Quase duas semanas depois das chuvas de 1º de maio, famílias que vivem às margens do rio Beberibe em Peixinhos, na periferia de Olinda, ainda estão limpando a lama e tentando reorganizar a vida e o que sobrou das casas. Enquanto imploram, há mais de uma década, por uma dragagem, comunidades como Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato enfrentaram mais uma enchente. Por causa da intensidade das chuvas, no dia seguinte o governo estadual decretou situação de emergência em 27 municípios, incluindo Olinda.
Moradores relatam que, no feriado do Dia do Trabalhador, nadaram, dentro de casa, com lixo, ratos e cobra, literalmente. Para muita gente, a cheia deste ano foi pior que a provocada pelas chuvas de maio de 2022. Agora, as famílias temem pelo aumento dos casos de arboviroses e leptospirose, como acontece todos os anos.
A Marco Zero esteve nas comunidades de Peixinhos, na semana passada, para acompanhar a situação. Debaixo da ponte Campina do Barreto, que liga Recife a Olinda, só o que restou, do lado olindense, foram entulhos e os porcos, misturados a muita sujeira e a um odor forte de lixo misturado com bicho morto que não passa. É o cheiro da cheia, definem os moradores.
Dias depois da enchente, mau cheiro ainda era forte às margens do Beberibe
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero ConteúdoA última vez que o Beberibe passou por uma dragagem foi em 2013, penúltimo ano da segunda gestão do então governador Eduardo Campos (PSB). Antes disso, uma dragagem tinha sido realizada em 1982. A calha do rio está bastante obstruída por resíduos sólidos, restos de construção, vegetação, troncos, galhos, sedimentos e plantas flutuantes. Por isso, a cada ano, o nível da água sobe mais quando chove forte, invadindo até mesmo casas mais distantes das margens, ocupadas por moradias irregulares.
Na sexta-feira (8), com o período chuvoso já tendo começado, a governadora Raquel Lyra (PSD) anunciou mais um serviço emergencial de limpeza do Beberibe, entre as pontes Dalva de Oliveira e avenida Cidade de Monteiro, no Recife o que ajuda, mas não resolve o problema.
A gestão fez o mesmo há exato um ano: era dia 19 de maio quando o governo iniciou a limpeza (também emergencial) do rio, começando justamente por Olinda. Agora, mais uma chuva forte veio, outras estão à caminho e o questionamento das famílias de Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato é um só: cadê a dragagem?.
Moradores de Peixinhos esperam por dragagem que não vem
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroEm agosto de 2024, a vice-governadora Priscila Krause celebrou o anúncio da dragagem que estaria na iminência de ser licitada. “A dragagem no rio Beberibe já está com edital de contratação publicado e estamos garantindo R$ 84 milhões em obras … Vamos remover sedimentos acumulados no leito do rio e assim contribuir para melhorar a qualidade de vida dessa população que vive na divisa com a cidade do Recife”, anunciou Krause em seu perfil no Instagram. Quase dois anos depois, no entanto, a obra capaz de resolver boa parte do problema dessas famílias ainda não saiu do papel, apesar de a empresa contratada em fevereiro de 2025 já ter realizado os devidos estudos técnicos e elaborado os projetos executivos.
O governo informou, em nota, que está agora em fase final do processo licitatório para definição da empresa responsável pela execução do serviço, que será realizado entre o Recife e Olinda, da avenida Cidade do Monteiro, em Porto da Madeira, até a Escola Aprendizes de Marinheiro.
Em comunicado à imprensa, a gestão disse que a nova ação emergencial de limpeza visa diminuir os riscos de inundação durante o período chuvoso, beneficiando todas as comunidades existentes ao longo do curso do rio. A operação inicia nesta sexta e seguirá pelo tempo necessário, até que sejam concluídos os trabalhos em todas as áreas do rio. Os equipamentos empenhados na operação são quatro retroescavadeiras, oito caminhões caçamba e uma escavadeira.
Com a ação, o governo prevê a retirada de 2 mil metros cúbicos de lixo, entulhos, vegetação aquática e demais materiais que potencializam os transbordamentos e as inundações.
Rio Beberibe agoniza
Com as chuvas mais recentes, em alguns pontos da comunidade, a água arrastou tudo que havia dentro de algumas casas. Foi o caso de Socorro Maria Fernandes, de 57 anos. Analfabeta, ela vive com o pai acamado, de 88 anos. Consegui colocar meu pai na casa da minha irmã. Ele terminou adoecendo, está com uma diarreia que não passa, eu não sei o que é. Esses dias, dormindo, começou a chamar pela minha mãe, já falecida, dizendo Lica, cuidado com a cheia, conta a dona de casa.
Objetos, móveis e eletrodomésticos de Socorro foram levados para o quintal pela força da correnteza que invadiu a casa. Só o que ela conseguiu salvar foi uma geladeira. Eu fiquei com a água na cintura e os ratos nadando e subindo pelas paredes, detalha.
Um dos principais cursos dágua da região metropolitana, o rio Beberibe nasce em Camaragibe e passa por Recife e Olinda, percorrendo 24 km, até se juntar ao rio Capibaribe e desaguar no Atlântico. No lado recifense, estão os bairros Campina do Barreto, Porto da Madeira, Beberibe, Dois Unidos e Linha do Tiro. Já do lado olindense, estão Águas Compridas, Caixa Dágua e Peixinhos.
Socorro Maria conseguiu retirar a tempo o pai acamado
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroNesse curso, o rio arrasta bastante poluição, em meio ao saneamento básico precário e a construções irregulares, muitas inseridas em Áreas de Preservação Permanente (APP), por causa da falta de soluções habitacionais e de planejamento urbano. Quem vive às margens do Beberibe divide espaço com o lixo e a criação de porcos e cavalos, que ajudam no sustento.
Larissa Gomes da Cunha, de 19 anos, vivia com o filho de um ano e nove meses na beira do rio. Perdeu tudo. A reportagem esteve na casa dela, só havia lama e pedaços de objetos agora imprestáveis. Quando conversou com a MZ, Larissa estava no abrigo montado pela prefeitura na Escola Estadual Monsenhor Arruda Câmara. Sem moradia, ela não sabia para onde ir depois do encerramento das atividades do abrigo, que chegou a receber mais de 400 pessoas no sábado (2).
Na casa de Aldeci Maria da Silva, de 54 anos, até cobra apareceu. Minha neta, de 12 anos, pede o tempo todo vó, vamos sair dessa casa. Mas vamos para onde?, questiona a faxineira, que ganha menos de um salário mínimo por mês.
Aldeci da Silva não tem para onde ir com a neta de 12 anos
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroSegundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Pernambuco (Seduh), está prevista a implantação de 464 unidades habitacionais em área localizada ao lado da Compesa, no bairro de Peixinhos, bem como aproximadamente 700 unidades habitacionais adicionais, atualmente em fase de prospecção, destinadas ao atendimento da demanda identificada.
Para quem vive em Olinda, o valor do auxílio-moradia é de apenas R$ 260 mensais. Atualmente, de acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação, 778 pessoas recebem o valor, em toda a cidade.
Dragagem vai parar no TCE
Após a suspensão da licitação da dragagem pelo conselheiro Ranilson Ramos, no último dia 5, por medida cautelar, o Governo do Estado foi autorizado a dar prosseguimento ao processo licitatório, também por cautelar, que agora seguiu para homologação na Segunda Câmara do TCE-PE, no próximo dia 19.
Após recurso apresentado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e pela Companhia Estadual de Habitação e Obras de Pernambuco (Cehab/PE), o conselheiro relator dos processos da Seduh autorizou a retomada do processo. A nova decisão levou em consideração a apresentação de medidas de viabilidade ambiental autorizadas pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), além da situação de emergência decretada pelo Governo de Pernambuco em municípios do Estado. O Tribunal de Contas informou que continuará acompanhando tanto a licitação quanto a execução dos serviços de dragagem do rio Beberibe.
Isto é tudo que sobrou da casa onde Larissa Cunha mora com o filho pequeno
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroO post À espera da dragagem, rio Beberibe transborda lixo, lama e doenças a cada enchente apareceu primeiro em Marco Zero Conteúdo.
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