Projetos enviados pelos vereadores para auxiliar ações nas subprefeituras de São Paulo não foram usados pela Prefeitura ao longo de 2025. De R$ 46 milhões previstos para melhoria de ruas e outras obras, apenas R$ 12 milhões foram efetivamente realizados. É o que mostram dados do Orçamentômetro, ferramenta criada pela Agência Mural para o monitoramento dos gastos públicos na cidade.
Todo ano, a Prefeitura de São Paulo envia para a Câmara Municipal o LOA (Plano Orçamentário Anual). É nesse momento que os vereadores têm a chance de propor as chamadas emendas parlamentares. Na prática, trata-se de dinheiro destinado a demandas julgadas como prioritárias para o ano seguinte.
Em 2025, o valor previsto em emendas foi de cerca de R$ 247 milhões, distribuídos entre os vereadores que compõem a Câmara. Foram 585 emendas propostas, sendo 99 voltadas diretamente às subprefeituras, com valor total de quase R$ 47 milhões.
Só que somente 24 delas foram executadas nas administrações regionais, uma média de três a cada 10 propostas para subs. Isso significa que a cada R$100, R$25 foi gasto.
Como exemplo, o distrito de São Mateus teve ao menos 8 propostas de emendas enviadas pelos vereadores, num total de R$ 2 milhões em projetos. No entanto, apenas duas dessas propostas se tornaram realidade em um total de R$ 900 mil.
Há casos piores. No Itaim Paulista, na zona leste, foram 6 seis projetos enviados pelos legisladores, mas nenhuma das emendas foi realizada.
Foram 30 subprefeituras com ao menos uma emenda proposta, somente Jaçanã/ Tremembé e Santana/ Tucuruvi não tiveram proposições. Quantos as subs que tiveram propostas, 13 ficaram de fora na hora da execução. Dentre as periféricas estão: Sapopemba, Ermelino Matarazzo, Cidade Tiradentes, Aricanduva, Casa Verde, Capela do Socorro e Itaim Paulista.
Urbanização afetada
Entre os projetos que não saíram do papel estão principalmente as emendas sobre Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros – Plano de Obras das Subprefeituras, maioria dentre as emendas, com 68 propostas, com previsão de gasto de R$ 31 milhões.
Contudo, apenas quatro propostas foram executadas, no valor total de R$ 997 mil, menos de 10% do previsto. Com isso, somente Ipiranga, Vila Prudente, Itaquera e Perus foram contempladas. Outras 20 subprefeituras periféricas sofreram cortes nessa área, como Capela do Socorro, Campo Limpo, Guaianases e Pirituba/Jaraguá.
<> Em contrapartida, na área Programação de Atividades Culturais foram 25 propostas de emendas, no valor de R$ 14 milhões. Foram executadas 20 emendas por R$ 11 milhões, cerca de 91,7% do orçamento previsto para essas ações. Das 20 subs contempladas, 19 foram para as periferias.
Outro ponto que chama atenção é que metade do orçamento destinado às subprefeituras por vereadores ficou concentrada em cinco subprefeituras: Penha, Vila Prudente, Parelheiros, Guaianases e Vila Maria/ Vila Guilherme.
Verba concentrada
Vereadores de quatro partidos não tiveram nenhuma emenda executada, segundo os dados do Orçamentômetro com base na execução orçamentária de 2025. São eles: Novo, PV, Rede e Psol – este último com dois vereadores, Silvia Ferraro e Toninho Vespoli, que não orçaram valores para emendas.
Procurados, Marina Bragante (Rede), Roberto Tripoli (PV), não se pronunciaram. Apesar de não constar no site oficial da prefeitura, a vereadora Cris Monteiro (Novo) afirmou que a ação destinada para Pinheiros foi executada e concluída no valor de R$ 352 mil. O orçamento foi elaborado pela subprefeitura para a obra de revitalização da Praça Califórnia, no distrito, afirmou em nota.
Toninho Vespoli (PSOL) diz que, em 2025, a prefeitura não executou nenhuma das emendas dos parlamentares do partido, o que considera retaliação política e priorização de aliados.
Segundo o gabinete do vereador, essa medida acaba esvaziando o papel da oposição na Câmara Municipal, comprometendo a isonomia na distribuição do orçamento.
Há um padrão preocupante na condução da destinação desses recursos, com indícios de priorização para vereadores aliados, reduzindo o espaço de atuação dos nossos parlamentares, que costumam apresentar posicionamentos firmes e denúncias sobre a gestão, complementa.
Vereadores que tiveram mais emendas atendidas
1 Quatro parlamentares foram responsáveis por mais da metade do valor gasto com emendas nas subprefeituras: R$ 6.136.640,00:
Silvão Leite (União) foi o que mais teve emendas realizadas – R$1,5 milhão na subprefeitura de Parelheiros, zona sul, e R$1 milhão em Guaianases, zona leste, com ações culturais. Isso representa 22% do montante executado para subprefeituras.
2 João Jorge (MDB) – com R$1,4 milhão destinados para Penha, na zona leste, também com atividade cultural.
O gabinete do vereador afirma que todas as ações foram planejadas e executadas com base nas demandas apresentadas pelos líderes comunitários locais, bem como nas necessidades identificadas junto à população da região.
3 Danilo do Posto de Saúde (Podemos) – gastou R$1.180 milhão para Vila Maria/ Vila Guilherme, na zona norte, com Programação Atividade de Cultura.
4 Edir Sales (PSD) – destinou R$955 mil para atividade cultural e R$101.640,00 em melhorias de bairro na Vila Prudente.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo diz que possui regras próprias, claras e em pleno funcionamento para garantir transparência e orientar a execução das emendas parlamentares na cidade, conforme os Decretos Municipais nº59.210/2020 e 65.022/ 2026.
As normas acima tratam da transparência e da execução do orçamento. Contudo, o órgão não especificou os motivos do corte orçamentário no último ano para emendas para subprefeituras do PSOL.
Em relação às emendas de programação cultural e de intervenção urbana citadas pela reportagem, é importante destacar que elas possuem naturezas e níveis de complexidade para execução distintos, sendo, portanto, incomparáveis os respectivos prazos de implementação, justificou a Prefeitura de São Paulo.
Silvão Leite (União), Danilo do Posto de Saúde (Podemos) e Edir Sales (PSD) não se pronunciaram até o fechamento da reportagem.