Na última quinta-feira (12), o perfil oficial do Samba do Cruz postou o que seria o início de uma grande movimentação nas redes sociais: um abaixo-assinado com 22,6 mil assinaturas pedindo a preservação histórica e cultural do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, tradicional espaço comunitário da Casa Verde, zona norte de São Paulo.

Sede do tradicional Samba do Cruz, o grupo pode ser despejado após se recusar a assinar o contrato de concessão do complexo do Campo de Marte à iniciativa privada.

O espaço, considerado um importante reduto da cultura negra paulistana, corre risco de demolição como parte do projeto que transferiu a gestão de uma área de 385 mil metros quadrados para a concessionária Campo de Marte SPE S/A, liderada pela empresa Progen S.A., ligada à administradora do Estádio do Pacaembu.

Campo de futebol do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, na Casa Verde @Arquivo pessoal/Divulgação

O clube realiza eventos de samba nos fins de semana, que ajudam a custear uniformes, campeonatos e a manutenção do espaço que também recebe partidas do futebol de várzea.

Diante da ameaça ao local e às atividades culturais, frequentadores, artistas e apoiadores estão utilizando as redes sociais em apoio ao Cruz. A petição com o nome “Salve o Cruz da Esperança” deve ser entregue ao poder público nos próximos dias.

Sede do Clube Cruz da Esperança @Arquivo pessoal/Divulgação

O documento solicita à Prefeitura de São Paulo e a órgãos municipais de cultura que adotem medidas para garantir a permanência do clube no território e reconhecer a relevância histórica.

Entre as reivindicações está o reconhecimento do Cruz da Esperança como patrimônio cultural imaterial da cidade e a abertura de um processo administrativo para avaliar o registro do espaço.

O espaço do Cruz é maravilhoso, não há quem vá lá e não se sinta vivo. Você encontra amigos, gente de todas as idades, a festa é linda. Leva cultura para a comunidade. É até difícil de falar da zona norte de São Paulo, e pessoas de outra região não citar o Samba do Cruz, vai até artista, famoso lá, conta Aluizio Tavares, 30, frequentador do samba desde 2023.

História do Clube

Fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas negros, o clube fica na Casa Verde e integra um território conhecido por pesquisadores como Pequena África paulistana, marcado pela presença histórica da população negra que se estabeleceu na região ao longo do século 20, após processos de deslocamento do centro da cidade.

Nesse contexto, o local passou a ser considerado por frequentadores e estudiosos como um espaço de memória, sociabilidade e resistência cultural, comparado por alguns como um quilombo urbano.

‘O Cruz da Esperança não é só um espaço, é um símbolo. É onde amigos viram família e se encontram. Quem ia antigamente, segue indo. E os jovens trazem a força da ancestralidade, da cultura preta que vem de casa’

Mayara Winne, 28, frequentadora do Samba do Cruz

Ali não é só um encontro né, é um reencontro de almas. Ali é o encontro de todo mundo, pode perceber, tem acolhimento, história, samba. E o samba é resistência.

O problema

A mobilização ganhou força em meio às transformações urbanas previstas para o entorno do Parque Municipal Campo de Marte.

A área será concedida à iniciativa privada por meio do Contrato nº 001/SVMA/2025, que prevê a gestão de mais de 385 mil metros quadrados por um período de 35 anos, com valor estimado em cerca de R$ 614,4 milhões.

O presidente do Clube Cruz da Esperança, Antônio de Jesus, 70, mais conhecido como Toninho afirma que escutou das partes responsáveis pela concessionária que samba e parque não se misturam e que nos documentos não mencionam manifestações culturais tradicionais da região, como o Samba do Cruz, apenas os times de futebol de várzea.

Toninho, presidente do Clube Cruz da Esperança luta para permanecer no espaço

Os dirigentes também decidiram se desvincular da Associação dos Clubes Mantenedores para preservar a autonomia institucional.

Desde então, o clube atua de forma independente e optou por não aderir ao acordo proposto pela concessionária responsável pelo projeto do parque. Segundo eles, o acordo previa que o espaço tivesse horário de funcionamento e não havia abertura para a continuidade do samba.

Fábio Henrique Januário, 40, mais conhecido como Fabinho, é criador da roda de samba do clube. Ele conta que a preocupação da comunidade aumentou após um episódio recente na área conhecida como Campo Aliança, também incluída no perímetro do projeto.

Um post compartilhado por SAMBA DO CRUZ (@samba\_do\_cruzz)

Vídeos divulgados nas redes sociais mostram a reintegração de posse de uma moradora, realizada com apoio policial e seguida pela demolição do imóvel.

Após o despejo, segundo relatos, foi oferecido à moradora um auxílio-aluguel de R$ 400. Para moradores da região, o caso acendeu o alerta sobre possíveis impactos futuros em outros espaços tradicionais do território.

Além do reconhecimento como patrimônio cultural, os dirigentes pedem a criação de um canal institucional de diálogo entre o poder público, a concessionária responsável pelo projeto do parque e a diretoria do clube.

O objetivo seria buscar soluções que conciliem o desenvolvimento urbano da região com a preservação de espaços culturais históricos.

Campo do Cruz da Esperança para treinos e jogos dos times de várzea @Arquivo pessoal/Divulgação

Sem acordo

Em nota, a SVMA (Secretaria do Verde e do Meio Ambiente) afirma que chegou a negociar um acordo entre a concessionária responsável pelo Parque Municipal Campo de Marte e o clube Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança para gestão compartilhada de novos campos de futebol de várzea previstos para o local.

Segundo a pasta, a entidade participou das tratativas, mas não deu continuidade ao processo junto à administração municipal e à concessionária.

Afirmaram ainda que o evento Samba da Cruz nunca solicitou autorização formal à prefeitura para realizar atividades no espaço e teria descumprido notificações para desocupação voluntária da área.

O caso foi levado ao Judiciário para garantir a retomada do terreno público e permitir a implantação do parque.

A SVMA alega que o processo ocorre com transparência e diálogo entre as partes e que os parques municipais são espaços públicos destinados ao lazer, à cultura e ao esporte, desde que as atividades respeitem as normas de uso e de preservação ambiental.

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