Em um contexto em que a política institucional ainda parece distante da vida cotidiana, um grupo de jovens das periferias tem apostado em uma estratégia divertida para aproximar os cidadãos dos três poderes: jogos que simulam e propõem tomadas de decisões políticas.
O projeto promove oficinas e jogatinas em escolas, universidades e organizações públicas e sociais para explicar, brincando, como funciona a estrutura política nacional e como a população pode cobrar e reivindicar direitos. A proposta é simples: sair do modelo tradicional de aula e colocar os participantes no centro das decisões.
É assim no tabuleiro do Passa-Lei, onde os jogadores acompanham todo o caminho de tramitação de um projeto de lei, da proposta à sanção presidencial. Na dinâmica Balança, mas não cai, os participantes vivenciam, na prática, as relações e tensões entre os três poderes.
As cartas do jogo com o nome Passa-Lei que projeto de lei do governo federal @Arquivo pessoal/Divulgação
Já no Jogo do Orçamento, é preciso decidir como investir recursos de uma cidade. No Jogo das Eleições, é possível experimentar o funcionamento do sistema proporcional brasileiro, entendendo como votos se transformam em cadeiras no Legislativo.
A ideia é discutir problemas concretos dos locais onde estamos e relacionar suas possíveis soluções a exemplos práticos. A proposta é mostrar, de forma clara, como determinadas iniciativas conseguiram enfrentar situações desafiadoras, diz Felipe Neves, jornalista com pós em Ciência Política e um dos fundadores do coletivo.
Em 10 anos de existência, o coletivo já atuou em escolas e universidades, unidades do Sesc de São Paulo e até na ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), em uma oficina sobre o Poder Legislativo com alunos da ETEC Cepam. Entre março e abril de 2026, o coletivo 3 Palitos está na escola Estadual Yervant Kissajikian, em Itaquera, na periferia da Zona Leste.
Jogo ‘Balança, mas não cai’, que explica o trabalho do judiciário no Brasil @Arquivo pessoal/Divulgação
‘A ideia é sempre estar no máximo de locais, com a maior diversidade [de participantes] possível. Como moradores da periferia, sabemos da importância de projetos como esse chegarem nesses territórios’
Felipe Neves, fundador do coletivo 3 Palitos
Fácil assim?
O nome do coletivo já é, por si só, uma provocação: 3 Palitos. Ele brinca com a expressão popular resolver um problema em dois palitos, associada à facilidade e agilidade, para contrastar com a complexidade da política institucional brasileira.
Os fundadores se conheceram na faculdade em 2012, e no final da graduação, em 2016, criaram o coletivo. Inicialmente, tínhamos o desejo de realizar algo voltado para a mobilização social, participação e auxílio ao próximo, mas ainda não sabíamos como estruturar essa ideia. Testamos diferentes possibilidades e consideramos outros projetos, conta Felipe.
Os fundadores do coletivo 3 Palitos, em evento para mostrar o jogo @Arquivo pessoal/Divulgação
Como os termômetros da política nacional estavam explodindo na época – com com os desdobramentos da Operação Lava Jato, grandes manifestações de rua e o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff – os amigos entenderam que era hora de focar na educação.
A gente tenta conectar os problemas vividos pelos participantes, sobretudo em contextos periféricos, aos responsáveis por resolvê-los. Isso é a chave do nosso trabalho, porque parte do distanciamento das pessoas com a política se deve a não saber para que servem os cargos que a gente elege, diz Felipe.
Além dele, a equipe do 3 Palitos é formada por mais três profissionais de comunicação e política: Alexandra Papini, consultora e mestre em Comunicação; Gerson Camargo, jornalista e mestre em Educação, com atuação no terceiro setor; e João Almeida, jornalista com experiência em assessoria de imprensa e sites de notícias.
Jogos que simulam decisões reais
O acervo do coletivo já conta com ao menos 10 jogos, que são propostos e adaptados dependendo do espaço em que a brincadeira vai acontecer. As oficinas atendem públicos a partir de 13 anos até idosos, e podem ocorrer em formato único ou em ciclos, com duração média de uma a duas horas e meia.
É assim com o Censo do Poder, um jogo que propõe discutir quem são as pessoas que ocupam os espaços de decisão no país, refletindo sobre recortes de raça, gênero e representatividade.
Jovens na ETEC Itaquera com o tabuleiro de jogos sobre a política @Arquivo pessoal/Divulgação
E também com o Plano Advocacy, no qual os participantes precisam identificar problemas coletivos que vivenciam e desenvolver estratégias para pressionar o poder público a resolvê-los.
Antes de brincar, no entanto, os jogadores participam de uma dinâmica em que são convidados a definir política em uma palavra. A atividade funciona como um termômetro para entender as percepções dos alunos, que variam entre visões negativas e mais propositivas.
Desde 2022, o estudante Adelmo Vitoryo, 21, participa de oficinas do 3 Palitos na Escola Comum, instituição de educação política para jovens. Morador de Pirituba, na zona oeste de São Paulo, ele acredita que o projeto permite levar a política às escolas públicas e aos bairros periféricos, de forma simples, divertida e propositiva.
Sabemos que a discussão política muitas vezes não alcança quem vive nas regiões periféricas. As decisões, muitas vezes, são tomadas sem um debate público amplo, com todos os setores da sociedade, diz Vitoryo.
No jogo Balança, mas não cai as peças têm peso diferente e os jogadores precisam encontrar um equilíbrio @Arquivo pessoal/Divulgação
Quem também participou das oficinas, em 2024, foi o estudante João Goma, 20, de Itaquera, na zona leste de São Paulo. As dinâmicas e jogos foram importantes para ajudá-lo a compreender a complexidade da estrutura política do Brasil.
“Iniciativas como esta são uma fagulha de esperança na periferia, que precisa de educação política além da que as escolas públicas são capazes de proporcionar”, diz. Os jogos possuem um caráter emancipador, crucial para formação de uma juventude crítica e consciente.Instituições ou espaços educacionais interessados nas oficinas dos 3 Palitos podem entrar em contato com o grupo pelo Instagram do Projeto.
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