Na noite de 6 de fevereiro de 2025, uma forte chuva causou um alagamento na região da Cohab Adventista, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. A enxurrada arrastou o carro do gerente de papelaria Erick Santos Silva, então com 24 anos, para dentro do córrego. O veículo foi encontrado 600m à frente. Mais de um ano se passou e Erick segue desaparecido.

A família não recebeu novas informações e o córrego Água dos Brancos, na Cohab Adventista – que inundou e deu origem ao alagamento – só teve as obras de segurança concluídas no final de fevereiro de 2026, um ano depois da ocorrência.

Nos dias após o desaparecimento, o caso ganhou notoriedade na imprensa e houve até manifestação cobrando pela continuação das buscas, encerradas 13 dias depois do desaparecimento. Para este 6 de fevereiro de 2026, a família não teve outra opção senão tentar se manter firme.

Erick Silva (à direita) no casamento do primo Jadiel, meses antes do desaparecimento @Arquivo pessoal/Divulgação

Bem é uma palavra muito forte, estamos levando, sobrevivendo. Cada um [dos familiares] levou à sua maneira o dia [6 de fevereiro, data de um ano do desaparecimento]. Não marcamos nada especial e seguimos, comentou o gerente financeiro Jadiel Silva, 28, primo de Erick.

Ele foi o familiar que tomou à frente no apoio das buscas, questões burocráticas e concessão de entrevistas. Jadiel conta que ele e Erick sempre tomaram as rédeas de situações envolvendo a família, e que dessa vez não poderia ser diferente.

‘Não tenho dúvida de que ele teria feito muito mais se fosse o contrário. Tenho certeza que é o mínimo que ele esperaria de mim se ele pudesse opinar sobre essa situação’

Jadiel, primo do Erick

Ele descreve o primo como uma pessoa muito gentil, muito doce, que respeitava e pensava no próximo. Na época do desaparecimento, Erick estudava Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Sempre batalhou muito. Estava construindo sua prosperidade. Infelizmente, antes dele poder desfrutar de tudo que ele estava construindo, isso aconteceu. Sempre muito amável, responsável, se preocupava com a mãe, com os pais, com a irmã.

Jadiel segue cuidando e se preocupando com as pessoas mais próximas ao primo. Joselito Silva, 53, pai de Erick e seu padrinho, desenvolveu problemas de saúde ao longo do último ano.

Um ano após desaparecimento de Erick Silva, canteiro do córrego Água dos Brancos, na rua dos Mercantéis, segue sem proteção que evite novas quedas @Cleberson Santos/Agência Mural

Tem sofrido bastante, não consegue dormir, tem problema com síndrome do pânico, depressão, insônia constante, não consegue comer. Só de um pai levantar, olhar a cama do filho e ver que não está lá, é complicado. E ele tem problema do coração e pressão alta.

As últimas mensagens enviadas por Erick foram por volta das 20h de 6 de fevereiro de 2025, avisando que estava em um alagamento e pedindo ajuda. O carro foi encontrado por Jadiel e outros amigos cerca de uma hora depois. Os bombeiros chegaram ao local também à noite, mas somente para verificar se havia um corpo dentro do veículo.

Eles conseguiram acessar, constataram que não tinha ninguém e foram embora. Nós acreditamos que eles iriam buscar reforços, mais equipamentos que auxiliassem nas buscas. Depois de uma hora e meia, liguei e eles falaram que o chamado estava como concluído, conta Jadiel.

Ele e a irmã do Erick, Ayla Silva, 23, conseguiram telefonar para o número de celular da vítima por volta da meia noite. A ligação foi atendida, mas não foi possível entender o que era dito: foi a parte que mais nos deixou aflitos. Em uma das vezes ficamos um minuto na ligação, mas era muito barulho de água, não sei dizer onde ele estava. Depois não conseguimos mais [ser atendidos], pode ser que o celular tenha descarregado.

Jadiel, junto com parentes e amigos, entram no córrego durante a madrugada para procurar pelo primo, sem apoio de equipes especializadas. No dia seguinte foi que [os bombeiros] iniciaram as buscas, mas muito tempo já tinha se passado. Muito complicado.

‘Depois que o caso ganhou repercussão, não tenho do que reclamar da ajuda e da atenção dos bombeiros. Mas nas primeiras horas foi traumatizante, fomos desrespeitados’

Jadiel

Os bombeiros encerraram as buscas em 19 de fevereiro de 2025. De acordo com nota enviada pela Secretaria de Segurança Pública à Agência Mural, o caso foi investigado pelo 47º DP (Capão Redondo) e concluído após os trabalhos em campo, depoimentos e imagens apontarem que o veículo da vítima foi arrastado pela correnteza durante a enchente que atingiu a região.

A apuração não identificou indícios de crime ou participação de terceiros, e todo o conjunto probatório passou por apreciação do Ministério Público, que se manifestou pelo arquivamento do procedimento, afirmou a pasta.

Córrego Água dos Brancos corta a Rua Solidariedade e passa atrás do futuro piscinão da Avenida Ellis Maas @Cleberson Santos/Agência Mural

Depois que as buscas foram oficialmente encerradas, a família até cogitou continuar buscando por conta própria. Houve reuniões com vereadores, secretaria de obras, secretaria de segurança, subprefeitura do Campo Limpo, mas, de acordo com Jadiel, sem nenhum apoio concreto nem novas informações.

Eles dizem que fizeram tudo que estava ao alcance, que o protocolo foi seguido, que infelizmente foi uma tragédia, que era para a gente se acalmar e que tudo ia ficar bem… as mesmas coisas de sempre, reclama Jadiel

Em post nas redes sociais, ele disponibilizou seu telefone pessoal para contato e prometeu recompensa por quem tiver informações concretas que nos ajudem a encontrá-lo. Porém, sem sucesso até o momento. A publicação segue fixada em seu perfil.

Na época [fevereiro de 2025] apareciam alguns corpos perto de córrego ou rio, o pessoal me notificava e eu ia de encontro para entender. Ou era corpo feminino, ou não tinha tatuagem, todos foram descartados. Teve uma vez que tentaram dar um golpe, falaram que era sequestro, que estavam com ele, tudo nessa época, conta.

Carro de Erick Silva após ser recolhido do córrego na região da Cohab Adventista @Arquivo pessoal/Divulgação

Além das buscas, há também questões judiciais que a família não consegue resolver pela falta de informações. Como ainda não foi emitida uma certidão de óbito, já que o corpo não foi encontrado, não foi possível dar entrada no seguro do carro nem dar baixa no financiamento de um apartamento que Erick estava pagando.

O carro está com [água do] córrego e sujeira no terreno de um amigo. O seguro não consegue retirar porque a gente não tem essa documentação ainda. Na Caixa também, na questão do apartamento, só com proprietário, que está desaparecido. Judicialmente, a gente ainda não conseguiu administrar o que ele tanto lutou para ter.

Vimos a história se repetir

Nas reuniões que teve com o poder público, Jadiel cobrou também por intervenções que garantisse a segurança das pessoas que vivem próximas ao córrego Água dos Brancos, na Cohab Adventista.

O inconformismo, a revolta, aumenta ainda mais quando vemos a história se repetindo. Nada mudou, não tem nenhuma grade, não tem um canteiro, não tem proteção absolutamente nenhuma, lamenta Jadiel, lembrando do desaparecimento de um casal após também ter o carro levado pela enxurrada das chuvas do dia 16 de janeiro de 2026.

Este caso não aconteceu no mesmo lugar em que Erick desapareceu, mas na Avenida Carlos Caldeira Filho, 2 km à frente. O corpo de Marcos da Mata Ribeiro, 68, foi encontrado no dia seguinte (17) no rio Pinheiros, enquanto Maria Deusdete da Mata Ribeiro, 67, foi encontrada dois dias depois (19), no rio Jurubatuba.

Erick, continua desaparecido e a família luta por justiça @Arquivo pessoal/Divulgação

No dia seguinte ao desaparecimento do casal, a Subprefeitura do Campo Limpo instalou blocos de concreto na beira do córrego onde o carro foi arrastado. A medida não foi adotada após o desaparecimento de Erick.

Um guarda-corpo ou grade poderia ter evitado. Por mais que a gente saiba que o veículo está sendo arrastado, quando chega na grade ou no guarda corpo, o carro trava. Uma coisa básica, simples, reclama Jadiel.

‘A gente viu a história se repetindo, nada mudou, não tem proteção nenhuma. Não precisa de uma enchente para alguém cair lá dentro. Se você tropeçar na calçada, você pode cair lá dentro’

Segundo ele, em todas as reuniões com autoridades foi pedido que fosse feito esse reforço na segurança e o máximo que escutou como resposta é que a solicitação foi protocolada: Tem um ano que aconteceu uma fatalidade e não passaram nem um durex… isso sim é revoltante. E aconteceu de novo, é loucura.

Na segunda-feira (23), mesmo sem chuva no dia, um motorista perdeu o controle do veículo e caiu no córrego que corta a Rua dos Mercantéis.

A Agência Mural entrou em contato com a Subprefeitura do Campo Limpo questionando sobre a construção de grades ou guarda-corpos na beira do córrego e se há medidas preventivas sendo adotadas para mitigar riscos.

Quem respondeu aos questionamentos foi a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), que informou que o projeto de segurança viária para a Rua dos Mercantéis, elaborado em janeiro de 2026, está sendo executado e prevê a instalação de defensas metálicas em dois trechos distintos.

A Subprefeitura Campo Limpo colocou malotões [barreiras físicas] de concreto, como medida de segurança imediata, até a fim destas ações, finaliza a nota. As obras de instalação das defensas metálicas foram finalizadas nos últimos dias de fevereiro, um ano depois da tragédia envolvendo Erick.

Agência Mural

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