada, mas dizia: ‘vamos em tal lugar’. A gente sentava, tomava um café, conhecia a necessidade de cada um.

A gente não entrega só comida. Entrega um pouco de atenção também.

Adenilda Pereira

Foi dessa convivência que nasceu a cozinha solidária. Quando o grupo passou a integrar o programa federal, veio um desafio ainda maior: produzir duas mil refeições por mês para famílias cadastradas. O entusiasmo, porém, esbarrou na realidade. A cozinha não tinha panelas industriais, nem fogão adequado, e o recurso só era repassado depois que todas as refeições fossem entregues e a prestação de contas aprovada. A gente tinha que dar a comida primeiro para depois receber o dinheiro, resume Adenilda.

Para conseguir manter o trabalho, as duas recorreram a empréstimos, doações e à solidariedade de amigos e vizinhos. Meu salário entrava e já saía para comprar comida. A gente foi dando um jeitinho e conseguiu.

O valor destinado pelo programa também exige criatividade. Cada refeição é financiada com R$ 2,40, montante que precisa cobrir alimentos, embalagem, gás e demais despesas da cozinha. Para fazer o dinheiro render, Adenilda acompanha promoções, compra em atacado e conta com uma extensa rede de parcerias.

Grande parte dos alimentos preparados ali vem da agricultura familiar da própria Borborema, adquiridos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Hortaliças, macaxeira, frutas, banana, feijão e outros produtos cultivados por agricultores da região chegam à cozinha por meio das cooperativas e associações locais. Assim, a produção iniciada em propriedades como a de Seu Niva completa um ciclo virtuoso: sai do roçado, passa pelas políticas públicas e termina na mesa de centenas de famílias que enfrentam a insegurança alimentar.

Quando a agroecologia movimenta a economia

Crédito: Inês Campelo/MZ

Durante décadas, um dos maiores problemas enfrentados pelos agricultores da Borborema não era produzir alimentos, mas encontrar quem pagasse um preço justo por eles. Dependentes dos atravessadores, muitos vendiam a produção por valores que mal cobriam os custos da lavoura.

Na avaliação de Robson Pereira de Oliveira, secretário de Agricultura de São Sebastião de Lagoa de Roça, esse cenário começou a mudar quando políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passaram a dialogar com a organização construída no território.

Hoje, o município opera três modalidades diferentes do programa: federal, estadual e municipal , além de fornecer alimentos para a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). O agricultor deixou de depender exclusivamente do atravessador, resume.

Segundo ele, um estudo realizado no município mostrou que, apenas entre 2012 e 2022, mais de R$ 10 milhões circularam na economia local por meio das compras públicas da agricultura familiar. O impacto aparece também no preço pago ao produtor. Enquanto um saco de batata-doce pode ser vendido ao atravessador por cerca de R$ 80 durante a safra, programas como o PAA chegam a pagar aproximadamente R$ 250 pelo mesmo produto. Situação semelhante ocorre com o milho verde.

Para Robson, porém, o maior resultado vai além da renda. As compras públicas fortalecem cooperativas, associações e ajudam os agricultores a permanecer no campo, afirma. Segundo ele, o próximo desafio é ampliar a agroindustrialização da produção e criar novas oportunidades para que os jovens encontrem perspectivas de trabalho sem precisar deixar a comunidade.