Todos os meses, a dona de casa Ester Oliveira de Castro, 43, precisa cruzar a cidade para assegurar o remédio de alto custo da mãe. Moradora do bairro Taboão, em Guarulhos, ela utiliza duas conduções até a única Farmácia de Alto Custo do município – o mais populoso da Grande São Paulo.

O equipamento é mantido pelo governo do estado de São Paulo e situado na região central do município. Somando o tempo de deslocamento à espera pelo atendimento, grande parte do dia acaba sendo dedicado a buscar o remédio.

Ester conta que já esperou até três horas para retirar o medicamento e diz que, em quatro anos que vai ao serviço, nunca permaneceu na fila por menos de duas horas. O trajeto já é cansativo, e quando chega aqui ainda precisa enfrentar fila, conta.

Em um corredor minúsculo, pessoas se espremem enquanto aguardam em pé por uma senha @Gabrielly Souza/Agência Mural

Usuários avaliam que a estrutura do local é insuficiente para a demanda. Com frequência, a fila ultrapassa o espaço interno e se estende pela calçada – e até o outro quarteirão. Em dias de chuva, frio ou sol intenso, pacientes aguardam ao ar livre, sem cobertura ou assentos.

‘É tudo misturado: idosos, pessoas com problemas de saúde. Não tem banco, não tem proteção contra sol ou chuva’

Ester, moradora de Guarulhos

Embora existam vários guichês, usuários afirmam que nem todos funcionam ao mesmo tempo por falta de funcionários. Também não há uma fila preferencial organizada para idosos e pessoas com comorbidades. Às vezes dão senha para pessoas acima de 75 anos, mas são exceções. Não é para todos, diz.

Desafios

A dificuldade começa antes mesmo da chegada. Segundo os pacientes, não há canais eficientes para consultar a disponibilidade dos medicamentos e é preciso ir pessoalmente até o local para obter informações. Para eles, a abertura de uma nova unidade ajudaria a descentralizar o atendimento e reduzir a sobrecarga.

O aposentado Amaro Juvenal da Silva, 71, também enfrenta obstáculos para retirar a Atorvastatina, medicamento de uso contínuo para controle do colesterol. Morador da região da Praça 8, na periferia de Guarulhos,ele sai de casa ainda de madrugada e, dependendo do dia, precisa pegar dois ônibus para ir à farmácia.

O aposentado Amaro Juvenal e a dona de casa Isanha Maria aguardam na fila por medicamento na farmácia de alto custo @Gabrielly Souza/Agência Mural

Chego às 5h, 5h40 da manhã. Às vezes saio daqui só depois das 8h ou mais tarde, relata Amaro, que busca remédios no espaço há quatro anos. Ele permanece em pé durante toda a espera, independentemente do clima. Quando está sol, estamos aqui. Quando está chovendo, estamos aqui também.

Dentro da unidade, o atendimento é demorado. Após retirar a senha, os pacientes aguardam o chamado no painel, passam por um guichê e aguardam até conseguir retirar o medicamento, o que pode levar horas.

Isanha Maria, 56, dona de casa e moradora do Ponte Alta, vai ao espaço para para retirar o colírio usado pelo marido no tratamento de catarata. Além da espera, ela afirma que já perdeu viagem por falta de medicamento. Às vezes a gente chega e não tem. Deveria ter alguém para avisar antes.

Pessoas com muletas aguardam em pé na fila por medicamento devido à falta de cadeiras na área externa e na fila preferencial @Gabrielly Souza/Agência Mural

Durante a produção da reportagem, a Agência Mural presenciou a falta de clozapina, um remédio para o tratamento psicótico. Uma paciente avisou o restante da fila que ele havia acabado e que quem aguardava poderia voltar para casa. Nenhum funcionário da farmácia saiu para avisar as pessoas que estavam na fila.

Mesmo sendo paciente renal crônico, o aposentado Roberto Nogueira, 66, afirma que ainda enfrenta dificuldades para ter o direito ao atendimento preferencial respeitado.

Ele começou a retirar remédios na farmácia em 2017. Dois anos depois, fez um transplante de rim e pode interromper o tratamento, mas neste ano, o órgão parou de funcionar e ele teve de voltar ao local para buscar medicamentos para o tratamento de hemodiálise

‘Ficar muito tempo em pé é difícil. Às vezes preciso me sentar, então peço para alguém guardar meu lugar por alguns minutos’

Roberto, aposentado

De acordo com ele, a estrutura da unidade permanece a mesma desde a primeira vez em que esteve no local, nove anos atrás. Desde quando comecei o primeiro tratamento, continua tudo igual. Não ampliaram nem um centímetro para que a gente possa se sentar, critica.

Roberto, aposentado é paciente em tratamento e aguarda medicamento para hemodiálise @Gabrielly Souza/Agência Mural

Na avaliação dos pacientes ouvidos pela Agência Mural, a soma de longos deslocamentos, estrutura inadequada e alta demanda transforma a retirada de medicamentos em um processo cansativo e desgastante.

É muita gente para pouco espaço e para poucos atendentes. E, como só existe essa unidade, não há muita alternativa, resume Ester.

Questionada, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo afirma que a CAF (Coordenadoria de Assistência Farmacêutica) passará a oferecer, a partir de abril, a entrega domiciliar de alguns medicamentos, para cerca de 11 mil pacientes que retiram os remédios na Farmácia de Medicamentos Especializados de Guarulhos.

Segundo a gestão, a medida deve beneficiar aproximadamente 50% dos usuários atendidos pela unidade.

Segundo a Secretaria, para organizar o fluxo e aprimorar o atendimento, a unidade tem adotado medidas como a entrega de medicamentos suficientes para até dois meses, conforme a disponibilidade em estoque, além do reforço contínuo da equipe.

Sobre a clozapina (25 mg e 100 mg), a secretaria disse que a compra é de responsabilidade do Ministério da Saúde, cabendo aos estados a distribuição aos municípios. De acordo com a CAF, a farmácia de Guarulhos está abastecida com o medicamento citado na reportagem.

Agência Mural

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