Guardar filtros de café usados passou a fazer parte da rotina dos vizinhos do artista plástico Sidney Robinson, 55. O material que antes seria descartado é ressignificado em obras de arte nas mãos do morador de Jundiapeba, periferia de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

Ney, como é conhecido, recolhe semanalmente dezenas de coadores que os vizinhos deixam em uma sacola pendurada na árvore em frente de casa. A partir de um processo artesanal desenvolvido por ele, o artista transforma os filtros usados em quadros.

Não sou só eu que faço esse trabalho acontecer. Existe uma rede de apoio formada por vizinhos e amigos que ajudam a reunir o material. Criamos uma corrente de reciclagem muito bonita, explica.

Sidney desenvolveu uma técnica própria para secar, tratar e transformar filtros de café descartados @Renan Omura/Agência Mural

Após serem recolhidos, os coadores passam por um processo de preparação: secagem ao sol por até sete dias, limpeza, separação e, em alguns casos, tingimento. Só depois seguem para a bancada na sala de estar de Ney, onde a criação começa.

‘Não faço esboço, não planejo antes. Geralmente é de madrugada, quando tudo está em silêncio, que me sento diante da bancada, faço um primeiro risco a lápis e deixo a própria arte me conduzir. É como se a obra fosse se revelando aos poucos para mim’

Sidney Robinson, artista

As inspirações de Ney nascem de um processo intuitivo e silencioso. Embora tenha referências na história da arte como Vincent van Gogh, , de quem já fez uma uma releitura da pintura Noite Estrelada boa parte do que produz nasce sem uma ideia definida.

A conclusão de um quadro pode levar dias ou até meses, dependendo do tamanho da tela e da disponibilidade de material. Alguns quadros menores são concluídos em três dias. Outros, especialmente os tridimensionais, exigem mais tempo, uma vez que necessitam de uma quantidade maior de coadores e podem levar até seis meses para conclusão.

Já teve obra que ficou parada por um ano porque faltou matéria-prima. Precisei esperar até conseguir filtros suficientes para finalizar, conta.

Além de percorrer o Brasil em mostras e exposições, o trabalho do artista também ganhou projeção internacional. Ney já teve obras exibidas na Bélgica em 2025, na França em 2022, na Alemanha em 2021, entre outros países.

No início fazia os quadros para deixar aqui em casa, preencher minhas paredes. Nunca imaginei que aqueles primeiros coadores dobrados me levariam para galerias, para outros estados e até para fora do país. Às vezes, ainda olho para tudo isso sem acreditar, conta.

A arte de ressignificar

O estilo de arte de Sidney nasceu de maneira inesperada em um momento decisivo da vida dele. Após enfrentar um problema de saúde que comprometeu a mobilidade e o afastou do mercado formal de trabalho, ele encontrou no processo criativo uma forma de reconstrução pessoal.

Durante a pandemia de Covid-19, no início de 2020, enquanto tomava café e conversava com familiares, Ney pegou um filtro já seco e começou a dobrá-lo distraidamente. No dia seguinte, repetiu o processo. Depois de alguns dias transformando os coadores em pequenos quadrados, percebeu que aqueles fragmentos poderiam compor algo maior.

Autodidata, ele nunca frequentou cursos de artes visuais e construiu o aprendizado por meio da observação, da prática e da experimentação.

Durante o processo, o artista recorta, dobra e posiciona manualmente cada fragmento de filtro para compor as telas @Renan Omura/Agência Mural

Montei um ao lado do outro e vi que dava para fazer um quadro. Minha intenção era apenas deixar na sala de casa. Não sabia que aquilo era arte, nem que a arte estava me resgatando.

Aos poucos, Ney foi desenvolvendo e aprimorando a técnica, experimentando formas de secagem, tingimento e composição, até transformar o que começou como um gesto espontâneo em uma linguagem artística própria.

Para ele, o ato de transformar filtros de café que seriam descartados em quadros representa o poder de renovação que existe nas pequenas coisas e nas pessoas.

‘O coador deixa de ser apenas um resíduo e vira arte. Acho que comigo aconteceu algo parecido. A arte me deu um novo lugar, uma nova forma de existir e de olhar para a vida’

Sustentabilidade e coletividade

Para o artista, as obras carregam diferentes significados, como inclusão social e coletividade, além de conscientizar pessoas sobre as possibilidades de transformação, tanto dos materiais quanto das próprias vidas.

Talvez um filtro de café sozinho não faça tanta diferença para o meio ambiente. Mas, se ele for capaz de despertar consciência em alguém, então já valeu.

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Além disso, por serem compostas em relevo e diferentes texturas, as obras de Ney permitem uma experiência sensorial que vai além do olhar. Pessoas com deficiência visual podem contemplar os quadros por meio do toque, percebendo formas e detalhes que fazem parte da construção de cada peça. Esse aspecto reforça ainda mais o caráter inclusivo do meu trabalho.

Para Ney, saber que a comunidade acompanha, apoia e contribui com o processo torna cada obra resultado de uma construção compartilhada. É uma arte que nasce não apenas das próprias mãos, mas da união silenciosa de muitas outras. Cada obra carrega um pouco de quem colaborou com ela.

Sidney planeja expandir sua atuação para além das galerias. Seu principal desejo é compartilhar o processo criativo com outras pessoas por meio de oficinas culturais.

Meu objetivo hoje é repassar. Quero mostrar para crianças, adultos, para quem quiser, que qualquer habilidade pode ser um portal para encontrar paz. Foi assim comigo, conclui.

É possível acompanhar as produções de Sidney Robinson pelo perfil do artista no Instagram, onde ele compartilha processos criativos, novas produções e exposições. As telas também estão disponíveis para venda, com informações e contato divulgados na própria página.

Agência Mural

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