No princípio era o verbo. O coisa ruim, no entanto, faz sucesso desde então como adjetivo. A primeira menção da personificação do mal na Bíblia cristã é a serpente, outra que nunca teve a melhor das imagens, no primeiro livro de Gênesis. A figura do “adversário”, o acusador diante de Deus, só tem vez no primeiro capítulo do livro de Jó, o paciente, e sequer recebe nome em todo o Velho Testamento. O diabo é uma figura que carrega milênios de medo acumulado, explica o psicólogo e pós graduando em psicanálise pela PUC Goiás Eduardo Afonso. Ela opera antes do pensamento. E não é necessário que se acredite na existência dele para que se produzam efeitos. Basta reconhecer o peso simbólico da acusação. O medo vem antes da razão. E o diabo sabe disso há muito tempo, avalia.
E não é só ele quem sabe. No domingo de junho de 2025, na Avenida Paulista, em São Paulo, diante de bandeiras e celulares erguidos, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) subiu em um caminhão de som para evocar o inimigo antigo. O número de pessoas que apoiam o Bolsonaro cresceu e ultrapassou as pessoas que apoiam o satanás do Lula, disse, arrancando gritos. Era a repetição de um ritual secular, em que adversários políticos são empurrados para fazer as vezes de príncipe do mal. Ali, o imaginário milenar do diabo se fez. Mais uma vez.
A persona encarnada atravessa séculos sem perder a utilidade. A proposta é despir o adversário político de história, alianças e contradições e incubi-lo de um papel mais simples e mais eficiente: o do inimigo que não se discute, apenas se enfrenta. No jogo eleitoral, o movimento cumpre função estratégica. Chamar alguém de corrupto gera indignação. Chamar de diabólico gera pânico, diz Afonso, que destaca ainda como o medo engaja rápido, o debate empobrece, mas a adesão cresce.
Nos momentos seguintes a uma ação do governo paulista na Cracolândia, em São Paulo, o deputado federal José Medeiros (PL-MT) declarou, no plenário da Câmara dos Deputados: um monte de gente do PSOL e do PT e até o diabo do padre, porque ele se diz padre, protestaram. Não é um caso isolado. Apenas em 2025, o termo diabo e suas variações foram citados 51 vezes, segundo registros das notas taquigráficas da Câmara levantados pela Agência Pública.
Diabo é a forma mais comum ouvida nos discursos, seguida de perto por demônio, além de capeta e satanás. Mais da metade do uso desses vocábulos se deu por parlamentares do Partido Liberal (PL), 52,9%, enquanto a outra metade de registros tiveram autoria em pronunciamentos de deputados de outros 10 partidos, incluindo PSD, MDB e PT.
Para a cientista política da Universidade Federal do Paraná Kelly Prudencio a evocação da figura do mal indica uma mudança profunda no padrão do conflito político, no sentido de que o adversário já não seria com quem se disputa poder, mas alguém que precisa ser eliminado simbolicamente e o uso passa longe de ser casual ou meramente retórica. A eficácia, nesse caso, diz respeito à conquista do voto, resume. Segundo ela, quando a construção da imagem política passa pela apresentação de um inimigo público, alguém descrito como ameaça moral ou espiritual, isso indica desconfiança nas próprias instituições democráticas.
Nesse cenário, Prudencio afirma que o discurso religioso ganha centralidade porque promete soluções fora da política, sem negociação ou contraponto. É uma resposta simples para frustrações profundas, especialmente em contextos de desigualdade, desemprego e descrédito na classe política, o que ela descreve como um empobrecimento deliberado do debate. Quando há demonização, não há debate, há apenas embate.
Sem necessidade de doutrina ou igreja, a figura do capeta circula livremente por discursos políticos, redes sociais e palanques improvisados. O diabo sempre reaparece em momentos de crise e incerteza, lembra o historiador da Universidade Federal do Ceará Pierre Grangeiro. Minorias, opositores e grupos vulneráveis voltam a ocupar o lugar da ameaça. A diferença é a velocidade, a demonização agora se espalha em segundos, sem mediação institucional, avalia.
O mecanismo continua politicamente eficaz. Quando você transforma alguém em diabólico, elimina a possibilidade de diálogo, afirma o psicólogo Eduardo Afonso, antes de concluir: Não é mais um adversário, é um inimigo metafísico. O diabo funciona como projeção coletiva. Não vem de fora, emerge dos medos e desejos que não se quer reconhecer […] O diabo é o vilão perfeito. Não responde processo. Não precisa provar culpa. Basta acusar.
Capeta, o funcionário-padrão quase sempre desprovido de DNA
Há poucos séculos, o diabo ainda não tinha biografia, mas já ocupava um dos lados do tabuleiro. Apesar de só receber nome no evangelho do Novo Testamento cristão, antes disso, o mal já ensaiava aparições na tentativa humana de dar sentido ao caos. As primeiras personificações do mal não surgem para punir pessoas, mas para explicar o que foge ao controle humano, afirma o historiador Pierre Grangeiro. Ele explica que guerras, doenças e catástrofes precisavam de uma narrativa, pois o sofrimento exigia uma causa. Até então, o diabo ainda não era indivíduo, era hipótese.
Foi na antiga Pérsia, no século VII antes de Cristo, que o demônio começou a ganhar contornos nítidos. O profeta Zoroastro, fundador do Masdeísmo (religião que pode ter sido a primeira monoteísta do mundo), descreveu Arimã como o princípio das trevas, em oposição a Mazda, o princípio da luz. Ali, o mundo passou a ser concebido enquanto dicotomia num campo de forças irreconciliáveis. É uma estrutura mental que atravessa séculos, ressalta Grangeiro.
No judaísmo antigo, o diabo permaneceu discreto. Segundo o teólogo da Pontifícia Universidade Católica Edin Sued Abumanssur, satanás não designava um ser, mas uma função. Era o acusador, o opositor ocasional, alguém que surgia quando necessário. O mal ainda não tinha identidade, resume. Não havia inferno organizado, nem personagem dedicado à perversidade. O diabo era um cargo temporário, não uma carreira.
É com o cristianismo que ele finalmente assume protagonismo. Influenciado por tradições apocalípticas judaicas e por textos como o Livro de Enoque, o diabo ganha nome, rosto e ambição. Deixa de ser circunstância e passa a ser agente, quando, segundo Grangeiro, o mal se transforma em entidade.
Desde então, o diabo tornou-se indispensável para organizar comportamentos, justificar punições e explicar a desobediência. Ele não apenas existe, trabalha.
No fato e no direito: o demônio importado para as Américas
É durante a Idade Média, e, ironicamente, pelo fato de a Igreja Católica se consolidar como principal poder político e simbólico da Europa, que o diabo atravessa a fronteira da crença e entra no direito. A partir do século XII, o demônio se torna uma categoria jurídica, diz Pierre Grangeiro.
Mulheres acusadas de bruxaria, hereges, curandeiros, judeus e dissidentes passam a ser vistos como corpos contaminados. O diabo aprende ali uma de suas lições mais duradouras: quando o mal vem de fora, a violência parece legítima. Ele permitia punir sem culpa, resume o historiador.
Com a expansão colonial, o diabo embarca rumo às Américas, onde assume novas feições. Práticas religiosas de origem africanas e indígenas passam a ser demonizadas, e corpos negros, associados ao pecado e à desordem moral. A demonização foi central para legitimar a escravidão, era uma justificativa fácil para os governantes. A quem questionasse, bastava falar que aquele ser era do diabo, afirma Grangeiro. Ao transformar o outro não apenas em objeto a ser possuído, mas em uma existência aliada ao mal a ser controlada, o colonizador se absolvia. O chicote vinha acompanhado de oração.
No século 20, o diabo troca de forma mais evidente o vocabulário religioso pela linguagem política, mas preserva sua função. No nazismo, judeus são descritos como ameaça existencial, corruptora, quase sobrenatural. O antissemitismo nazista se alimenta diretamente da tradição medieval de demonização, explica o historiador. Ao transformar um povo inteiro em encarnação do mal, o regime cria as condições simbólicas para o extermínio. Não se matavam pessoas, combatia-se o mal.
Durante a Guerra Fria, o diabo passa a atender por outro nome: comunismo. O discurso anticomunista mobiliza imagens apocalípticas semelhantes às religiosas. O inimigo é descrito como ateu, destruidor da família, corrosivo da ordem moral. Na América Latina, essa narrativa ajuda a justificar golpes de Estado, perseguições e ditaduras. Quando o adversário se torna diabólico, a democracia vira detalhe negociável.
Em 1983, Ronald Reagan chamou a União Soviética de império do mal. Não era apenas retórica. Ao recorrer a imagens morais absolutas, Reagan reforçava a ideia de que o conflito não era político, mas existencial. O comunismo deixava de ser uma ideologia discutível e também passava a ser uma ameaça metafísica. O diabo, mais uma vez, fazia o trabalho sujo.
Não sei, só sei que foi assim: quando o diabo virou pop
Fora das instituições políticas, o diabo contemporâneo ganha novos contornos e usos. No Brasil, lembra o teólogo Edin Sued Abumanssur, a cultura popular frequentemente retirou do demônio o poder absoluto. Na literatura de cordel, ele aparece enganado, ridicularizado, derrotado por personagens pobres e astutos. O medo é reescrito como narrativa controlável. O diabo continua presente, mas já não domina a história.
Em outros espaços, essa domesticação simbólica também se manifesta na cultura de massa contemporânea. Em séries, filmes e romances, o diabo deixou de ser apenas antagonista e passou a ocupar o centro da narrativa. O inferno, ali, não é um lugar físico, mas uma condição psicológica. A cultura pop faz algo que a política não consegue: humaniza o diabo, afirma o historiador Pierre Grangeiro. Quando o transforma em personagem complexo, retira dele a função de ameaça absoluta e o aproxima do público, completa.
Mesmo no cinema, o diabo frequentemente aparece menos como origem do mal e mais como metáfora da ambição humana, do desejo reprimido ou da transgressão social. Para Abumanssur, esse deslocamento não elimina o personagem, apenas redefine sua função: Quando o diabo vira personagem de narrativa, ele deixa de servir ao medo e passa a servir à reflexão [] O mal já não vem de fora como entidade soberana, mas emerge das escolhas humanas.
Na expressão artística, as regras e o próprio jogo são outros quando comparado ao campo político, em que essa humanização raramente acontece. No fim, o uso da figura do diabo é menos sobre religião do que sobre a dificuldade humana de lidar com conflitos, inclusive os próprios. Enquanto isso, o mal feito gente segue eficiente e disponível para cumprir, mais uma vez, seu eterno papel diabólico.