Onde nasce um samba? Para alguns, na rua, no encontro, na vivência. Para outros, parece vir de um lugar mais profundo, quase uma herança. É o caso de William Fialho, 43, morador do Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, para quem o ritmo vem do berço.

Músico, compositor e mestre no pandeiro, ele construiu sua trajetória no samba paulistano e se tornou conhecido pela atuação em um dos espaços mais simbólicos da cena cultural da cidade: o Samba da Vela, que há 25 anos promove rodas de samba em Santo Amaro, sempre às segundas-feiras.

Lá a música ganha ares de ritual ou oração coletiva, com velas acesas para ouvir composições autorais e inéditas dos participantes – que, diga-se, já foram alguns dos principais nomes do samba nacional, como Beth Carvalho e Almir Guineto.

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Mas, antes de chegar ao Samba da Vela, William já ouvia (e vivia) o gênero musical desde a infância. Era no quintal de casa, no Jardim São Luís, também na zona sul, que o ritmo embalava os dias na vitrola, sempre em família.

O primeiro contato com um instrumento musical, porém, foi só aos 14 anos, nas aulas de capoeira. Em 1997, quando era aluno do grupo ‘Magia da Capoeira’, começou a tocar os apetrechos típicos do jogo, como o atabaque, agogô e seu favorito, o pandeiro. Foi aí que seu interesse pela música aflorou ainda mais.

‘Minha família sempre ouvia muito samba, na vitrola. E a vivência auditiva da capoeira foi fundamental também, afinal a capoeira está dentro do samba’

William Fialho, compositor

“Comecei a aprender os instrumentos [em 1997]. Até comprei um pandeiro bem simples, para aprender”, relembra.

Esses primeiros passos foram fundamentais para unir o gosto pela música à criatividade. Aos 16 anos, reunia a rapaziada – formada pelos amigos Cecéu, Peru e Eduardo – para praticar e tocar samba, como uma brincadeira, sempre que podiam.

Assim, as tardes repletas de música com a família e os amigos do bairro despertaram nele o desejo de conhecer e se aprofundar nos estudos sobre o samba e em aprimorar suas técnicas no pandeiro.

Não faltaram oportunidades: William começou a tocar na noite paulistana, no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Foi nesse período que conheceu o Samba da Vela, sua porta de entrada para a profissionalização.

Capa do CD do Conjunto Nossa Chama lançado em 2007 em que o William fez parte @Arquivo pessoal/Divulgação

Cheguei ao Samba da Vela pelos comentários que tinha uma roda na região que a Beth Carvalho frequentava. Comecei a ir no final de 2000, para curtir, e acabei gostando.

E ficou. Quando o Samba da Vela saiu do Espaço Cultural Ziriguidum, na zona sul de São Paulo, em 2001, ele já integrava o grupo e seguiu com os parceiros para a Casa de Cultura de Santo Amaro, no mesmo ano.

Desde então, sua história se confunde com a do próprio Samba da Vela, já que é hoje um dos membros mais antigos do movimento.

Inspirações

Criado ouvindo o samba de raiz, William desenvolveu grande admiração por artistas como Bezerra da Silva, Clara Nunes, Benito di Paula, Martinho da Vila e Luiz Carlos da Vila.

Estar perto da eterna madrinha do Samba da Vela, Beth Carvalho (que faleceu em abril de 2019), e de Almir Guineto (falecido em maio de 2017), de quem fez parte da banda por 10 anos, de 2004 a 2014, foi fundamental em sua trajetória profissional e pessoal.

Chapinha da Vela acende a chama que ilumina as noites de segunda há 25 anos no Samba da Vela @Daniel Santana/Agência Mural

Desde que comecei a frequentar o grupo em 2002, passei a conviver com grandes nomes. Ao longo dos anos, tive a alegria de conhecer bambas como os integrantes da velha guarda do Camisa Verde e Branco e da Nenê de Vila Matilde. Além da honra de dividir palco com craques: Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Monarco, Wilson Moreira e Luiz Grande.

Inspirados pelos talentos, William já compôs mais de 400 canções. No processo de criação, preza por lapidar, mexer, revisar, priorizando menos a quantidade e mais a qualidade. Ao menos 50 das suas músicas já foram gravadas.

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A primeira composição, chamada Minha Vida Melhorou, que marcou a estreia de William como compositor, em 2004. A obra, composta em parceria com Sandro Japonês e Rodrigo Júnior, entrou no caderno do Samba da Vela e foi gravada no primeiro CD do projeto (A Comunidade), lançado em 2005.

[…] Com ela, hoje vivo em harmonia / Uma vida de alegria / Não tenho desilusão / Agora digo com sinceridade / Tô falando a verdade / Tenho paz no coração

Trecho de Minha Vida Melhorou, álbum A Comunidade (Samba da Vela, 2005)

Mesmo não gostando de se autodenominar sambista, William diz se sentir imensamente feliz quando vê suas músicas gravadas por artistas famosos, como Almir Guineto, um de seus ídolos, que gravou outras duas de suas composições: Coração em Salgueiro (Nino Miau, Francis Gabriel e William Fialho, 2007) e Meus Velhos (Jônatas Petróleo, Almir Guineto e William Fialho, 2024).

Como compositor, lamenta que comumente quem escreve as canções não tenha reconhecimento e permaneça desconhecido do público. Isso, segundo William, também é reflexo da forma como a indústria musical funciona.

‘O compositor é a matéria-prima da música. Sem ele, nada existiria. Mas os papéis são invertidos: o destaque fica com o intérprete. [Na ordem de prioridade] primeiro vem o compositor, depois o músico, que dá forma à obra, e depois o intérprete’

William

Novos sambas pedem passagem

William é um dos fundadores do projeto ‘Quilombo Ybira Samba’, que desde 2016 oferece aulas de música para jovens e crianças a partir dos 10 anos, no Jardim Ibirapuera. O objetivo é manter e preservar a força do samba na região.

Temos como foco formar novos sambistas: músicos, compositores e intérpretes. Oferecemos oficinas de percussão, cavaquinho e encontros de compositores. Contamos hoje com cerca de 20 alunos matriculados, e isso é muito bom. O samba não pode se tornar estranho no próprio território.

Com o apoio do Bloco do Beco, que cede espaço para aulas de percussão às quartas-feiras, às 19h30, e para rodas de samba no último domingo do mês, o Ybira Samba vem ganhando força. Assim, William, que possui licenciatura em música, usa sua paixão pelo samba para formar e desenvolver novos talentos.

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Ele afirma ainda que, quando jovem, os mestres lhe estenderam a mão. Hoje, procura fazer o mesmo com quem está chegando ao samba, embora saiba que o ritmo pertence a todos.

Afinal, como William afirma, quando a música vai para o mundo, ela deixa de ser dele, já que cada ouvinte pode ter uma interpretação ou sensação diferente.

Ela tem um papel de cura, de elevação. Por isso, sempre digo: componham, mas com qualidade. Minha obra sempre manteve um compromisso com o samba e com a música brasileira, e é isso que pretendo seguir até o fim da minha caminhada.

Agência Mural

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