Abayomi é uma menina brasileira que conhece Marla, uma criança estadunidense que passa alguns meses no Brasil com a mãe. Durante esse período, as duas personagens compartilham histórias sobre a cultura negra de seus países.

Essa é a trama de “Abayomi e Marla: Uma Aventura do Brasil aos Estados Unidos”, novo livro da escritora, pedagoga e pesquisadora Maria Aline Soares, 44, moradora da comunidade Parque Regina, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. A obra foi escrita em parceria com a professora e pesquisadora estadunidense Doutora Marla R. Goins, 36, da Universidade de Nevada.

Aline durante lançamento do livro, com autógrafos em português e inglês como forma de incentivar o aprendizado de novas línguas @Livia Alves/Agência Mural

O livro reúne personagens que marcaram a história da população negra no Brasil e nos Estados Unidos, como Chico Rei, Zumbi dos Palmares, Carolina Maria de Jesus, Nilo Peçanha, Tula Pilar, Harriet Tubman, Frederick Douglass e Marcus Garvey. Ao aproximar essas trajetórias, a escritora busca mostrar que as lutas da população negra ultrapassam fronteiras.

“Mostramos a semelhança dos heróis negros que fizeram história na diáspora africana brasileira e na estadunidense, assim as crianças percebem que existem lutas, conquistas e referências parecidas dos dois lados.”

Aline conta que o primeiro contato com Marla aconteceu quando a professora escrevia a tese de doutorado Stories of Mudança (Change): Black Brazilian Teachers and Activists on Afro Hair and Antiracism in Education and Society, na qual foi entrevistada.

Durante as conversas por WhatsApp, Marla demonstrou interesse por uma boneca de Iansã, orixá feminina das religiões afro-brasileiras, produzida pelo coletivo de professoras Abayomi, do qual Aline faz parte. A aproximação fortaleceu uma amizade imediata entre as duas, que anos depois resultou na parceria para a produção dos livros infantis. 

“Acho que é irmandade, a gente se conectou de vidas passadas, esse encontro de almas. Desde quando nós nos conhecemos, quando ela pediu a boneca Iansã, a gente não se separou mais.”

A amizade evoluiu para uma parceria. Desde 2020, Aline e Marla desenvolvem projetos de intercâmbio cultural entre Brasil e Estados Unidos e, em 2024, apresentaram um trabalho sobre literatura infantil e educação antirracista no 17º Congresso da Associação de Estudos Brasileiros (BRASA), realizado on-line pela San Diego State University.

Capa do livro lançado por Maria Aline Soares e Marla Goins @Divulgação

Cura interior”

Aline passou a desenvolver o projeto de literatura infantojuvenil negra voltado ao fortalecimento da autoestima e da identidade de crianças negras. Ela conta que começou a escrever, durante a pandemia, motivada pelo medo da Covid-19 e pelo desejo de criar seu primeiro livro. Sua inspiração sempre foi a escritora Carolina Maria de Jesus e a criadora da boneca Abayomi, Lena Martins. Ambas são representadas em suas obras.

Na pandemia, eu tinha três objetivos: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Já tinha dois filhos, plantei a árvore em um projeto da comunidade [do Parque Regina], só faltava o livro, conta.

Capa dos outros livros da coleção de Aline @Divulgação

A autora já publicou nove livros de contos da Abayomi, três deles traduzidos para o inglês. No entanto, explica que esse é apenas o início de um projeto maior, formado por 30 livros, lançados gradualmente conforme consegue recursos para as publicações. “Vou lançando um por um, conforme consigo recursos”, explica.

As obras são publicadas pela Academia Periférica de Letras, editora sediada no Capão Redondo e voltada à produção independente de autores da periferia. As ilustrações são assinadas por Veridiana Camelo, artista gaúcha que acompanha o trabalho da escritora desde o primeiro livro. Segundo Aline, a decisão de escrever nasceu da falta de representatividade que marcou sua infância.

‘Na minha infância, não tive livros com personagens negros que falavam da nossa história. Então, tinha esse problema no meu subconsciente, tinha que curar a minha criança interior. Curando a minha criança interior, eu consigo curar as outras crianças’

Maria Aline Soares

Hoje, a autora afirma que escrever literatura infantil negra também é uma forma de garantir que as próximas gerações tenham acesso a referências que ela não encontrou quando era criança.

“Esse foi o meu objetivo, trazer esse olhar, esse resgate na literatura infantil negra, me especializar nessa área para as gerações futuras, para o meu filho ter esse reconhecimento, esse olhar de saber a história do seu povo.”

Além da representatividade, Aline faz questão de destacar as periferias na própria produção literária. “Meus livros são literatura periférica. Eles nascem da periferia e são produzidos por uma editora da periferia. É uma forma de mostrar que a nossa produção cultural também pode chegar a outros espaços.”

Maria Alines Soares (à esquerda) com Marla Goins, no lançamento do livro no shopping JK Iguatemi @Livia Alves/Agência Mural

Irmãs da Diáspora

Aline explica que fortalecer os laços entre pessoas negras de diferentes países é uma forma de enfrentar o racismo e, ao mesmo tempo, resgatar a ancestralidade apagada pelo período da escravidão. Ela conta que as duas se definem como “Irmãs da Diáspora” e acredita que conexões como a delas podem transformar essa realidade. “A gente se chama de Irmãs da Diáspora. Eu acho que, se a gente tivesse mais pessoas da diáspora de outros países que se conectassem como nós nos conectamos, a gente conseguiria acabar com o racismo.”

Para a autora, esse processo também fortalece a autoestima das novas gerações. “Para mim, é um resgate da minha ancestralidade, da minha vivência, da minha família, do que eu sou.”

Para Marla, conhecer as diferentes histórias da diáspora africana fortalece os laços entre pessoas negras ao redor do mundo. “Eu acho que é muito importante, porque o povo de descendência africana pelo mundo tem uma história conectada. É importante se conectar porque a gente fica mais forte para lutar contra a opressão quando estamos juntos”.

Heróis que marcaram a história

Segundo Aline, apresentar essas referências às crianças é uma forma de mostrar que a população negra sempre ocupou lugar de protagonismo na história.

“É esse olhar da gente resgatar os nossos heróis. Aqui no Brasil, a gente teve os livros didáticos que sempre colocavam que os negros eram descendentes de escravos, quando na verdade nós somos descendentes de reis e rainhas que foram escravizados.”

Para Marla, esse trabalho também contribui para uma sociedade mais diversa. “A gente não vê pessoas como nós na televisão, na mídia, em posições boas, como estudiosas, fortes e coisas assim. E eu acho que é muito importante criar imagens maiores e melhores para nós.”, explica a estadunidense.

Os 9 livros lançados exaltam a cultura negra e incentivam crianças a conhecer sua ancestralidade @Arquivo pessoal

Do Campo Limpo para o mundo

O trabalho de Maria Aline Soares ganhou reconhecimento internacional com a indicação ao Prêmio de Publicações Infantis Multiculturais da National Association for Multicultural Education (NAME), uma das principais organizações voltadas à educação multicultural nos Estados Unidos. A indicação veio por meio do livro “A Amiga Estadunidense da Abayomi”.

Além da premiação, a dupla foi convidada para participar da conferência anual da entidade, em novembro, em Las Vegas. Para representar a literatura produzida na periferia paulistana no evento, Maria criou uma vakinha on-line para arrecadar recursos e custear a viagem.

Segundo Aline, a oportunidade vai além de uma conquista pessoal. “Não é apenas uma conquista minha. É a oportunidade de mostrar que a literatura produzida na periferia pode atravessar fronteiras e dialogar com o mundo inteiro”, conclui.

Agência Mural

O post Escritora do Campo Limpo cria literatura infantil negra com autora dos EUA apareceu primeiro em Agência Mural.

Tags:
Literatura | Livro | Rolê