As mudanças tecnológicas alteraram significativamente o funcionamento dos comércios de bairro. Apesar disso, comerciantes vêm resistindo e ressignificando as operações dos negócios.
No Jardim São Luís, uma dessas pessoas é Vanelice Oliveira Santos Mori, 74, ou, como é conhecida por lá, a Vânia. Há 30 anos ela mantém a loja de acessórios de costura, a ‘Mori Bazar’, no número 701 da Rua João Fernandes Camisa Nova Júnior, uma das principais vias do bairro.
Vanelice mantém a loja de acessórios de costura há 30 anos @Daniel Santana/Agência Mural
Ela herdou o espaço que inicialmente era da sogra, que decidiu não dar continuidade ao comércio e passou o ponto para ela em 1996. Vânia gostou do ramo e acabou criando raízes no bairro.
‘Tenho bastante clientes, muitas vieram da época da minha sogra e continuam comigo. A gente acaba criando boas amizades, se diverte com a mulherada‘
Vanelice, proprietária da loja Mori Bazar
Esse bom humor aparece até nas placas que decoram o espaço, com frases como Limpe o seu dedo antes de apontar para mim ou o clássico Fiado só no vizinho.
O forte da Mori Bazar são pequenas peças para costura, como aviamentos, elásticos e linhas. Alguns serviços ligados ao ofício, como pregar botão de calça jeans, só são feitos por ela na região. Assim, Vania segue ativa, do jeito que gosta.
Também faço crochê nas horas vagas e vendo aqui na loja. Estou sempre fazendo alguma coisa. Agora mesmo estou bordando uma toalha. Não consigo ficar parada, ressalta.
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Para ela, é importante estar no Jardim São Luís porque pode oferecer tudo pertinho aos clientes, que não precisam ir até Santo Amaro ou ao centro para comprar materiais. Ela destaca que os preços de seus produtos são justos.
Essa fidelidade foi fundamental, principalmente em épocas difíceis, como na pandemia.
O carro-chefe da loja passou a ser a venda de elásticos para a confecção de máscaras. Assim, Vânia vê seu trabalho como essencial para manter o comércio aberto.
Se não fosse por elas, eu já teria fechado. Cada vez vem mais gente, porque uma indica para a outra. Vem do Monte Azul, do Jardim Ibirapuera. Tem gente que vem de longe. Pensei em parar, mas quando fico em casa por algum motivo, já sinto falta, afirma.
Na mesma rua, quem também tem história na região do Jardim São Luís é Manoel Magalhães Filho, 60. Proprietário da ‘Drogaria City São Luís’, o baiano de Euclides da Cunha chegou a São Paulo no final dos anos 80 e está presente no bairro desde 1997, quando abriu uma farmácia.
Manoel, proprietário da Drogaria City São Luís @Daniel Santana/Agência Mural
Inicialmente, o comércio ficava na esquina em frente ao espaço atual. Após anos de trabalho, ele conseguiu adquirir um terreno e construiu o próprio local, deixando de pagar aluguel. O estabelecimento funciona no espaço atual há 15 anos.
‘Coloquei um objetivo na minha vida. Só mudaria para um lugar que fosse meu, um prédio próprio. Batalhei até conseguir ter esse espaço. Foi muita correria e perseverança’
Manoel, dono da Drogaria City São Luís
O fruto desse esforço aparece no dia a dia da farmácia. Apesar de diversas opções de drogarias na mesma rua, os moradores continuam confiando no trabalho dele há quase três décadas.
Por ser a farmácia mais próxima da UBS Jardim Celeste, o fluxo de pessoas ao longo do dia é alto, tendo cerca de 200 atendimentos diários. Com o avanço das tecnologias, a City São Luiz também passou a atender clientes por aplicativos e telefone, permitindo a compra de medicamentos sem sair de casa.
O cliente liga ou faz o pedido por aplicativo e a gente envia. Logo, um indica para o outro e o movimento acaba aumentando. Implantamos esse sistema na pandemia e, desde então, deu muito certo, disse.
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Graças ao trabalho e à confiança dos moradores, Manoel também conseguiu ajudar os filhos, Gabriela, de 28 anos, e John Lucas, de 33, a conquistarem a graduação em Farmácia.
Hoje, ela já é formada e ele está finalizando a faculdade, resultado de uma trajetória construída com muita dedicação dentro do negócio da família.
É uma vitória muito grande ver eles estudando e agora tendo uma profissão. O objetivo de um pai é ver os filhos crescerem e se formarem. Isso é muito gratificante, reforça.
A relação de Manoel com os clientes vai além do balcão da farmácia. É praticamente impossível passar por lá sem trocar uma conversa com ele sobre diversos assuntos e, claro, sobre uma de suas grandes paixões, o futebol e o São Paulo Futebol Clube.
Sou feliz aqui. Os clientes gostam da gente e sou grato ao pessoal do bairro, porque trabalhar corretamente, ter bom atendimento e conhecimento quando se trata de saúde é fundamental, afirma.
Edna e o marido, Jorge, são donos da Gladiadores Lan House e atuam na região desde 2005 @Daniel Santana/Agência Mural
Outro comércio que resiste às mudanças e ao avanço das tecnologias é a ‘Gladiadores Lan House’. Administrada por Edna da Silva, 48, e pelo marido, Jorge Nascimento, 45, o espaço está presente na região desde 2005 e continua sendo importante para os moradores do bairro.
Quem tem boa memória talvez se lembre de que o carro-chefe das lan houses era a galera que se reunia para jogar Counter Strike. No início da Gladiadores não foi diferente.
‘Tínhamos 20 máquinas aqui no salão e o foco era o jogo, principalmente para as crianças. Também já fazíamos xerox e impressão, mas as máquinas ferviam. Só se ouvia o pessoal gritando enquanto jogava‘
Edna, proprietária da Gladiadores Lan House
O tempo passou e as lembranças ficaram na memória dela e de alguns clientes que frequentavam o espaço e hoje já estão adultos. Mas serviços como xerox, impressões, encadernação e plastificação seguem firmes, mesmo com o avanço tecnológico.
Com o mundo cada vez mais na palma da mão, foi necessário se reinventar e ampliar os atendimentos oferecidos, inclusive com a possibilidade de entregas.
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Quando o celular se popularizou, tivemos uma queda grande e pensamos em fechar. Diminuímos o espaço, reduzimos as máquinas e começamos a investir na parte gráfica. Passamos a fazer canecas, camisetas, cartões de visita, folhetos e banners.
Segundo ela, a fidelidade dos clientes, o tempo de atuação no bairro e a confiança construída ao longo dos anos são pilares que ajudam a manter o negócio funcionando.
Em média, cerca de 50 a 60 pessoas passam pelo local diariamente, com grande procura por cópias de exames e impressões de atividades escolares, principalmente pela proximidade com a UBS Jardim Celeste e com escolas como a E.E. Reverendo Jacques e o CEI Indir Persio.
Ainda vem muita gente que pede para digitar currículo, imprimir ou digitalizar documentos. Principalmente idosos que não sabem mexer no computador. Sempre tem gente fazendo entrevista online aqui nas máquinas, destaca.
Mesmo com as adversidades ao longo do tempo, Edna ressalta o quanto é grata aos clientes e ao bairro pela fidelidade construída, que ajudou a sustentar a família e conquistar a casa própria.
Algo em comum entre Vânia, Manoel e Edna, comerciantes que construíram suas histórias no Jardim São Luís, é o sentimento de gratidão pela confiança dos moradores da região, que os mantém firmes até hoje no bairro.
O sentimento compartilhado por todos é de felicidade ao saber que as pessoas ainda acreditam no trabalho deles, construindo relações que vão além do vínculo entre cliente e comerciante e se transformam também em amizades.
São muitas histórias. Tenho amizade com muita gente aqui da rua e das outras ruas também. É muito tempo de boa convivência com as famílias daqui. Amo o Jardim São Luís, moro aqui e quero continuar trabalhando aqui, conclui Manoel.