A confeitaria Doces Ana Lu, no Jardim Audir, em Barueri, na Grande São Paulo, soma 20 anos de atividade. Com tanto tempo no mercado, a proprietária, Ana Lúcia Paes de Aguiar, 51, afirma com segurança: nem a pandemia COVID-19 foi um período tão difícil para o comércio de chocolates artesanais como o último ano. Só em 2025, as vendas caíram 50% na época da Páscoa, a mais movimentada no setor.
Em 2023 e 2024, mesmo após a pandemia, eu vendi pelo menos 100 ovos. Já em 2025 foi muito decepcionante: eu lucrei bem abaixo da minha estimativa, vendi cerca de 40 ovos, lamenta.
Ana inova em produtos diferenciados e atrativos para manter as vendas, apesar da alta do cacau. @Arquivo pessoal
A também confeiteira Rosemeire Galhardo, 50, da Bia Delicats, teve que adotar novas estratégias para tentar manter a margem de lucro do seu negócio, no Jardim Romano, Itaim Paulista, zona leste da capital.
Além da fidelização de clientes e do controle rigoroso para evitar desperdícios – com direito a planilhas automatizadas para compras – ela passou a oferecer a opção de doces não banhados a chocolate, para tornar os preços mais acessíveis. Também fica ligada em promoções de chocolate, já que o preço do produto está cada vez mais caro.
Entre 2024 e 2026 eu senti que o cacau teve diversos aumentos. Eu pagava em torno de R$45 no quilo [há dois anos], agora foi para R$80 ou R$85, dependendo do lugar.
Rosemeire, confeiteira.
Rosemeire optou por não trocar o tipo de chocolate usado na confecção dos ovos de Páscoa e manter a qualidade @Arquivo pessoal
Alta do cacau
A percepção da confeiteira está correta. Entre 2023 e 2025, o preço do cacau aumentou mundialmente em 190%, segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO).
Ao menos 70% do cacau consumido no mundo é produzido na África Ocidental, sobretudo na Costa do Marfim e em Gana. Esses países passaram por alguns eventos que impactaram na safra, inflacionando o preço do cacau. É o que explica a economista Mayra Duarte de Carvalho, 33, de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo.
Houve uma queda da colheita impactada pelas secas severas em decorrência de mudanças climáticas na Costa do Marfim e Gana, principais países exportadores do produto, conta a especialista, que é integrante da Rede de Economistas Pretos. Além disso, as plantações sofreram ataques de um vírus de difícil controle, diminuindo ainda mais a exportação e os estoques em vários países.
O Brasil produz cacau, mas a maior parte é exportada e entra no mercado global. Para equilibrar a balança, o país precisa importar o produto – e muito: cerca de 80% do cacau consumido por aqui vem de outros países, segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau.
Logo, a alta de preços no mercado global atinge o Brasil. Ela foi sentida no preço do chocolate (+16%) e cacau em pó (+12%), entre 2024 e 2025, segundo Índice de Preço do consumidor. É um cenário macroeconômico com impacto na economia nas quebradas da Grande São Paulo.
Em fevereiro deste ano, o Ministério da Agricultura e Pecuária suspendeu a importação de cacau da Costa do Marfim devido ao risco fitossanitário. Isso porque os grãos enviados para o Brasil teriam mistura com cargas de outros países cujas condições sanitárias são desconhecidas ou não autorizadas.
Segundo Mayra, as grandes indústrias de alimentos substituem o cacau por outros insumos na produção do chocolate, para manter a margem de lucros. Já as empreendedoras periféricas não têm essa alternativa, porque a mudança na qualidade pode desvalorizar seu produto em uma época de muita concorrência.
Com isso, elas acabam sofrendo pressão de diversos lados: da conjuntura global, do pouco acesso a crédito (que poderiam auxiliar nesses períodos), da concorrência local e do poder de compra do cliente.
[Os clientes] dizem: se não posso comprar para todos [os membros da família], não vou comprar nenhum. Ou, ao invés de comprar um quilo como antes, passaram a comprar três [chocolates] de 150 gramas para presentear mais pessoas, detalha Ana sobre a mudança no comportamento do consumidor da sua região.
Ana tenta inovar em sabores e formatos para manter a clientela apesar da alta do cacau @Arquivo pessoal
Mulheres dos ovos de ouro
Ana começou a produzir chocolates em busca da sua independência financeira, mas o cenário de alta no cacau quase a fez desistir da produção em 2026. Felizmente, a procura dos clientes fiéis mudou os planos: ela decidiu atender a uma demanda menor para não perder a Páscoa, que é uma data importante na sua receita anual.
Apesar dos chocolates serem um produto que vende o ano todo, a procura maior é na Páscoa. Dá para tirar um rendimento muito bom [nesta época], de cerca de 50% do total do ano. A Páscoa é nosso Natal, comenta com humor.
Rosimeire começou no ramo fazendo ovos de Páscoa para levantar o dinheiro do casamento da filha, em 2019. Viu na festividade uma possibilidade rentável de negócio, que impulsionou a transição da carreira de gerente administrativa em um supermercado para confeitaria. Mesmo no cenário de crise do cacau, ela acredita que o trabalho vale a pena.
A economista Mayra lembra que muitas mulheres periféricas começam a empreender por necessidade, e acabam criando um importante impacto na economia circular: além de serem consumidoras de produtos locais para sua produção, elas oferecem itens de qualidade e geram empregos indiretos.
Esse mercado de produtos artesanais é bem valorizado, porque ainda é utilizada matéria prima de alta qualidade e de um modo mais cuidadoso.
Mayra, economista.
As duas confeiteiras têm se profissionalizado e criado estratégias de venda para manter a clientela. Uma das formas é oferecer produtos exclusivos, como chocolates menores, mais em conta e até em formatos diferentes e divertidos, como um controle remoto de chocolate.
A queda nas safras de cacau na Costa do Marfim e Gana resultaram no aumento do preço do cacau no mercado global e chegaram até Rosemeire @Arquivo pessoal
O carro chefe de Rosemeire é o ovo de brownie. Seguindo tendências, ela usa embalagens atrativas e aposta em novos formatos na moda, como o ovo em pedaços. Mesmo com a alta no preço do cacau, ela não deixou de contratar uma ajudante para manter a cozinha organizada, como todos os anos.
As pessoas da periferia gostam de qualidade. Às vezes elas optam por produtos um pouco mais em conta durante o ano, mas nas datas comemorativas elas aproveitam.
Rosemeire, confeiteira.
De olho na macroeconomia, Mayra reforça que o Brasil é um grande consumidor de chocolate e que é preciso políticas para incentivar o escoamento interno da produção de cacau pelos pequenos produtores e a agricultura familiar.
Em março de 2026, o presidente Luís Inácio Lula da Silva aprovou uma Medida Provisória para ajudar produtores de cacau no Brasil. Antes, o cacau importado podia ser estocado por até dois anos e, com a nova medida, esse prazo cai para seis meses, em uma tentativa de estimular a compra do cacau produzido internamente.
Como não é possível controlar a volatilidade do mercado e prever melhora ou piora do cenário, Mayra dá dicas para empreendedores periféricos terem sustentabilidade em seus negócios, apesar do cenário global.
Dicas para os empreendedores das quebradas
Criar uma rede de confeiteiras e compartilhar experiências, conhecimento, oportunidades e até fazer compras coletivas por um valor mais em conta.
Antecipar comprar antes das datas para garantir valores mais baixos.
Expandir fronteiras do negócio, considerando distâncias possíveis, firmando parcerias locais como entregadores.
Buscar alternativas criativas para diversificar o portfólio de produtos.
Fidelizar clientes com promoções ou oferecer opções em outras datas comemorativas.
Estimular a economia criativa local, com feiras e espaços coletivos para pequenos empreendedores comercializarem produtos.
Atuar por meio do cooperativismo, possibilidade que facilita aquisição de crédito e outros financiamentos.
Usar vitrines gratuitas como Instagram e WhatsApp para divulgação.
Buscar aprimoramento e espaços de formação e orientação. Uma dica e o Rede Mulher Empreendedora do Brasil.
Regularizar o CNPJ e se enxergar como empresa, independente do tamanho do negócio.
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