Um El Niño está vindo. Mas se vai se tornar um fenômeno extremamente forte há até quem já chame de El Niño Godzilla ainda não é possível prever. Só iremos saber realmente a força dele em julho ou agosto, mas já devemos nos preparar para os seus impactos, adverte o cientista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Mas ainda que seja um “Super El Niño” isso não significa necessariamente que o Nordeste do Brasil vai passar por uma seca terrível. Há outras combinações que podem ajudar a amenizar o fenômeno.
A confirmação da formação de um El Niño pelo Lapis veio somente na semana passada. Humberto Barbosa estava sendo cauteloso. Isso porque, este ano, a temperatura do Pacífico equatorial começou em neutralidade, ou seja, dentro da média histórica. A partir de março a região começou a aquecer. As pessoas estavam muito preocupadas com o El Niño. Só que a dinâmica climática foi dominada, na parte setentrional do Nordeste, pelo sinal do Atlântico. E ainda bem, porque esse sinal poderia ter tido muito mais irregularidade, diz Humberto.
Ele explica que, para a região Nordeste, o El Niño por si só não é sinônimo de seca. É preciso ficar igualmente atento ao sinal do Atlântico, que é o aquecimento do oceano na nossa costa, tanto do leste como do norte. Desde março, essas temperaturas estão mais quentes do que no Atlântico Norte. Quando o Atlântico Sul está mais quente isso é muito bom porque você gera condições de umidade e os sistemas meteorológicos que atuam nesse período do ano terminam ajudando com essa umidade, diz Humberto.
Foi por conta dessa temperatura mais alta do Atlântico que, mesmo com a temperatura aumentando lá no Pacífico, o semiárido do Nordeste teve uma estação chuvosa dentro da média, ainda que bastante irregular. Essa irregularidade atingiu principalmente a parte mais central do semiárido, e só em março a coisa começou a mudar. Vimos que as águas do Atlântico, principalmente ali na faixa do litoral de todo o Nordeste, começaram a ganhar temperaturas mais altas. A estação chuvosa do litoral nordestino começou com muita intensidade. A partir de agora vai ter muita irregularidade em função também que o sinal do Atlântico começa também a diminuir um pouco, explica Humberto.
Temperaturas acima de 0,5°C acima da média histórica por mais de três meses indicam a presença do El Niño. De modo geral, o fenômeno aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece grandes volumes de chuva no Sul do país.
Nos últimos cinco anos foram quatro La Niñas e apenas um ano de El Niño, que foi um El Niño rápido, de fraco a moderado, diz Humberto. A La Niña tem efeito oposto: um esfriamento anormal nas águas superficiais do oceano Pacífico tropical, quando o Pacífico equatorial está mais frio do que a média histórica. E as consequências para o Brasil geralmente são de chuva na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece estiagens no Sul.
O impacto do El Niño para o Nordeste do Brasil deve ser percebido durante o período de outubro até maio do próximo ano, que é o período que se distribui a maior parte das chuvas no Nordeste. É a partir de outubro e novembro que é quando há diferentes regimes de chuva do Nordeste. Aí você precisa que o oceano Atlântico esteja favorável. Vamos realmente sentir esse impacto mais para o final do ano, principalmente quando o El Niño vai estar em uma fase já madura, diz Humberto.
Um El Niño também pode ser fraco, mas extenso, e afetar negativamente a agropecuária e a segurança hídrica, como o que aconteceu entre 1991 e 1994. Foram três anos de El Niños fracos, mas que trouxeram um prejuízo no somatório desses três anos para a região tão devastador quanto se tivesse tido um El Niño muito intenso, afirma.
O que Humberto está vendo nos dados até agora está lembrando mais o que aconteceu em 2023/2024. Foi um El Niño bem intenso, mas não foi um “Super El Niño”, foi um pouquinho forte. E o atual está muito parecido, mas com menos intensidade, por enquanto. A nossa expectativa agora é definir o mais rápido possível, com segurança, entre julho e agosto, qual vai ser a intensidade e a duração desse El Niño. Porque ele pode durar um ou dois anos, mas pode passar de dois anos, acrescenta Humberto.
Para ele, o alarmismo na imprensa sobre um “Super El Niño” não traz benefícios porque não há uma mobilização dos governos para se precaver dos impactos. O que está por trás do alarme são as seguradoras. Vão colocar os valores dos seguros muito mais altos, principalmente para os agricultores do Centro-Sul. Então, quanto mais alarme mais chance de negociar esses seguros da safra, diz ele.
O Lapis não está sozinho ao evitar rotular esse El Niño como intenso ou super intenso. Meteorologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Bruno Bainy também considera precoce essa categorização. Isso cria uma expectativa, uma ansiedade, sobre algo que ainda se tem um grau moderado de incerteza. Precisamos de cautela. É papel da meteorologia antecipar e alertar sobre essas ocorrências, mas no momento ainda não temos condições de fazer isso com a precisão necessária. Acaba gerando mais alarde do que uma informação que possa ser de grande utilidade para as pessoas nesse momento, disse ele, em vídeo publicado na sexta-feira (22) nas redes sociais da Unicamp.
Um olho no Pacífico, outro no Atlântico
O pior cenário para o Nordeste não é necessariamente um “Super El Niño”, mas a combinação de dois oceanos desfavoráveis ao mesmo tempo: o Pacífico aquecido, com El Niño ativo, e o Atlântico Sul frio, com as águas da costa nordestina abaixo da média histórica, enquanto o Atlântico Norte permanece quente. “Essa combinação, nem precisa ter um El Niño muito intenso, mas basta ter um El Niño moderado”, alerta o meteorologista Humberto Barbosa. É o Atlântico que funciona como carta na manga da região: quando ele está aquecido, ameniza os efeitos do Pacífico; quando está frio, os dois sinais se somam e o resultado pode ser devastador.
Para nós, da região Nordeste do Brasil, a gente nunca deve esquecer o Atlântico. Quem é do Sul não entende isso, porque ele não está tão próximo e não entende do ponto de vista do sertanejo no dia a dia. A gente tem que estar sempre olhando o Atlântico também. Tem que olhar os dois, explica Humberto.
Nesse momento, diz ele, os modelos também colocam que o Atlântico vai continuar aquecido, o que é bom. Principalmente para a costa leste, os dois sinais vão estar em uma disputa: você tem um sinal de redução de chuva do Pacífico, por causa do El Niño e a gente não sabe se ele vai ser fraco, moderado ou muito forte , e, por outro lado, o benefício da umidade na região costeira, se essas águas do Atlântico permanecerem aquecidas, explica.
O Atlântico é sempre a nossa carta na manga quando ele está favorável. Se tiver um ‘Super El Niño’ e o Atlântico também estiver quente, pode ser que amenize um pouco. Agora, quando você tem os dois não necessariamente muito intensos, mas desfavoráveis, eles podem ser tão nocivos quanto um ‘Super El Niño’,” explica o cientista.
O Atlântico, ao contrário do Pacífico, tem que ser monitorado semanalmente. O Atlântico pode mudar rapidamente a atmosfera e tem que estar monitorando toda semana para entender a dinâmica dele, aponta Humberto.
Atlântico aquecido deve continuar provocando chuvas no Nordeste
Chuvas irregulares devem continuar no litoral
Para o litoral nordestino a previsão é de que haja irregularidades nas chuvas neste inverno. É importante continuar olhando o Atlântico, porque tem as ondas de leste. São perturbações que vêm da África e que não são chuvas tão intensas, mas às vezes, com outro sistema quando vêm frentes frias e pegam essas ondas de leste com frentes frias do sul, por exemplo , elas podem provocar chuva muito intensa em um ou dois dias. São volumes que a gente já viu no passado que podem provocar muitos estragos, lembra Humberto.
Na média, a distribuição das chuvas vai ter períodos de estiagem e pode ter períodos que chove muito e para. Principalmente de junho e julho vai ter muita irregularidade de chuvas na região do litoral, no Recife, diz.
Semiárido deve se preparar para verão mais quente
Como o período chuvoso do semiárido se encerra agora no final de maio, Humberto Barbosa considera que o semiárido escapou por muito pouco de uma seca já neste ano. Eu diria que neste ano a região Nordeste do Brasil saiu com o balanço positivo, porque o início do ano foi muito ruim, mas depois melhorou, disse.
O período bom de chuva para plantação já termina agora no final de maio. De fevereiro a maio é o período de chuva boa, mas não quer dizer que não chova depois de maio. Chove, mas já não tem aquela regularidade dias seguidos de chuva, três dias chovendo, dois dias consecutivos. Às vezes acontecem chuvas localizadas, o que é normal, até dezembro, em algumas áreas, mas com menor frequência, com muita insolação e com altas temperaturas, diz Humberto.
O perigo agora são as altas temperaturas que fazem com que a vegetação e o solo percam umidade rapidamente. Mesmo ocorrendo chuvas esporádicas, há um déficit hídrico na região durante o segundo semestre. É uma característica da região semiárida e com as altas temperaturas cada vez mais fica essa percepção de que está mais seco. A atmosfera fica com mais sede e tira mais água dos açudes, dos tanques e do solo. Porque o solo também tem uma função de segurar um pouco o pasto em alguns lugares até setembro, outubro, diz o cientista.
Mas quando essas temperaturas ficam muito altas, com a atmosfera muito seca e com pouca chuva ou chuva muito rápida , isso prejudica o pasto que ainda daria para o gado até agosto ou setembro. Isso é que preocupa o sertanejo: o segundo semestre já é o período de redução de chuva, mas há um agravante que é sempre importante trazer para ele as altas temperaturas estão acelerando essa perda de água e também a perda da vegetação verde de forma mais rápida. Inclusive a palma, em alguns lugares, tem sofrido com essas altas temperaturas.
Humberto Barbosa afirma que há regiões do semiárido que podem ficar com temperaturas de um a três graus acima da média histórica. Às vezes chegando até cinco graus. E isso dificulta muito. Já é uma época quente, mas está ainda mais quente. Isso traz consequências não só para o agricultor, que fica muito exposto ao sol, mas também para as plantas, para a perda de água dos açudes, o solo fica seco mais rápido. E algumas plantas morrem nessas condições.
Este ano começou seco e quente no semiárido, mas depois as chuvas chegaram
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroA recomendação de Humberto é que os trabalhadores e trabalhadoras do campo façam uma reserva do pasto que estiver disponível, como estocar feno e também plantar palma. O que mais complica agora é a combinação de temperaturas altas com diminuição da chuva: é o que a gente chama de seca relâmpago. Ela realmente tira muita umidade do solo num período muito mais curto do que era no passado, nos anos 1980 e 1990. O que a gente teme é que, no próximo ano, a irregularidade das chuvas possa ocorrer de uma forma muito mais intensa do que foi esse ano, a depender de como vai estar o oceano Atlântico.
Já o poder público tem que começar a agir agora, pensando principalmente no sertanejo que depende da quadra chuvosa do próximo ano. Os governos podem antecipar algumas coisas: a questão da distribuição de sementes, a preparação da pecuária, o plantio de palma. É preciso aproveitar esses próximos meses para fazer um saldo positivo de palma, de armazenamento, e preparar também os centros urbanos que estão no semiárido para evitar o desperdício de água, diz. É hora de começar a fazer um depósito na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por exemplo. Tivemos no passado falta de abastecimento de produtos mínimos que a Conab pode começar a armazenar para que, quando chegar a época de seca, como vai ter uma oferta menor de produtos básicos para o sertanejo, os preços não cheguem a valores muito altos e ele possa ter alternativa, sugere.
Desde 2018 o semiárido não enfrenta secas seguidas. Mas secas prolongadas estão no nosso DNA. Cerca de 15% dos registros históricos estão muito marcados por secas prolongadas, com oito ciclos. Não foram tantos, mas foram marcantes porque têm um impacto muito grande no principal produto do Nordeste, que é a água, diz Humberto, que alerta também para os riscos à saúde. A água é afetada pelas altas temperaturas: quando começam dias de muita evaporação, pouca chuva, os açudes que armazenam água vão diminuindo e essa água parada, sem muita movimentação, começa a criar cianobactérias, que realmente podem provocar problemas de saúde não só para os animais, mas para as pessoas também, alerta.
Para encerrar, a boa notícia que Humberto Barbosa traz é que o oceano Atlântico continua aquecido. Não vai resolver todos os problemas, mas vai amenizar. Se não fosse o aquecimento do Atlântico neste ano, certamente algumas áreas estariam hoje numa situação difícil, porque em janeiro e fevereiro as chuvas foram muito irregulares, finaliza.
O post O que o Nordeste pode esperar do “El Niño 2026” e como se preparar apareceu primeiro em Marco Zero Conteúdo.
Tags:
El Niño | meteorologia | Nordeste | seca | Semiárido | socioambiental