Imagens de livros sendo descartados em uma caçamba de lixo na última sexta-feira (24) geraram indignação e revolta nos moradores da cidade de Osasco, na Grande São Paulo. As obras pertenciam ao acervo da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, equipamento público que está fechado desde a pandemia de Covid-19 em 2020.

O descarte foi mais um episódio contra um dos símbolos da cultura da cidade. Criada por meio da Lei 162, de 20 de setembro de 1963, a biblioteca ocupa o endereço atual desde 1996 e faz parte da história de muitos moradores.

Nunca teria me tornado tão fascinada por livros se não fosse o contato com as bibliotecárias do local, que sabiam como ninguém indicar a leitura certa para o momento certo, reflete Reca Silva, 44. Tenho a certeza absoluta de que nem teria me tornado escritora se não tivesse passado minha adolescência nesse local mágico.

A Biblioteca Municipal Monteiro está sem funcionamento desde 2020 @Gabriella Carvalho Cruz/Divulgação

Moradora do Vila Yolanda, Reca compartilha que os livros ali presentes não moldaram apenas o gosto pela leitura, mas também seu caráter.

O professor de Língua Portuguesa Cristiano Santos, 34, era frequentador assíduo e utilizava o espaço para leitura e estudos. Minha relação com livros começou com esta biblioteca, sendo o primeiro livro que peguei. Ia quando estava estudando na ETEC (Escola Técnica), até que passei a ser um usuário que sempre pegava livros ou pelo menos passeava por lá para usar o espaço, conta.

Além do empréstimo de livros, também era oferecido os serviços gratuitos de acesso à internet; hemeroteca com encartes de revistas e recortes de jornais; Mangateca; acervo Oriental e acervo em Braile para consulta; além de uma sessão dedicada aos escritores da cidade.

Os livros que foram descartados pela prefeitura de Osasco @Reprodução de redes sociais

O espaço também já chegou a receber programação cultural mensal com exposições, palestras, círculos de cultura, cursos e oficinas promovidos pela própria equipe da unidade ou de terceiros, no Auditório e no Salão Multiuso, e visitas monitoradas.

Após o fechamento, Cristiano começou a frequentar a biblioteca Parque Villa-Lobos, em São Paulo, por ser mais próxima de casa. Morador do Munhoz Junior, ele aponta a falta de equipamentos culturais na zona norte da cidade.

Esse fechamento foi horrível, era um lugar que precisava de uma reforma, mas que era bem frequentado pelos moradores. A unidade mais próxima da minha casa era a Biblioteca Pública Manoel Fiorita, na Capelinha, e ela também foi fechada, diz.

O professor lamenta não ter tido a oportunidade de levar seus alunos para conhecer o local. Atualmente, a Biblioteca Municipal Heitor Sinegaglia é a única em funcionamento na cidade. Está localizada na Praça Sabanta n°98, Olaria do Nino, com funcionamento de segunda a sexta-feira.

Acervo danificado

A Prefeitura de Osasco não respondeu à Agência Mural até a publicação desta reportagem. Em nota divulgada a outros veículos de comunicação, a gestão diz que as obras estavam mofadas, contaminadas por fungos e que o descarte foi feito seguindo uma orientação jurídica.

Não informou se especialistas em preservação de acervos foram consultados e disse que os itens serão repostos.

As prateleiras da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato sem nenhum livro, desde 2020 @Reprodução de redes sociais

A produtora cultural Gabriella Carvalho Cruz, 26, soube da ação em grupos de artistas e coletivos independentes e foi até a biblioteca localizada na avenida Marechal Rondon, 260, no centro da cidade.

Os trabalhadores da Secretaria de Obras, que estavam no local, disseram que os livros estavam contaminados com fungos. Apesar disso, das três pessoas que estavam fazendo o descarte, duas estavam sem máscara e todas sem luvas.

Perguntei se tinham algum documento que comprovasse ou o técnico responsável e disseram que não, conta a produtora.

Ela diz que ligou para a Secretaria de Cultura, Secretaria de Obras e Secretaria de Difusão e na Secretaria de Patrimônio em busca de informações, mas sem resposta. Nessa última, me informaram que para solicitar esse documento eu tinha que abrir um requerimento online e que seria enviado em 20 dias, conta.

Acompanhada de outros colegas, a produtora cultural foi até a Secretaria de Cultura a fim de falar com uma funcionária que tinha sido indicada como a responsável pela apresentação do laudo técnico.

Na tarde de segunda-feira (27) Gabriella e mais quatro representantes da sociedade civil e cultural foram até a reunião na secretaria. Não nos deixaram passar nem da recepção.

A produtora também alerta para mais dois equipamentos públicos fechados: o Museu Dimitri Sensaud de Lavaud e a Casa de Angola. Em março deste ano, o prefeito Gerson Pessoa (Podemos) assinou o contrato de início da restauração do Museu.

Após a repercussão, vereadores e coletivos procuraram o Ministério Público e protocolaram a petição pedindo a apuração do descarte e esclarecimentos sobre o destino do acervo. Na terça (28), artistas convocaram um ato em frente à Câmara de Vereadores da Cidade.

A dificuldade de diálogo com a Prefeitura e a Secretaria de Cultura é citado com frequência por moradores e artistas locais. Está acontecendo um planejamento bem arquitetado de desmonte da cultura em Osasco, afirma Limá, 40, integrante do Conselho Municipal de Política Cultural de Osasco (ComCultura) da gestão 2026-2027.

Tudo que a gente [ComCultura] cobra de documentação, de relatório, de parecer, de informação técnica da Secretaria de Cultura, ela não repassa. Tem um histórico de vício administrativo de omissão, que já foi levado para ouvidoria e para outras instâncias, diz.

Espaço está passando por reformas, segundo prefeitura @Paulo Talarico/Agência Mural

Limá enviou à reportagem da Agência Mural um ofício protocolado no início de dezembro de 2025 onde a comissão solicita informações e relatórios sobre execução do FUMDAC, reformas de equipamentos culturais e utilização de recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura).

Entre os pedidos estavam o relatório técnico e financeiro das reformas dos equipamentos culturais (Teatro Municipal, Biblioteca Municipal, Museus, CEUs, entre outros). O prazo de 15 dias úteis para retorno não foi cumprido.

Jogar os livros fora é escancarar tudo porque estão acostumados nesse local de não precisar responder pro povo de Osasco. Em 2018, já foi jogado livro fora. Em 2020, ela fecha, em 2023, a biblioteca foi inundada por uma chuva, ressalta.

Apesar das dificuldades, o artista reforça a importância da união entre os moradores a fim de cobrar a gestão da cidade por melhorias e convida a população a participar das reuniões do ComCultura que são realizadas na última terça-feira do mês, às 19h, na Escola de Artes César Antônio Salvi, localizada na rua Tenente Avelar Pires de Azevedo, 360, Centro.

Biblioteca de Osasco tem mais de 60 anos. São 30 no atual endereço @Paulo Talarico/Agência Mural]

Promessas

Em 2023, o ex-prefeito de Osasco, Rogério Lins (Podemos), anunciou que a biblioteca passaria por uma reforma e revitalização. A intenção era formar um grande polo cultural no centro com a reforma e integração da Escola de Artes César Antônio Salvi à Biblioteca Municipal Monteiro Lobato.

A previsão era que a obra fosse concluída no início de 2024, o que não aconteceu. No mesmo ano, durante a campanha eleitoral, o então candidato à prefeitura, Gerson Pessoa (Podemos), incluiu a iniciativa no plano de governo.

Entre as propostas apresentadas, estavam a retomada do projeto Parque das Artes, que previa a modernização da biblioteca e a integração com a Escola de Artes, e a criação de novas bibliotecas públicas na zona norte e na zona sul.

Em março deste ano, a Prefeitura assinou um contrato que prevê a contratação de serviços comuns de engenharia para reparo, manutenção e conservação predial da biblioteca que incluem mudanças na cobertura, paisagismo, adequação de layout, forros, instalações elétricas, pintura, tratamento de concreto aparente, piso e serviços complementares.

O valor do contrato é de R$ 1,5 milhão, com vigência de 180 dias, contados a partir da data da assinatura. Segundo o documento, o prazo de execução dos serviços será de 120 dias, contados a partir da data da Ordem de Serviços, expedido pelo Órgão Competente, podendo ser prorrogado até 60 dias no máximo.

Espaço contava com livros sobre história oriental, entre outros @Paulo Talarico/Agência Mural

Livro nunca fica ultrapassado

Assim como as promessas de melhorias, os alertas sobre a situação já vinham sendo feitos há anos. Em 2022, a bibliotecária Solange Santana, 47, criou um abaixo-assinado e o Movimento Reabre Biblioteca, formado por bibliotecários, artistas e estudantes.

Surgiu da preocupação de que o espaço tivesse outra destinação e também a partir de uma pesquisa que realizei à época sobre as ações em prol das bibliotecas públicas de Osasco ao longo de sua história, explica.

Para a bibliotecária, a implantação de um plano de gestão do acervo, que abarcasse uma rotina de monitoramento, higienização e conservação que assegurasse a preservação física das obras, teria evitado boa parte dos problemas.

O artista, ator e jornalista Ricardo Aparecido Dias, falou publicamente sobre o fechamento do equipamento público e o descaso com a cultura durante sua participação em um painel da Floz (Festa Literária de Osasco ).

Ao todo, Ricardo Aparecido Dias já lançou oito livros @Ariane Costa Gomes/Agência Mural

Organizado pelo Sesc, a segunda edição do evento foi realizada em março deste ano e homenageou a escritora Carolina Maria de Jesus, e teve a presença de Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina. Na ocasião, Dias destacou o período que a escritora viveu em Osasco e como a cidade poderia ter mais registros a respeito.

O livro não fica ultrapassado, o livro está sempre vivo

Ricardo Aparecido Dias, escritor osasquense

Sobre o descarte, Dias avalia como a perda irreparável de livros de autores osasquenses, muitos deles falecidos.

Não há como reconstituir esse acervo. Para nós que somos osasquenses, é uma importância inestimável. Havia uma coleção de exemplares de jornais de Osasco, que vai fazer muita falta, diz Dias.

Ele cita que usou o acervo para a pesquisa do livro Osasco jeito de ser arte e cultura.

Tinha a coleção de livros japoneses, doados pela cidade de Tsu, irmã de Osasco no Japão, livros em Braille, cuidados durante anos pelo jornalista Rodolfo, deficiente visual que era funcionário da Biblioteca. Livro não fica ultrapassado, livro está sempre vivo, afirma.

Agência Mural

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